Rafaela Silva luta bem quando sente raiva, afirma Flávio Canto

CARLOS PETROCILO*
*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 28.06.2017- O ex-judoca e apresentador Flavio Canto. (Foto: Marcus Leoni/Folhapress)

CUIABÁ, MT (FOLHAPRESS) - Aposentado dos tatames desde 2012, Flávio Canto, 44, ainda vive o judô intensamente. É comentarista da modalidade na Globo e comanda o Instituto Reação, que atualmente atende a quase 2.000 crianças e adolescentes de forma gratuita em suas duas sedes.

O instituto nasceu em 2004, na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, e inaugurou neste mês uma unidade em Cuiabá, com o apoio financeiro do banco BV. O padrinho do projeto em Mato Grosso é o judoca peso-pesado David Moura, 32, vice-campeão mundial em 2017 e que já foi aluno de Canto.

O ex-judoca, medalhista de bronze na Olimpíada de Atenas-2004, atua também como uma espécie de mentor da campeã olímpica em 2016 Rafaela Silva, 27, principal atleta revelada pelo instituto e que atualmente cumpre suspensão de dois anos por doping, à espera do julgamento do seu recurso na CAS (Corte Arbitral do Esporte).

Canto acredita que, se ela for absolvida pelo uso de fenoterol (substância com efeito broncodilatador), todo o drama poderá contribuir para o seu desempenho na Olimpíada de Tóquio-2020.

"A Rafaela tem muita raiva dessa história, porque se sente injustiçada. E ela lida muito bem com esse tipo de coisa. Cada um é cada um. Eu, por exemplo, gostaria de lutar feliz. A Rafaela luta bem quando sente raiva", disse em entrevista à reportagem.

Essa hipótese só poderá ser testada, é claro, se Tóquio-2020 não for cancelada pela pandemia de coronavírus. Caso seja adiada, o ex-atleta vê até a possibilidade de Rafaela se beneficiar, desde que consiga ao menos diminuir o tempo de gancho. "Tem essa possibilidade da Olimpíada ser adiada. Não, não quero pensar nisso, mas já pensou se for adiada e ela pega oito meses?". Ela cumpre suspensão desde novembro.

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Perguntar - Por que abrir uma unidade do Instituto Reação em Cuiabá?

Flávio Canto - O caminho natural seria São Paulo, mas o destino nos aproximou do David Moura. Eu o conheci quando ele entrou na seleção, e eu estava parando de lutar. O David cismou que eu poderia ajudá-lo. Estava com uma vida louca, começando a trabalhar na TV, e ele persistia para treinar comigo. É um cara que se preocupa com os demais. Tenho vários amigos, mas não consegui trazê-los para o Reação porque poderiam querer ser maior que o instituto, e não são.


O instituto teve três classificados para os Jogos de 2016 e o ouro da Rafaela Silva. Qual patamar você gostaria de alcançar em Tóquio?

FC - No Rio foi um número muito bom. Ter lutador na Olimpíada será muito importante para a gente. Estamos enfrentando um momento difícil com a Rafaela e torcendo muito por esse recurso dela. Ainda tenho esperança que ela seja absolvida ou tenha a pena reduzida. Mas hoje estamos nessa situação, o David está brigando cabeça a cabeça com o Baby [Rafael Silva], o Victor Penalber tem uma chance improvável porque teve lesão no joelho. O Popole [Misenga, do time Refugiados], um super querido, está dentro. Então, se der certo os três, ótimo.


Qual foi a sua reação com a suspensão da Rafaela Silva por doping?

FC - A notícia da Rafaela é muito triste para mim. Ela é inocente nessa história. O fato de saber que não usou nada é que foi uma porrada. A minha preocupação é como está a cabeça dela diante de tudo isso. O advogado, segundo a Rafaela me disse, tem muita esperança no recurso. Tenho me preocupado muito com a cabeça dela caso não passe [o recurso].


Caso a Rafaela seja absolvida e possa disputar a Olimpíada, acredita que toda essa angústia poderá prejudicá-la?

