Quer ver um filme do Godard? Cineasta morto aos 91 tem produções no streaming

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um dos maiores nomes da nouvelle vague e sinônimo no Brasil de filme cabeçudo, tanto que a Legião Urbana colocou a Mônica para ver um filme dele, Jean-Luc Godard morreu nesta terça-feira (13), dia que representa o encerramento de uma dos capítulos mais importantes da história do cinema.

O diretor é responsável por longas que colocaram toda a indústria de cabeça para baixo. "Acossado", de 1960, fez platéias perderem o fôlego com sua montagem pouco ortodoxa e velocidade e cortes que viraram marca de Godard.

"Eu Vos Saúdo, Maria", de 1985, mostrou ainda mais o lado contestador do cineasta ao modernizar a Virgem Maria, transformando-a em uma mulher nos dias atuais que engravida sem ter feito sexo —o que gerou condenações mundo afora, inclusive do então papa João Paulo 2º e do então presidente brasileiro José Sarney, que proibiu o título no país.

Os exemplos são vários —e parte deles está disponível online, no streaming ou para aluguel nas plataformas digitais.

Confira abaixo 10 opções para assistir a um filme do Godard e desmistificar a fama de cineasta cabeçudo ou chato.

ACOSSADO

É um dos principais títulos da lista —e de toda a nouvelle vague, formada por jovens franceses que, depois de passarem anos escrevendo sobre cinema na revista Cahiers du Cinéma, decidiram fazer seus próprios filmes. No longa, Michel Poiccard fura uma blitz e mata um policial. Em Paris, encontra a estudante americana Patricia Franchini. Com ritmo frenético, trilha sonora que dita o ritmo caótico e cenas feitas em Paris sem permissão oficial, o filme tem lugar garantido nas listas de melhores de todos os tempos.

França, 1960. Com: Jean-Paul Belmondo, Jean Seberg, Daniel Boulanger. Para aluguel no YouTube (R$ 9,90) e Apple TV (R$ 14,90)

CARMEN DE GODARD

Neste filme vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza, Godard apresenta uma Carmen às voltas com uma gangue de assaltantes e com desejo de roubar um banco e passar a perna num tio —que surge num hospital, interpretado pelo próprio Godard. Nessa época, já fazia duas décadas que o diretor havia sacudido o cinema com "Acossado" e começava a ganhar ares de cineasta da antiguidade. Inesperado, "Carmen" recoloca nome de Godard como figura contestadora.

França, 1983. Com: Maruschka Detmers, Jacques Bonnaffé, Myriem Roussel. No Looke

DUAS OU TRÊS COISAS QUE EU SEI DELA

Godard definiu o filme desta maneira: "É a ideia de que, para viver na sociedade parisiense de hoje, em qualquer nível, a pessoa é forçada a se prostituir de uma maneira ou de outra. Ou então viver de acordo com as condições que se assemelham às da prostituição". Na produção, Juliette é uma dona de casa, casada, mas que divide seu dia a dia entre a família e a prostituição.

França, 1967. Com: Marina Vlady, Anny Duperey, Roger Montsoret. No Belas Artes à la Carte e no Mubi

EU VOS SAÚDO, MARIA

O filme foi um marco cultural na segunda metade dos anos 1980 ao atualizar a figura da Virgem Maria e mostrar uma garota que engravida nos dias atuais sem ter feito sexo, como ocorreu com a mãe de Jesus. No Brasil, o então presidente José Sarney censurou o longa em fevereiro de 1986 —no que foi um dos últimos casos de censura oficial praticado pelo Ministério da Justiça no país, que caminhava para a democracia.

França, Suíça, Reino Unido, 1985. Com: Myriem Roussel, Thierry Rode, Philippe Lacoste. No Telecine

IMAGEM E PALAVRA

Foi o último longa de Godard. O documentário foi recebido com altos e baixos, mas ganha importância fundamental na filmografia do cineasta com sua morte. Como diz o título, ele parte de montagens e colagens de imagens para produzir reflexões sobre o cinema e o próprio mundo. Com certo pessimismo, a produção que ganhou ares de testamento, costura guerras, a natureza, catástrofes ambientais e uma certa crueldade recheada de bombas.

França, Suíça, 2018. Na Apple TV (R$ 4,90), no YouTube (R$ 14,90) e no Amazon Prime Video (na assinatura do Reserva Imovision, que custa R$ 24,90/mês)

UMA MULHER CASADA

Feito com fragmentos narrativos e de imagens, o filme acompanha um dia de Charlotte, casada com um piloto de avião. O seu caso com o vizinho é mostrado a partir de pedaços e de uma colagem que une planos abertos e fechados, com zoom no rosto e em partes do corpo das personagens, num grande questionamento das diferenças entre o amor e o sexo.

França, 1964. Com: Bernard Noël, Macha Méril, Philippe Leroy. No Telecine

UMA MULHER É UMA MULHER

Neste clássico, Jean-Paul Belmondo, ator que é um dos rostos da filmografia de Godard e que morreu no ano passado, contracena com Anna Karina —uma das musas das produções do diretor e que foi premiada em Berlim como melhor atriz por este filme. Na trama, que tece uma homenagem às comédias musicais da era de ouro de Hollywood, o personagem se envolve com a namorada do amigo, que está determinada a engravidar.

França, Itália, 1961. Com: Anna Karina, Jean-Claude Brialy, Jean-Paul Belmondo. No Telecine

MASCULINO-FEMININO

Nesta produção, Godard partiu de referências como Guy de Maupassant e Marquês de Sade para construir a história de Paul, que abandona o serviço militar e se engaja na luta contra a Guerra do Vietnã. Mas essa é só a sinopse de uma produção que começa a se afastar dos preceitos da nouvelle vague e faz um emaranhado de referências a figuras pop como Charles de Gaulle, James Bond e Bob Dylan.

França, Suécia, 1966. Com: Jean-Pierre Léaud, Chantal Goya, Marlène Jobert. No Mubi

SYMPATHY FOR THE DEVIL

O filme é mais do que um registro dos Rolling Stones ensaiando "Sympathy for the Devil" —é um ensaio do cineasta sobre o caudaloso ano de 1968. Enquanto fãs da banda veem de perto Mick Jagger, Keith Richards e os Stones no auge da forma e da contestação da contracultura, o cineasta faz uma colagem com jovens pichando muros e figuras como Che Guevara, Richard Nixon, Mao Tsé-tung, Barbarella e os Panteras Negras. É uma janela para o tal ano que não terminou.

Reino Unido, 1968. No Belas Artes à la Carte

TUDO VAI BEM

É um dos principais títulos dos anos 1970. Com Jane Fonda, que interpreta uma jornalista americana que vive na França, o longa joga luz sobre a relação dela com o marido, um cineasta que vive das glórias de seus filmes elogiados do passado. Até que eles vão a uma fábrica que entra em greve. E, com uma câmera na mão, o casal mergulha na própria relação e na política do país.

França, Itália, 1972. Com: Yves Montand, Jane Fonda, Vittorio Caprioli. No Telecine