"Quem sou eu sem antidepressivos? Parei com a medicação"

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Uma mãe toma a decisão de parar de tomar seus antidepressivos (Foto: Getty Images)
Uma mãe toma a decisão de parar de tomar seus antidepressivos (Foto: Getty Images)

Este artigo reflete as experiências pessoais da autora (sob supervisão médica). Os comentários e as experiências da autora não refletem as opiniões, posições ou políticas do Yahoo. Este artigo é apenas para fins informativos e não substitui o aconselhamento, diagnóstico ou tratamento médico profissional. Entre em contato com um profissional qualificado para conversar sobre as opções de tratamento de saúde mental e antes de fazer qualquer alteração na medicação que está tomando.

O artigo a seguir contém referências à depressão e aos pensamentos suicidas que podem ser gatilho para alguns leitores.

Coloco cuidadosamente um comprimido na língua como se fosse uma hóstia de comunhão. É assim que começo todas as manhãs há quatro anos e três meses. Antes de escovar os dentes ou me vestir, tomo um antidepressivo, assim como 5,8% dos canadenses. Para mim, é uma experiência quase religiosa. Da mesma forma que algumas pessoas acreditam em Jesus, eu tenho fé nos medicamentos. Não me arrependo dessa decisão. Na verdade, os antidepressivos podem ter salvado minha vida, mas mesmo assim vou parar de tomá-los.

Mal dormi nas primeiras semanas depois que comecei a tomar antidepressivos. Uma parte de mim atribui essa súbita explosão de energia a uma nova sensação de esperança. Lentamente, os comprimidos foram melhorando meu humor depois de anos em um estado deplorável.

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Quando tinha 30 anos, o esgotamento do desespero emocional me levou a um ponto de ruptura: estava tão fraca que mal tinha vontade de manter a cabeça fora da água. Não é uma metáfora, houve momentos em que eu realmente me perguntei se poderia me afogar acidentalmente na banheira.

Quem sou eu sem meus remédios (imagem: getty)
Quem sou eu sem meus remédios (imagem: getty)

Diplomaticamente, minha médica mencionou a opção dos antidepressivos, mas os rejeitei por anos antes de começar a tomá-los. Ouvi de amigos que esse tipo de medicamento pode causar ganho de peso, e décadas de gordofobia internalizada me fizeram pensar que era melhor ficar com vontade de me jogar da janela algumas vezes por mês do que aumentar o tamanho do jeans. Mas a terapia não era suficiente no meu caso e, depois de anos de infelicidade, estava pronta para dar uma chance aos medicamentos.

O primeiro medicamento que tomei provocou pensamentos suicidas intensos e persistentes (foi horrível), mas finalmente encontramos uma droga que funcionou. Aquela gloriosa pílula branca era o príncipe dos contos de fadas que me despertou do sono da depressão. Peço desculpas pela metáfora patriarcal, mas sinceramente parecia que eu era a Bela Adormecida, e o remédio era o monarca bonito e gentil que resgatou Aurora quando beijou seus lábios. Graças ao remédio, minha vida tinha propósito. Eu estava até meio perdida de tanta empolgação, finalmente tinha energia para me comprometer com consultas semanais de terapia, limpar meu quarto e até mesmo sair para conhecer outras pessoas.

Os primeiros dias com os antidepressivos foram tão empolgantes que foi como me apaixonar. Pela primeira vez, me senti com sorte por estar viva. Comecei a escrever uma coluna sobre namoro e relacionamentos para um grande jornal canadense e também fiz novos amigos que gostavam de sair para comer nos fins de semana. Cheguei a trocar minhas milhas aéreas e viajei para o sul da França. Foi uma viagem extremamente ativa, comia croissants todas as manhãs e escalava montanhas à tarde.

Estava mais feliz do que nunca ou, para ser mais precisa, senti o que era ser feliz pela primeira vez. Eu finalmente conseguia aproveitar o momento e, ao mesmo tempo, ficar animada com o futuro. Os antidepressivos pareciam ter um superpoder.

