Racismo na comunidade LGBT: "Branco te beija no canto da pista e não liga no dia seguinte"

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Washington Simas, Thainara Cristina Ribeiro Santana e Nlaisa Luciano (Foto: Arquivo Pessoal)
Washington Simas, Thainara Cristina Ribeiro Santana e Nlaisa Luciano (Foto: Arquivo Pessoal)

Por Vladimir Maluf (@vladmaluf)

Washington Simas, 28, é visual merchandising. Quando começou a compreender que é gay, percebeu, também, que havia algumas diferenças para um jovem negro que se declara homossexual -- fora e dentro da comunidade LGBTQIA+. O primeiro obstáculo é em casa. "A gente aprende que ser gay é muito ruim, pois o homem negro tem que ser másculo, forte e viril. Para nós, a cultura de não poder demonstrar sentimentos é ainda mais forte."

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Ele conta que as mulheres da família foram as que exigiram dos homens que ele fosse respeitado. "Elas não veem problema nenhum. Minha avó já foi para a balada comigo. Entre os homens, há um preconceito velado. Meu pai não aceita completamente e não sabe bem como agir. A gente se dá bem, mas ainda tem um certo constrangimento."

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Entre outros gays, aparece o racismo, segundo Washington. "Consigo ficar com um cara na boate, mas sempre foi mais complicado me relacionar com alguém. Muitas vezes, quando saía com uma turma de brancos, eu era o último por quem se interessavam. E, além disso, a pessoa tem a fantasia de que você seja o gay que parece hétero", diz. "Um cara branco te beija no canto da pista e, fora dali, não tem mais contato, não liga no dia seguinte."

O namorado de Washington, ele conta, é mestiço de negro e branco. Algumas pessoas do movimento negro, com o qual ele é envolvido, o acusaram de ser o que chamam de "palmiteiro" (expressão pejorativa que se usa para designar negros que se relacionam com brancos). "Quando você escolhe só sair com brancos ou só com negros, para mim, é errado -- e acontece muito. Eu me interesso por alguém pelo afeto que sinto, não pela cor da pele."

"Já ouvi: Até que sexo com negra é bom'"

Thainara Cristina Ribeiro Santana (Foto: Arquivo Pessoal)
Thainara Cristina Ribeiro Santana (Foto: Arquivo Pessoal)

Thainara Cristina Ribeiro Santana, 25, também trabalha como visual merchandising. Para ela, o preconceito também foi duplo: "Meu pai é pastor e minha mãe é evangélica. Eles não me aceitaram e, hoje, vivo com uma tia, que foi a única da família que me acolheu." Mas, entre outras meninas lésbicas, Thainara também sofreu racismo.

"Já me envolvi com uma mulher branca que me disse: 'Até que sexo com negra é bom'. Uma outra garota, morena que usava lente de contato colorida e alisava o cabelo crespo, queria que eu alisasse o meu para continuar com ela." Thainara "deu um pé" nas duas. "Às vezes, o racismo é assustador. Mas o importante é ter apoio. Aconteça o que me acontecer, eu tenho amor dentro de casa."

"Na favela, me escutam sem a arrogância do ambiente acadêmico"

Nlaisa Luciano relata preconceito na academia (Foto: Arquivo Pessoal)
Nlaisa Luciano relata preconceito na academia (Foto: Arquivo Pessoal)

Nlaisa Luciano, 24, é coordenadora de um pré-vestibular comunitário na favela da Maré, no Rio de Janeiro, e estudante de Letras na UFRJ. Entre as experiências de racismo e transfobia que sofreu, ela conta que o preconceito é mais comum na universidade do que onde trabalha, nasceu e mora até hoje. "Muitas pessoas aqui da favela, mesmo sem ter formação, me escutaram sem a arrogância do ambiente acadêmico"

Ela fala que existe uma diferença entre os grupos LGBTrans e LGBCis -- cis vem de cisgêneros, as pessoas que se identificam com o gênero designado no nascimento, homem ou mulher. "A comunidade LGBTrans sofre uma violência maior, mas isso não significa que a opressão que uma outra pessoa viva deva ser diminuída."

Nlaisa explica que muitas pessoas cisgêneras, mesmo sendo gays, lésbicas ou bissexuais, ainda carregam consigo o preconceito contra trans e o racismo. "Quanto mais longe de uma exigência social padrão, mais você sofre. Se você for negro e gay, sofrerá preconceito. Se você negro, gay e não for magro, isso vai aumentar. Se for afeminado, pior ainda… Quanto mais você se distancia desses padrões, maior a opressão."

A hipersexualização também é uma questão forte na trajetória de Nlaisa, problema muito comum para negros e travestis. "A todo momento as pessoas me sexualizam, principalmente os homens cis, que se classificam como pessoas de bem, de família, morais, cristãs." Segundo ela, travestis são rejeitadas em diferentes ambientes. "Mas, para o prazer sexual, somos as primeiras a serem procuradas."

"Homens e mulheres não querem se relacionar com uma mãe"

Pansexual, mulher e negra, Camila Neves de Souza, 25, orientadora acadêmica, diz que duas coisas pesam muito para pessoas como ela: o racismo e o machismo. "É muito comum você dizer uma coisa, ninguém ouvir, e uma pessoa branca repetir o que você acabou de falar e ser ouvida. Não são todos, claro, mas a maioria das pessoas ainda ouve mais o branco.

Nas relações amorosas homossexuais, Camila lembra que já sofreu racismo de mais de um parceira. "Uma história que me marcou foi a de uma menina, com quem me relacionei, e, durante uma briga, me dizia: 'já vai começar com o vitimismo, lá vem a preta falar de racismo', rindo e debochando de mim."

Atualmente, Camila não quer um relacionamento. "No meu caso, há uma outra questão: eu sou mãe. As pessoas não querem ficar com uma mulher que tem filhos" O preconceito por sua sexualidade, raça e até a maternidade, para a decepção de Camila, não vem só dos grupos que estão dentro do considerado "padrão" e "conservador". "Não são só os homens que não querem uma relação com uma mãe. As mulheres também não", finaliza.