Rafael Coutinho inova em HQ com quase mil páginas condensadas em tijolinho

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*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP,  10.07.17: Rafael Coutinho (quadrinista).  (Foto: Marcus Leoni / Folhapress)
*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 10.07.17: Rafael Coutinho (quadrinista). (Foto: Marcus Leoni / Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - É difícil chamar o novo lançamento do quadrinista e artista plástico Rafael Coutinho de livrinho. Afinal, são cerca de mil páginas, o que faz do livro um tijolão. Mas cada folha é um quadrado de apenas 12 cm de lado, o tamanho de um CD. Ou seja, é um tijolinho.

O formato atraente deixa "Outros 500" parecido com uma caixinha, boa para enfeitar estantes e mesas. Mas é uma obra que encanta de verdade pelo conteúdo, nascido de um intenso delírio criativo proposto por seu autor e um parceiro de desenho, o xará Rafael Sica.

Em 2013, Coutinho tinha uma editora. Recebia amigos e pensava em novos produtos dentro do mundo dos quadrinhos e ilustrações. A cena paulistana experimentava então um boom de lojas online de editoras independentes.

A ideia de Coutinho e Sica se aproximou muito de uma performance. Eles resolveram produzir durante horas seguidas desenhos que poderiam ou não ter relação entre eles. Pensaram num fluxo de ideias semelhante ao método atribuído ao escritor beatnik Jack Kerouac, que afirmou ter escrito o romance seminal "On the Road" em bobinas de papel, para não ter que perder tempo trocando as folhas na máquina de escrever e continuar datilografando freneticamente.

"Foi também um proto-financiamento coletivo, um início do crowdfunding", diz Coutinho. "Nós desenhávamos e ao mesmo tempo vendíamos os originais num site que montamos. Isso levou cinco dias. Recebíamos os pedidos e o volume de pessoas interessadas nos surpreendeu. Cada um fez cerca de 500 ilustrações, e vendemos tudo antes mesmo de acabar de desenhar. O final da produção foi on demand", brinca o autor.

A maneira de vender o material também foi inovadora. Eles colocavam os desenhos de forma aleatória dentro de envelopes, com cinco, dez ou 20 desenhos, e eles eram vendidos sem que o leitor soubesse quais desenhos receberia. "Na verdade, era tudo tão rápido que a gente mesmo não sabia quais estavam sendo mandados em cada envelope", conta o desenhista.

Assim, aquelas ilustrações que não necessariamente exibiam uma sequência ao serem desenhadas ficaram ainda mais misturadas na distribuição para o público. Seria isso uma subversão total das histórias em quadrinhos, também chamadas de arte sequencial?

Autor de elogiadas obras de HQ como "Cachalote" (em parceria com o escritor Daniel Galera) e "O Beijo Adolescente", Coutinho discorda.

"Cada leitor faz suas conexões entre os desenhos. Era realmente um processo novo. Já tinha feito muita história narrativa com começo, meio e fim. Às vezes isso pode ser restritivo. A gente queria um entendimento diferente. As ideias iriam se desdobrando em alguns blocos, mas sem compromisso de um roteiro. Achei que poderia ser mais interessante do que entregar tudo mastigadinho para o leitor."

Coutinho pensou por muito tempo em uma maneira de levar às pessoas uma visão total da obra, mas percebeu que Sica já estava preocupado com outras coisas. Então resolveu pegar seus desenhos e editar em livro. Um amigo e editor português sugeriu o formato tijolinho.

O caráter da leitura de "Outros 500" é lúdico. Parece um jogo. Em alguns poucos blocos narrativos os desenhos têm conexões. Há de tudo um pouco, entre resultados engraçados, bonitos ou intrigantes.

Coutinho se sente feliz em fazer parte de uma geração que trabalha com HQ num momento em que o gênero pode estar chegando a uma era contemporânea. "Na pintura, você viu durante muito tempo as representações de duques, príncipes e paisagens, e isso mudou para uma coisa totalmente diferente. Eu acho que o quadrinho tem muitas opções ainda para serem ser exploradas."

O próprio formato fofinho de "Outros 500", que Coutinho trabalhou com editoração de Vanessa Lima e capa de Pedro Franz, se encaixa nessa onda de inovação.

"O objeto-livro ganha relevância. Eu me interesso muito por formatos diferentes. Acho que a arte de quadrinhos não precisa se encaixar nas revistas o tempo todo. Durante muitas décadas, o consumo dos quadrinhos puxado pelos super-heróis inseriu o gênero na cultura de massa. Para continuar vendendo muito, o gibi ficou preso a um único modelo."

Depois de imprimir uma tiragem única e limitada de mil exemplares de "Outros 500", vendidos exclusivamente na loja virtual do artista, ele se dedica agora à HQ, digamos, tradicional. Mas um autor que se entregou de tal forma a um trabalho criativo inusitado, em formato inédito, não deve demorar muito para ter alguma ideia bem diferente na cabeça.

OUTROS 500

Preço: R$ 60 (venda exclusiva na rafacoutinhostore.com)

Autor: Rafael Coutinho

Editora: Narval Comix

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