Conheci meu marido seis meses depois de comprar o remédio que mudou minha vida. Nosso primeiro encontro foi no Terroni, um restaurante italiano no centro de Toronto, em um antigo tribunal. Quando vi aquele rapaz esperando por mim no saguão, pensei comigo mesma: "Que gatinho!".

Depois do jantar, ele perguntou se eu queria ir para outro lugar e eu disse que sim. Nós nos beijamos por cerca de uma hora na frente do meu prédio, depois ele pegou o ônibus para casa. Agora, três anos e meio depois, estamos casados e temos uma filhinha fofa que adora as pintas nos meus braços. Ela sorri e grita: “Pinta! Pinta! Pinta!” sempre que arregaço as mangas da camisa. É perfeita.

Então, por que deixar de tomar os comprimidos que me ajudaram a construir a vida que eu sempre quis?

"Os motivos mais comuns para os pacientes decidirem interromper os medicamentos, além do longo prazo, são os efeitos colaterais," explicou a dra. Jessi Gold, psiquiatra e professora da Escola de Medicina da Universidade de Washington, em uma entrevista ao Yahoo Canadá.

Gold disse que, para a maioria dos pacientes, os efeitos colaterais mais incômodos são o ganho de peso e problemas sexuais, como perda da libido e incapacidade de chegar ao orgasmo. Ela também cita a fadiga como um dos "efeitos menos toleráveis".

E a libido, a ansiedade?

A medicação não teve nenhum efeito perceptível na minha sexualidade ou no meu peso, mas me deixou com sono. Embora as primeiras semanas com a medicação tenham sido eufóricas, a sonolência, um efeito colateral comum dos antidepressivos, acabou aparecendo. Antes de a minha filha nascer, o cansaço não me afetava. Dormia 9,5 horas por dia, tinha tempo suficiente durante o dia para trabalhar em vários empregos e sair com amigos nos fins de semana, mas a maternidade acabou com o meu estilo de vida tranquilo.

Quando minha filha me acorda de manhã cedo, me sinto confusa e lenta. É uma sensação semelhante a carregar seis sacolas de supermercado por um ou dois quarteirões a mais do que o corpo pode suportar. Devido a essa exaustão persistente, me preocupo em não estar dando o melhor de mim para a minha filha. Quero acordar pronta para brincar, ler livros, cantar músicas e animada para correr no parque. No momento, preciso de algumas xícaras de café antes de me sentir capaz de construir uma torre com blocos de montar. Não sei se os antidepressivos realmente são a causa da minha fadiga, mas quero descobrir.

O segundo motivo pelo qual estou desistindo da medicação é meu estado constante de ansiedade. Minha médica confirmou que eu estava sofrendo de ansiedade pós-parto, que é menos famosa que a depressão, mas também é terrível.

A "ansiedade 2.0 da Sarah", que é como eu chamo a doença, veio com ataques de pânico e pesadelos diários. Cheguei a imaginar a simpática barista da minha cafeteria preferida sequestrando e torturando meu bebê. Às vezes, eu me sentia tão sobrecarregada que pensava em me machucar. Será que os comprimidos tinham parado de funcionar?

Sabia que a ansiedade era um efeito colateral bem estudado da medicação, mas me perguntei se a ansiedade pós-parto seria tão debilitante se eu não estivesse tomando um remédio conhecido por fazer algumas pessoas se sentirem mais agitadas. Parecia que era hora de conhecer meu cérebro sem a medicação.

A primeira coisa a fazer ao considerar o desmame dos antidepressivos é conversar com um médico com experiência no tratamento de problemas de saúde mental. Gold conta que nas consultas sobre a possibilidade de desmame, ela "fala sobre os riscos e benefícios em detalhes".

