Raça em extinção? Sob Bolsonaro, jornalismo nunca foi tão necessário

O presidente, ombudsman, crítico de cinema e consultor de conteúdo para livro infantil Jair Bolsonaro. Foto: Adriano Machado/Reuters

Jair Bolsonaro é um case que desafia qualquer coach de carreira.

Em abril do ano passado, com menos de três meses de mandato, ele declarou que não nasceu para ser presidente.

“Nasci para ser militar”, justificou.

Há quem discorde, como declarou Ernesto Geisel em uma entrevista em 1993.

Ele deixou a carreira militar após ser julgado pela suposta participação em um plano para jogar bombas de efeito moral em unidades do Exército e pressionar o governo a conceder aumento salarial à categoria.

Foi o fim da linha para o militar que abraçou a carreira de vereador e deputado e não passou um dia sequer sem maldizer a classe política da qual passou a fazer parte durante quase 30 anos.

Sem talento como congressista, Bolsonaro ascendeu à Presidência em 2018, e desde então já mostrou que seu negócio talvez seja outro. Crítico de cinema, por exemplo. Ou consultor de conteúdo para livros infantis. Mais recentemente, o presidente mostrou que sonha mesmo em trabalhar como ombudsman de jornal.

Tudo porque não gostou de ler, pela imprensa, que ele se contradizia ao pedir aos eleitores para não votarem em 2020 em quem usa o fundão eleitoral. A reportagem, publicada no UOL, mostrava que ele recebeu R$ 200 mil em doações do fundo partidário na campanha a deputado pelo PP, em 2014. 

Ele alega que foi alvo de mentira porque o fundo eleitoral só foi criado em 2017 -- a reportagem, porém, deixava claro que o dinheiro recebido era do fundo partidário, não o eleitoral.

O falso ruído serviu como gancho para o presidente decretar a extinção do jornalismo no país. “Quem não lê jornal não está informado. E quem lê está desinformado. Tem de mudar isso. Vocês são uma espécie em extinção. Eu acho que vou botar os jornalistas do Brasil vinculados ao Ibama. Vocês são uma raça em extinção.”

O decreto é uma espécie de wishful thinking. Como presidente, Bolsonaro sonha com o dia em que o único meio de comunicação entre ele e os eleitores será...ele mesmo. 

Pelo modelo, bastaria um tuíte para a informação chegar acriticamente aos receptores. Nesse mundo ideal, não haveria sequer amontoado de letras em livros nem filmes de engajamento crítico para botar o brasileiro para pensar -- o que envolve desconfiar das narrativas oficiais.

Esse mundo, por mais esforços que o presidente faça, não vai existir.

Não importa se no papel, em vídeo, em posts de redes sociais ou material de podcast, onde houver poderes estabelecidos haverá alguém produzindo informação, trazendo contrapontos, preenchendo lacunas das versões mambembes da história que as autoridades sonham em produzir.

No governo atual, elas são muitas, e o exercício jornalístico, embora sob teste, nunca foi tão necessário -- assim como o bom cinema e o amontoado de letras dos livros que o presidente quer desfolhar.

Não fosse essa “raça em extinção”, ninguém jamais saberia de escândalos sobre mensalão, petrolão, Vaza Jato ou rachadinhas.

Há quem prefira viver no mundo colorido, e mal pintado, de quem conseguiu chegar onde queria e agora transforma em terapia de grupo sua falta de vocação para o posto.

Uma pena, pois no caso de Bolsonaro um coach de carreira pouparia seus dilemas -- e os nossos.