FC - A Rafaela tem muita raiva dessa história, porque se sente injustiçada. E ela lida muito bem com esse tipo de coisa. Cada um é cada um. Eu, por exemplo, gostaria de lutar feliz. A Rafaela luta bem quando sente raiva. Eu e o Geraldo [Bernardes, técnico dela] ficamos preocupados quando ela está numa onda muito boa. Quando teve o episódio do racismo [nos Jogos de Londres, em 2012], um ano depois foi campeã mundial no Rio de Janeiro. Eu gosto quando ela chega à competição depois de algumas pauladas. Uma coisa boa na Olimpíada do Rio foi ela ter lido que era certeza em 2012 e dúvida em 2016. Ela fala isso em palestras. Aquilo mexeu com ela, motivou. Talvez pela sua história, sua origem, a Rafaela se sente injustiçada, ela tem uma coisa meio que Mike Tyson de lutar contra o mundo.


Quais prejuízos a Rafaela pode ter pelo fato de não poder competir?

FC - Ela vai perder pontos, mas não o ranking para os Jogos de Tóquio. Só que poderá deixar de ser cabeça de chave, e isso atrapalha muito na Olimpíada, poderá pegar uma judoca de ponto logo de cara. Tem essa possibilidade de a Olimpíada ser adiada. Não, não quero pensar nisso, mas já pensou se for adiada e ela pega oito meses?


O instituto teve outra judoca suspensa por doping, a Jéssica Pereira. O que é preciso fazer para evitar esses casos?

FC - O da Jéssica é diferente, um doping de diurético, para perder peso. Adoro a Jéssica, mas pagou o preço. Estava com a Olimpíada na mão. No Reação temos fortalecido nossas conversas em relação ao doping, de como se cuidar e de como funciona. Espero que essas situações sirvam de exemplo.


Como você analisa o momento do judô brasileiro e quais projeções para Tóquio?

FC - É um momento difícil. No feminino, a gente tem a Mayra [Aguiar], a principal. Há uma briga entre a Bia e a Suelen [Beatriz Souza e Maria Suelen Altheman] e a Rafaela com chances. Nas outras categorias, precisaríamos de alguém num dia especial, como aconteceu com Rogério Sampaio [1992], Leandro Guilheiro [2008], Carlos Honorato [2000]. Eles não eram cotados e chegaram arrebentando. O nosso judô é técnico o suficiente para surpreender. No masculino, temos boas chances no peso-pesado, seja quem for entre o Baby e o David, apesar de a categoria estar mais difícil hoje do que há três anos. Muita gente do meio-pesado subiu e está bem. Tirando essa categoria, a gente depende de quem estiver num dia especial, como o Daniel Cargnin. Quanto a medalhas, conquistar duas será um resultado bom, três será muito bom.


A redução de investimento e patrocínios para o esporte nos últimos anos pode afetar o rendimento do Brasil em Tóquio?

FC - O nosso perigo é com 2024 [Olimpíada da França]. A gente tem o legado de 2016 para 2020 e teremos novidades a partir de Tóquio, como skate e surfe, que vão trazer muitas medalhas. Então, a performance deve atingir a de 2016. A de 2024 me preocupa por causa do estado atual do esporte.


O Tiago Camilo disse em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo que o judô brasileiro está ultrapassado. Você concorda?

FC - Essa gestão técnica de hoje é a mesma da minha época. Esteve presente no Brasil exuberante. Então por que estamos tendo menos resultados [hoje]? Temos uma geração menos talentosa. Eu venho de uma geração de muito talento, com [João] Derly, Tiago Camilo, Leandro Guilheiro. O judô deixou de ser do Aurélio Miguel, do Rogério Sampaio, para ser do Brasil. [Formou-se] uma geração tão forte que talvez tenha atrapalhado os que estavam chegando. Eu parei de lutar com 35 anos, enquanto havia outras pessoas de fora, assim como o Leandro, o Tiago. Treinava com o júnior e não dava nem saída. Por exemplo, teve um campeão mundial júnior com quem fomos lutar e eu ganhei de ippon. O Tiago também [ganhou] com ippon. Esse cara sumiu. Olha o estrago que a gente fez, esse cara poderia ter sido campeão olímpico.


*O jornalista Carlos Petrocilo viajou a convite do banco BV