Por racismo ou pressão estética, nem sempre é fácil assumir o cabelo que quer usar

Natália Eiras
·10 minuto de leitura
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Por racismo ou pressão estética, nem sempre é fácil assumir o cabelo que quer usar. Foto: Getty Images

Por Natália Eiras (@naeiras)

Em um mundo cada vez mais conectado e liberal, em que uma rolada na timeline do Instagram a gente pode ver pessoas de diversos tipos e formas de cabelo, parece que a jornada de usar os fios da forma que bem entende é simples. Mas ela ainda não. Seja por pressão estética ou racismo estrutural, o nosso cabelo ainda é muito vigiado. Precisamos nos encaixar em certas caixinhas para sermos aceitos e vistos como belos.

“Um profissional de respeito não usa dreads”. “Uma mulher de mais de 30 anos não pode ter cabelo colorido”. “Fios compridos são mais sedutores”. “O cabelo cacheado não é bonito o bastante”. Há várias concepções que aceitamos como verdade, mas que, na realidade, é apenas o padrão estético ditando o que pode ou não ser feito. Se livrar delas pode ser difícil, mas há quem esteja desafiando essas ideias. Yahoo falou com cinco pessoas que passaram pela jornada de, finalmente, usarem o cabelo do jeito que bem entendem. Veja:

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“Fiz dreads quando senti que minha carreira estava consolidada”

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“Eu sempre quis deixar o cabelo crescer desde os quinze anos, mas fiz uma opção de carreira de trabalhar no mundo corporativo, o que implica em conviver, infelizmente, num universo ainda muito machista, racista e repleto de preconceito e discriminação à população LGBTQIA+. Eu sou um profissional negro e gay. Escondi minha sexualidade até onde deu. E apesar de a minha pele ser retinta, também tentei esconder o óbvio da minha negritude, optando por não ter o cabelo que eu queria - era o que estava sob meu controle. Sempre quis deixar o cabelo crescer ou ter dreads, mas sabia que por isso poderia colocar um esforço a mais para que o meu talento e capacidade fosse reconhecida. Inconscientemente o talento de pessoas diferentes de mim já tinha sido ‘testado e aprovado’ - já as mais parecidas comigo não.

Mas decidi deixar o cabelo crescer em 2017. Porém, essa atitude só foi tomada depois que eu senti que eu era um profissional de carreira mais consolidada. Foi bem difícil aceitar esse processo. Comecei a usar bonés para cobrir o cabelo e me acostumar com essa nova imagem. Quando ele cresceu, usava a técnica nudread [em que o cabelo é estilizado com a ajuda de uma esponja]. Neste momento, me apropriei mais da minha imagem e depois me deu coragem de fazer os dreads. Hoje sou bastante realizado e não penso em tirar. Logo quando comecei a deixar o cabelo crescer, os comentários foram muitos. "Prefiro ele curto". Quando coloquei os dreads ouvi comentários mais positivos do que negativos.

Hoje me sinto mais livre. Não é raro pessoas que trabalham comigo e que me conhecem dizer que se inspiram em mim, na minha trajetória. Muitas delas apontam meu cabelo dentro dessa narrativa. Eu fico muito feliz. Ser um dos quase 7% dos gestores negros das grandes empresas do país é uma responsabilidade. E poder atuar expressando minha identidade como achar melhor é um dos instrumentos que uso para contribuir na luta antirracista no mundo corporativo.”

Gustavo Narciso, 32, gerente executivo

“Depois da morte do meu filho, deixei de me importar com a opinião dos outros e deixei meu cabelo colorido”

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“Quando era adolescente, queria muito ter o cabelo em uma cor fantasia, só que, na época, eu não tinha acesso aos produtos. Fazia mecha, luzes, mas, no máximo, em um vermelho vibrante. Até tentava pintar o cabelo com papel crepom. Além disso, meu pai era muito rigido, então eu sempre me preocupei muito com o julgamento dele. Quando cresci, o cabelo colorido era visto como coisa de gente doida e aquilo ficou interiorizado em mim. Pensava que, como tinha passado dos 30 anos, eu deveria ser uma mulher séria. Nunca me questionava porque me importava tanto com o que os outros pensava. Ainda assim, toda vez que eu via alguém com o cabelo colorido, eu achava tão bonito.

Até que, em 2015, quando tinha 36 anos, eu perdi meu pai. Uma semana depois, descobri que estava grávida, meu filho nasceu prematuro e, após oito dias, ele morreu. Eu fui internada com infecção generalizada e fiquei entre a vida e a morte por 30 dias. No hospital, fiquei me perguntando se, se eu morresse naquele dia, eu teria sido a pessoa que queria ser. Foi quando deu a virada: decidi que, quando saísse dali, nunca mais deixaria de fazer algo que estava com vontade. Porque eu já tinha perdido tudo o que alguém podia perder: eu havia perdido meu pai e meu filho. Decidi que não seria uma pessoa X na sociedade que me impediria de fazer alguma coisa, porque já tinha passado por coisas piores. Foi quando parei de me importar com o que os outros pensavam a meu respeito.

Nessa época, eu também passei por uma aceitação do meu corpo, porque havia ganhado muito peso com a morte do meu pai. Assim, me assumi como uma mulher plus size, fiz tatuagens e pintei o cabelo de azul. Eu me senti livre em poder usar os fios da forma que eu queria. Senti-me completa, plena. Foi como se eu tivesse descoberto a cor real do meu cabelo. Que eu nasci com ele colorido e, na verdade, pintava de preto.

