Racismo: a doença que não sucumbe à pandemia e avança no Brasil

Thelma, do 'BBB 20', e a jornalista Maju Coutinho (Foto: Reprodução/Globo)

Esta semana, li o relato de uma mulher negra que mora no Leblon, bairro nobre do Rio de Janeiro, sobre perceber que pessoas brancas que desviavam dela na rua, em atitude tipicamente racista, agora desviam uma das outras pelo medo do contágio do novo coronavírus. Isso provocou em mim uma reflexão utópica: será que a sociedade vai ficar menos racista quando a pandemia passar? A resposta veio a galope, porque, na contramão do mundo em desaceleração, o racismo não para.

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Rodrigo Branco é o nome do branco que passou recibo de racista dessa vez. O famoso guia das celebridades, que também já foi diretor de programas na Band, falava sobre ‘Big Brother Brasil’ durante participação em uma live da influenciadora Ju de Paulla, na noite de segunda-feira (26), quando não se aguentou e expôs, sem constrangimento algum, todo o seu pensamento racista em ofensas à médica Thelma, participante do ‘BBB’, e à jornalista Maju Coutinho.

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A anfitriã da conversa reagiu imediatamente com caras e bocas de indignação e tentou contrapor a fala racista, mas Branco (tomado pela velha doença que o Brasil conhece desde a época colonial) a interrompia ao vomitar frases como: “ela é negra coitada”, falou sobre a popularidade de Thelma no ‘BBB’; ou ainda: “É a mesma coisa que falo da Maju Coutinho. Ela é péssima, é horrível (...) Ela só está lá por causa da cor", disse o empresário.

Após receber inúmeras acusações de racismo, e antes de suspender sua conta no Instagram, Branco publicou um vídeo no qual tenta explicar o que disse: “Ignorante é não mudar de ideia. Falei um monte de merda, não falei nada como eu penso. Eu queria falar uma coisa e falei outra. Fui racista e tenho que assumir quando a gente fala merda”, disse.

A defesa foi assumir o crime. Mas qual a pena aplicada a um réu confesso de racismo no Brasil? A indulgência e a compaixão da branquitude, que inclusive teve representantes tecendo elogios e aplausos ao vídeo. ‘Pobre racista, arrependido!’, eu acrescentaria se os comentários já não estivessem bloqueados.

Como bem questionou a jornalista Maíra Azevedo em seu Instagram, se não existe desculpa para flagrante de tráfico, por que um flagrante de racismo é facilmente perdoado? Porque, embora o racismo seja um crime previsto em lei, a branquitude não percebe o racista como criminoso. E, quando percebe, se solidariza, pois se identifica de alguma forma.

Se identifica porque não se considera racista, mas acha que negros bem sucedidos são arrogantes e concorda com a afirmação de Branco sobre Thelma: “Semana passada ela ganhou uma provinha, ficou se achando e humilhou todo mundo”. Ou acredita no mito do racismo reverso para justificar que um negro só consegue a popularidade ou um bom cargo como o de Maju por serem “negras coitadas” ou “por causa da cor”. 

Chegou o momento de brancos antirracistas (sim, eles existem) levantarem a mão e manifestarem repúdio não apenas contra o racista da vez, mas também contra cada amigo, primo, companheiro ou irmão que dizem não ser racistas, mas surpreendem com comentários que colocam em dúvida a capacidade de pessoas negras. Lembrem-se que mulheres negras ocupam menos de 1% dos cargos executivos nas 500 maiores empresas do Brasil (Instituto Ethos), o que deixa explícito que quem consegue espaço pela cor da pele são os brancos.

Quanto ao coronavírus, quero ser otimista em acreditar que, em alguns meses, conseguiremos superá-lo. Já o racismo continua sendo doença difícil combater.