O racismo em detalhes perversos: mulheres negras e o medo de batom vermelho

Elisa Soupin
·4 minuto de leitura
Foto: Arquivo Pessoal
Foto: Arquivo Pessoal

A maquiadora Mônica Reis é especialista em pele negra. Ela dá workshops em que conscientiza colegas de profissão, brancos e negros, sobre as especificidades de clientes negras: quando uma mulher negra senta na cadeira de um maquiador, toda sua história de sua vida se senta também. Isso inclui estereótipos e racismos sofridos. E, durante sua carreira, Mônica entendeu que o uso de um item clássico da maquiagem, o batom vermelho, pode ser um tabu para algumas mulheres negras.

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“Durante workshops para mulheres negras, eu sempre peço para que as mulheres usem um batom que elas nunca usaram e geralmente isso está ligado a tons vermelhos ou mais escuros. Certa vez, uma aluna colocou um batom vermelho e começou a chorar. Contou que nunca tinha usado batom vermelho porque a mãe dizia que era melhor ela não chamar a atenção”, conta Mônica.

Mônica. Foto: Arquivo pessoal
Durante sua carreira, Mônica entendeu que o uso de um item clássico da maquiagem, o batom vermelho, pode ser um tabu para algumas mulheres negras. . Foto: Arquivo pessoal

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A questão, infelizmente, não é uma particularidade da vivência dessa aluna. Ela está ligada ao racismo estrutural, e perpassa detalhes simples e pessoais, como a escolha de um batom.

“Essa questão da mãe ensinar a não usar está muito ligada ao letramento racial, em querer proteger a filha do racismo, achando que é melhor que ela não chame a atenção”, diz a maquiadora.

O caminho até o batom vermelho

A produtora de conteúdo Carmen Lúcia Silva, de 31 anos, passou quase a vida inteira tentando disfarçar seus lábios. “Sempre que eu ganhava um batom, eu dava para alguém ou jogava fora”, conta ela. A primeira vez que ela usou o item foi aos 26 anos, quando estava deixando de alisar o cabelo e passando por uma transição capilar.

Carmem. Foto: Arquivo pessoal
Carmen Lúcia Silva, de 31 anos, passou quase a vida inteira tentando disfarçar seus lábios Foto: Arquivo pessoal

“Meu primeiro batom foi uva. Usar foi uma sensação muito louca, eu me vi uma mulher bonita, poderosa e muito livre”, conta ela.

Mas chegar na segurança de usar um batom vermelho era mais difícil. “Ele estava em outro lugar, sempre foi um tabu para mim. Depois de usar o uva e gostar, achei que talvez rolasse, mas só mais de um ano depois testei o vermelho. E aí entendi que não existe lábio carnudo demais, que não existe batom que não combine com lábio grande. O que existe é um olhar extremamente preconceituoso, onde se você não tem lábio fininho e nariz pequenininho, cabelo liso, pouco quadril, você está fora”, diz ela.

Ela acredita que sempre achou que essa cor fosse proibida para ela por uma questão ligada à noção de pertencimento. “Hoje eu percebo que, quando eu negava os meus traços, evitando batom para não chamar a atenção para os meus lábios e sonhando em fazer cirurgia para diminuir, estava tentando me encaixar. E é muito poderoso quando você entende que não precisa daquilo, que você já pertence: seus traços são lindos”, diz ela.

Hoje, ela assume com muito estilo os cabelos e os traços: “Mexo no meu cabelo o tempo inteiro, coloco trança, cachos, cor, e se estou com vontade de batom de qualquer uso”, afirma.

Na infância, vergonha

A estudante de História Amanda Pereira, de 21 anos, sempre foi vaidosa e adorava usar batons quando era criança.

“Minha história com qualquer batom vermelho foi bem controversa. Com 6, 7 anos de idade, eu usava qualquer cor de batom, até que um dia usei um rosa pink bem aberto para ir para a escola, e o coordenador disse: ‘Amanda sempre vem com esses batons chiques’, como um elogio. Mas algumas pessoas riram e desde então, eu passei a me sentir mal”, conta ela. Resultado: Amanda parou de usar os batons de que tanto gostava na infância.

Amanda. Foto: Arquivo pessoal
Amanda acredita que a liberdade e confiança para usar os lábios da cor que quiser vêm de um posicionamento político. Foto: Arquivo pessoal

“Fui evitando esses batons mais fortes, principalmente o vermelho. A minha mãe também não usava batons mais fortes justamente por ter lábios grossos, como os meus. Então a gente comprava sempre amarronzado ou glosses. Não usava porque tinha medo de evidenciar os meus traços”, conta ela.

A situação só foi mudar vários anos depois. “Com 16 anos, ganhei da minha mãe vários batons, inclusive um vermelho. Só então voltei a usar e me sentir bonita. Acho que foi um momento em que as mulheres negras estavam começando a pautar mais a maquiagem. Hoje, uso todos os batons: vermelho aberto, fechado, qualquer tom”, diz ela.

Em uma sociedade estruturada sobre alicerces racistas, até usar uma determinada cor de batom pode demandar coragem e Amanda acredita que a liberdade e confiança para usar os lábios da cor que quiser vêm de um posicionamento político.

“Hoje, tenho outra forma de encarar o mundo, tenho uma abordagem de enfrentamento ao racismo, então eu revido, não no sentido violento, mas no sentido de me defender. Entendo que é parte da construção da minha estética, da minha autoestima e de saber que não é feio que eu evidencie meus traços: seja o cabelo, a boca, o nariz. Se tá ‘cheguei’, é isso mesmo, eu gosto mais”, conclui ela.

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