Rapaz dedica vida ao filho com necessidades especiais após perder o marido: ‘Me fez aprender muito’

Ricardo Guimarães, Fábio Ferreira e o pequeno João Miguel (Foto: Arquivo Pessoal)

Por Milena Carvalho

Era fim de tarde do dia 07 de março de 2015 quando Fábio Ferreira, no auge dos seus 21 anos, recebeu uma ligação que iria mudar sua vida. O bebê tão aguardado por ele e o marido, Ricardo Guimarães, estava pronto para ir para casa. Ansioso por adotar uma criança já há algum tempo, o casal precisou esperar mais de 1 ano para finalmente ter João Miguel como filho.

Mas a história entre eles é antiga. O administrador de empresas, aos 16 anos, conheceu o primeiro (e único) namorado lá em 2010. “Minha família sempre foi ausente pelo fato de eu ser gay, não aceitaram como sou, então o Ricardo acabou me ajudando muito”, relembra em entrevista ao Yahoo Vida e Estilo. Após alguns anos juntos e por terem uma diferença de idade considerável – 12 anos –, Fábio começou a ser pressionado pelo companheiro pela vontade de ter um filho: “ele foi muito categórico: ‘serei pai com ou sem você’”. Foi a partir daí que o pensamento sobre adoção começou a mudar. “Outra visão foi surgindo, não mais aquela de caridade, mas sim de amor”, revela.

Leia mais:
Dormir mais de 8h por noite pode fazer mal à saúde
Irmão com Down ganha linda homenagem

Morador de Caçu, no interior de Goiás, o rapaz fez contato com a assistência social até descobrir a existência de João Miguel. Naquela época com apenas 5 meses, o bebê havia sofrido sérias agressões da mãe – chegou a ficar com oito lesões na cabeça – e desenvolveu diversas complicações, como a perda da visão e de força motora. Isso, segundo Fábio, nunca foi um impeditivo para a adoção. “A assistente até me falou: ‘você não vai querer ele não, são muitas as sequelas’. Aquilo para mim foi uma afronta, como se tivesse levado um tapa na cara.”

Após toda a espera durante o processo (a criança voltou a ficar um tempo com a família biológica), a guarda provisória saiu. “Demorou 10 dias desde a notícia até ele chegar em casa, no dia 17 de março de 2015, e ele havia acabado de fazer 1 ano”, conta Fábio. Segundo ele, o bebê chorava sem parar no início. “Os três primeiros meses foram os mais difíceis.” No entanto, apesar da complexidade, a dupla conseguiu driblar com muito amor e dedicação a difícil situação que era criar João Miguel.

A triste perda do marido

Foram mais de três anos cuidando do filho em parceria. Há cerca de um mês, porém, Fábio se viu desnorteado após a morte do companheiro, com quem se relacionou por oito anos. Ricardo foi diagnosticado com meningite fúngica e internado, quando contraiu uma pneumonia e não resistiu. “A ausência dele está muito forte e um recomeço agora será difícil”, desabafa. “Passar esse Dia dos Pais sozinho vai ser complicado”, lamenta o jovem em meio às lágrimas durante a entrevista.

Ricardo e João Miguel (Foto: Arquivo Pessoal)

Apesar do momento de dificuldade, Fábio conta com a ajuda da sogra e pensa no filho para conseguir se reerguer. E, mesmo com o amor incondicional que sente, o administrador garante que nem sempre foi assim. “Quando você adota uma criança, no começo você não a ama. Tem o intuito de cuidar, mas é só convivendo que se adquire o amor“, explica. “Agora não. Eu trocaria a minha vida pela dele se fosse preciso.”

Leia mais:
Cuidar de crianças em casa é pior do que trabalhar fora
Mãe escreve carta para seu bebê que morreu

Para Fábio, João Miguel, atualmente com 4 anos, trouxe, acima de tudo, respeito para o casal. “Ele me fez aprender muito. Meu filho não precisa andar, nem falar. Se você o aceita e o ama assim, é o suficiente”, se declara. Sobre o Dia dos Pais que está chegando, o rapaz incentiva a adoção por casais homoafetivos e de crianças que necessitam de cuidados especiais. “Precisamos largar os padrões e parar de escolhê-las como se fizessem parte de uma fila de mercadorias. Foi o João Miguel que escolheu a gente, e para mim ele é perfeito.”