Mentiria se eu dissesse que todo esse processo foi de boa. Sempre me importei com a opinião alheia. Mas, depois de tudo o que passei, pensei se realmente fazia sentido me importar tanto. Decidi pagar o preço para ser quem eu sou. E veio muito julgamento, principalmente de amigos e conhecidos. Falavam que meu cabelo era tão bonito antes, porque eu não deixava de outra forma. Para lidar com os comentários, parei de frequentar lugares com pessoas que me julgavam.

Foi muito significativo para mim quando, em 2019, por questões financeiras, tive que voltar a ter o cabelo preto. Eu chorei muito na frente do espelho, porque estava passando por uma época difícil. Já descolori novamente e, agora, voltei, de novo, a ter o cabelo da cor natural, mas agora estou mais tranquila, porque não tem mais o mesmo peso. Eu entendi que o cabelo é apenas uma parte da minha expressão. Hoje, com 42 anos, consigo ser quem eu sou de cabelo azul, roxo ou preto. Seja o que for.”

Fernanda Passos, 42, professora de cosmética natural

“Só cortei meu cabelo porque estava em um relacionamento”

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“Eu tinha vontade de ter o cabelo curto há muito tempo, mas passava muitas coisa pela minha cabeça. Primeiro, achava que, por ser gorda, o meu rosto redondo não ficaria bom de cabelo curto. Com o tempo fui desconstruindo essa ideia, que é uma concepção gordofóbica. Porque o rosto redondo também fica bonito de cabelo curto como qualquer outro rosto. Mas, mesmo assim, eu tinha uma insegurança porque o cabelo acaba sendo uma parte grande da nossa construção de personalidade, de estilo, como indivíduo. As pessoas olhavam e lembravam de mim pelo meu cabelo, porque sempre tive ele bem comprido e bem bonito, bem cuidado. Sempre chamou muita atenção das pessoas, principalmente das minhas paqueras. Durante a pandemia, ele cresceu e foi ficando sem corte, imenso, e não estava bonito. Voltei a pensar em cortar, mas não tinha coragem. Eu pensava que eu ia fazer menos sucesso com as mulheres que são o meu público-alvo.

Quando comecei a namorar a minha ex-companheira, e falei que queria cortar, ela disse que eu ia ficar bonita e me deu a maior força para que eu passasse a tesoura. Esse incentivo foi primordial para que eu desse o próximo passo. Porque eu já tinha procurado várias referências de mulheres gordas de cabelo curto e já achava lindo. Mas acreditava que ia mexer muito no meu poder de sedução. Mas, como eu estava namorando, me senti confortável para fazer isso. Cortei porque tinha uma pessoa garantida ali que me acharia bonita até careca. O medo de julgamento continuava a existir, no entanto.

Acabou que nosso relacionamento terminou seis meses depois de eu ter feito o corte. Quando voltei para o mercado [da paquera], eu tinha muita insegurança. Era um medo real de que me tornaria menos interessante. Até que atualizei meu Tinder com fotos de cabelo curto e o sucesso foi igual (risos). Eu meio que percebi que não tinha mudado nada. Fui percebendo que era uma viagem. O meu cabelo não determina quão atraente eu sou para as pessoas. Vi que era uma coisa que estava em mim, não nos outros. Eu que julgava que aquele cabelo era uma coisa muito importante esteticamente em mim. Agora, continuo com os fios muito mais curtos do que eu usava antes. Já cortei ele de novo duas vezes, desde então. E meu poder de sedução não mudou em nada, continuo atraindo as pessoas do mesmo jeito.”

Elisa Soupin, 33, jornalista

“Minha mãe se emocionou quando viu que tenho o cabelo parecido com o dela”

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“Na minha família, somos em duas filhas. A minha irmã puxou o meu pai: tem a pele bronzeada, cabelo castanho e liso, longo. Ela sempre foi chamada de bonita por todos. Já eu sou alta demais —com 15 anos já tinha 1,80m— e bem magra, muito branca, com sardas e olho claro. Parecia mais com a minha mãe e era vista mais como ‘esquisita’.

Por causa da minha aparência, coloquei na minha cabeça que meu cabelo era a única coisa mais feminina que poderia ter, já que não achava que eu tinha um corpo ou jeito muito femininos. Então alisava o cabelo desde os 14 anos. Cortei curto, deixei crescer, mas sempre sem os cachos. Era difícil porque o meu cabelo nunca foi liso, ele armava com a umidade e tudo mais. E quando isso acontecia, eu me sentia ainda menos feminina ou bonita.

Este ano, no entanto, decidi que não iria mais alisar. Que ia deixá-lo secar naturalmente. Fui ao cabeleireiro e pedi um corte para cabelos cacheados. Mantive a franjinha, mas ele deixou o meu cabelo bem repicado. Sai com um cabelo completamente diferente, mas que era meu. Parece que acabei de chegar dos anos 1980 (risos) e agora me encaixo em uma beleza mais esquisita do que antes. E nem acho que tenha ficado tão diferente de antes. Mas agora eu assumi que não tenho corpão e nem cabelo liso, tudo o que sempre quis. Que raiva que demorei tanto tempo para perceber isso. Agora é só lavar, passar um creme e sair de casa. É um alívio.

O engraçado é que, quando meus pais viram os meus fios, não acreditaram que eles estavam naturais. Perguntaram se eu tinha feito permanente ou algum outro tratamento. E, pela primeira vez, eles viram que eu sou muito semelhante à minha mãe quando ela era jovem, que sempre tive o cabelo igual ao dela. Ela ficou muito feliz em ver como somos parecidas. Parece bobo, mas foi uma grande mudança para todos.”

Solenn Robic, 30 anos, designer e diretora de arte