Após uma longa consulta com a minha médica, ela me apoiou, desde que eu diminuísse lentamente os antidepressivos e mantivesse consultas regulares durante o processo. Costumo seguir regras à risca, então concordar com esses termos não foi difícil, mas o processo de desmame é um grande desafio.

O desmame exige que o paciente reduza gradualmente a dose do medicamento, seguindo cuidadosamente um cronograma definido pelo médico. O processo pode durar semanas ou meses e pode desencadear uma série de sintomas, alguns deles bem estranhos. Por exemplo, tenho uma sensação quase elétrica de formigamento pelo corpo com frequência, a mesma que sinto depois de ficar sentada no sofá por muito tempo até as pernas ficarem dormentes. Também tive pesadelos intensos e sono picado. São sintomas normais, porém incômodos, que fazem parte do processo. Mas para mim, a parte mais difícil de me livrar dos antidepressivos é a preocupação de imaginar quem sou eu sem essa dose diária de dopamina.

Meu marido e minha filha nunca me conheceram sem a medicação. Continuei tomando os remédios durante a gravidez, já que um psiquiatra especializado me garantiu que era seguro. Os antidepressivos não eram a cura perfeita, mesmo com eles tive dias ruins em que chorei por seis horas e me senti a pessoa mais inútil do mundo. No entanto, era possível controlar esses sintomas com terapia regular, grupos de apoio e exercícios. Acredito que os antidepressivos não acabaram com a doença, mas a tornaram mais controlável.

Hoje, espero que as habilidades que aprendi com a terapia e a experiência dos últimos quatro anos sejam suficientes para evitar um episódio depressivo grave. Também espero que a ansiedade se torne mais controlável e que eu tenha a energia necessária para correr atrás da minha filha no parquinho. Mas também me preocupo, tenho medo de voltar a ser a pessoa pessimista e desesperada que era antes de tomar as "pílulas mágicas" que recuperaram minha capacidade de ser alegre e otimista. Tenho receio de que meu marido não ame a pessoa que vou me tornar sem a medicação.

Um médico especializado em saúde mental pode ajudá-lo a pesar os benefícios e riscos de parar de tomar medicamentos (Getty Images)
Um médico especializado em saúde mental pode ajudá-lo a pesar os benefícios e riscos de parar de tomar medicamentos (Getty Images)

Sei que meus medos são infundados. Na verdade, provavelmente são manifestações da ansiedade que ajudou a instigar minha jornada de desmame. Meu marido me garante que está perdidamente apaixonado por mim todas as noites antes de dormir. Ele continuou me amando durante as mudanças de humor na gravidez e os seis meses após o parto, quando eu não tinha ânimo nem para pentear o cabelo. Meu lado racional sabe que essa preocupação de que ele deixe de me amar não tem sentido. Meus valores, sonhos e o gosto pela comida não mudam por causa dos antidepressivos que tomo ou deixo de tomar. No entanto, minha capacidade de viver esses valores, realizar esses sonhos e até mesmo sair para comer fora algumas vezes por mês pode ser comprometida por episódios depressivos, e isso me assusta.

Meu processo de desmame está sendo marcado por oscilações, mas cheguei a uma conclusão liberadora: tenho direito de sentir medo. Vou continuar me consultando com a médica regularmente para que ela possa monitorar e avaliar minha condição. Reconheço que há uma possibilidade que os sintomas de depressão saiam do controle e me façam voltar a tomar os medicamentos, e sei que vou me sentir um fracasso se isso acontecer. E sim, também sei que não deveria me sentir assim.

Por enquanto, espero que haja um novo horizonte, com menos ansiedade, sem remédios e sempre na companhia da minha família, porque eles continuam perdidamente apaixonados por mim. Tenho direito de sonhar, pelo menos por enquanto eu consigo fazer isso. A capacidade de esperar um futuro melhor foi um presente que os antidepressivos me deram. É um presente que espero nunca perder.

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