Quem - realmente - precisa ser um profissional formado que faz dancinha no TikTok?

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Photo taken in Brussels, Belgium
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Será que é realmente necessário todo mundo começar a fazer vídeos para a internet? (Foto: Getty Creative)

O vídeo é curto, de 15 a 30 segundos. Nele, um homem já adulto aponta para a tela em posições diferentes enquanto textos com informações curtas relacionadas ao tema aparecem e desaparecem. Junto com os movimentos, ele faz uma dancinha meio desajeitada ao som de uma música empolgada que ele, com certeza, não ouve por pura e espontânea vontade no seu tempo livre.

Se o desejo de virar os olhos e se contorcer de vergonha alheia bateu por aí (como dizem os jovens: cringe!), você não está sozinho. Desde que o Instagram anunciou que oficialmente se tornaria uma plataforma de priorização de vídeos, surgiu, internet afora, uma grande discussão sobre o que seria da rede social, uma das mais usadas no mundo. No entanto, até antes disso, já se viam questionamentos importantes, muitos deles trazidos pela pandemia de coronavírus: será que todo profissional agora tem que ter uma presença na internet?

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Com os períodos de quarentena, abertura e fechamento do comércio, o mundo inteiro - ou, pelo menos, aquela parcela que tem acesso à internet -, se voltou para o online. Ali, o que já era um marketplace ficou ainda mais saturado, com centenas de milhares de pessoas aprendendo o básico sobre levar o seu negócio para a internet e como "fazer sucesso" por lá.

Tem mais, claro. Some a isso uma taxa de desemprego de 14% e muita gente, seja por desespero, seja por necessidade, seja por causa desses dois pontos somados, começou a aderir às redes sociais em uma tentativa de ser visto por alguém na internet que pudesse lhe oferecer uma oportunidade de emprego. No sonho pelo maior alcance e engajamento, e de olho no sucesso do TikTok, professores, advogados, psicólogos, médicos, até mesmo cirurgiões plásticos e economistas entraram na dança (com o perdão do trocadilho) mirando um público maior.

Todo mundo agora tem que ser tiktoker?

Você deve ter visto também tuítes nesse estilo: "não dá pra acreditar que a pessoa estuda X anos e precisa fazer dancinha na internet pra conseguir trabalho". E a nova tendência das redes sociais tem mesmo essa cara. Para ser um profissional do século XXI, em um mundo hiper conectado, estar nas redes sociais é quase obrigatório.

Empresas de mapeamento de tendências ou com foco em influenciadores, como é o caso da Youpix, chamam esse movimento de a "tiktokização das redes". O que isso significa? Que o fluxo alto de vídeos aparentemente informativos veio para ficar, uma extensão do que já acontece no próprio TikTok.

Não existe um único motivo que leva as pessoas a engajarem em uma tendência online, mas a verdade é que as redes sociais se tornaram uma parte tão integrante da vida das pessoas, que era uma questão de tempo até vermos profissionais de diferentes áreas usando das suas ferramentas para promoverem a si mesmos - promoção essa, que surge tanto por uma necessidade financeira, como em termos de relevância de carreira. Pelo menos, essa é a promessa das redes.

Em 2020, estudos indicam que o número de usuários presentes nas redes sociais, apenas no Brasil, aumentou 40% - um valor acima da média estimada de crescimento de 20% até 2023. É quase uma literalidade da máxima "tá todo mundo nas redes sociais", porque, em termos gerais, mais de 140 milhões de brasileiros estão conectados, 70 milhões a menos do que a população total to país.

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O sonho dos números, dos clientes e, muitas vezes, do dinheiro investido nos famigerados #publis são alguns dos atrativos que levam profissionais muito valorizados no mercado a sentirem uma necessidade quase patológica de dançarem na frente da câmera para os seus seguidores comentarem e curtirem. Verdade, fazer esse tipo de conteúdo não é obrigatório para ninguém, e existem maneiras interessantes e inteligentes de usá-las a favor da autopromoção que não incluem apontar para textos em uma tela. No entanto, quando todo mundo faz… Por que não fazer também? Afinal, se as respostas são boas para aquele médico, porque não seriam para você, que é advogado?

Também não é nenhuma novidade que as redes sociais têm um impacto direto na saúde mental dos seus usuários. Aliás, o termo "usuário" já é um indicativo de como essas plataformas foram construídas. Diz o documentário O Dilema das Redes que os únicos mercados que utilizam essa terminologia são o da tecnologia e o das drogas ilícitas. A base é a mesma: o vício que causam. Não é à toa que dizem que vivemos a era da atenção, certo?

Muitos estudos falam sobre a influência das redes na autoimagem e na autopercepção dos seus usuários (principalmente nas mulheres adolescentes) e a necessidade de pertencimento faz com que muita gente se veja na obrigação de usar um espaço como o Instagram, em que a viralização é tão popular, para se fazer pertencer e se fazer presente.

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O TikTok, com os seus mais de um bilhão de usuários ativos, realmente se consolidou como uma rede social sólida e importante para o mundo - e usá-la pode, de fato, ser interessante para a vida profissional de muita gente. Mas a parcimônia é sempre bem-vinda e é necessário entender, principalmente, a real necessidade de seguir uma tendência em nome da visibilidade.

O cansaço e o estresse generalizados, a ansiedade e os casos de burnout que explodiram durante a pandemia são um indicativo que de todo mundo está trabalhando demais, com medo demais, e inseguro demais sobre o futuro. Adicionar a isso tudo mais um trabalho - porque produzir conteúdo, de qualquer natureza, é, sim, um trabalho -, pode ser mais uma razão de sobrecarga do que positivo. A concorrência desleal, claro, também entra nessa, já que se sai melhor quem se vende bem nesses formatos ou tem dinheiro para investir em boas estratégias de marketing e um bom editor de vídeos.

Décadas atrás, muito antes das redes sociais, não era todo mundo que conseguia anunciar o próprio negócio nos extintos outdoors. Agora, fazer um vídeo para a internet é simples, fácil e rápido. Mas é, realmente, necessário? Estar na internet deveria ser uma questão de escolha pessoal e, jamais, uma obrigação profissional.

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