Quem já pegou o novo coronavírus está imune ao vírus? Saiba o que diz a ciência

(Niall Carson/PA Images via Getty Images)

Por Lucas Reginato

A inesperada interrupção que a pandemia do novo coronavírus causou na vida cotidiana enche de dúvidas as cabeças dos confinados. Quando a vida vai voltar ao normal? É a preocupação de qualquer um. Apesar do esforço científico globalizado, continuam a surgir mais perguntas do que respostas. Uma das principais é saber: uma vez curado do covid-19, alguém pode se infectar outra vez?

Por causa do pouco tempo decorrido desde o primeiro caso, registrado na China em dezembro, cientistas ainda tentam compreender a reação do sistema imunológico ao vírus SARS-CoV-2. A experiência com outros agentes infecciosos, contudo, traz pistas para os médicos. “Na medicina, como no amor, nem sempre, nem nunca”, responde o infectologista Edimilson Migowski, professor da UFRJ. 

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“Existem relatos de reinfecção, mas é improvável que essa reinfecção guarde a mesma gravidade da primeira, geralmente é de menor impacto, afinal, o paciente já teve anticorpos. Mesmo que seja possível, portanto, essa reinfecção teria ainda pouca ou nenhuma relevância para a saúde pública”.

“Passaporte imunológico” foi descartado pela OMS

Imunidade ao novo coronavírus é hoje o que todo mundo deseja. Enquanto a promessa por uma vacina não se cumpre, esperava-se, pelo menos, que aqueles que se curaram tivessem desenvolvido defesas imunológicas. Essa garantia, contudo, não é absoluta.

Em alguns países, como Alemanha e Austrália, foi sugerida a ideia de um “passaporte imunológico” para quem testou positivo para a presença de anticorpos ao SARS-CoV-2. Seria uma alternativa ao isolamento total, a permissão a quem se curou para circular, mas a Organização Mundial da Saúde coibiu tal estratégia por falta de embasamento científico. “Não há evidência de que pessoas que se recuperaram da covid-19 e tenham anticorpos estão protegidos de uma segunda infecção”, explicou em nota a entidade.

“A gente ainda sabe pouco sobre essa doença, algumas verdades estão sendo refeitas, e algumas coisas a gente infere. Ou seja, não sabemos quase nada”, lamenta Raquel Stucchi, médica infectologista da Unicamp. “Se a gente fica imune? Provavelmente não. A exemplo de outros vírus respiratórios, que causam resfriado. O Influenza muda toda hora, a gente não fica imune a ele”.

“Mas é o que eu acho. Eu torço para que a gente fique, e não vou brigar por isso se algum colega meu disser que a gente fica imune”, complementa. Segundo ela, por enquanto só há certeza de que alguém pegou Covid-19 com o teste chamado PCR, que detecta presença do agente em amostra de material coletado pelo nariz do paciente.

“Já em relação aos testes rápidos, a maior parte ainda não foi validada, não houve tempo suficiente de análise da performance desses exames em diferentes grupos da população”, explica a médica. “Eles têm uma performance pior, mas é o que a gente vai usar, porque são os testes que estão disponíveis”.

Relatos de reinfecção na Coreia do Sul foram desmentidos

A possibilidade de reinfecção preocupou o mundo, em abril, com a notícia de que ao menos 90 sul-coreanos que estavam curados voltaram a apresentar sintomas. Dias depois, o Diretor do Centro de Controle e Prevenção de Doenças da Coreia do Sul, Jeong Eun-Kyeong, foi a público esclarecer que, mais provavelmente, esses pacientes receberam alta após testes negativos falsos. Seriam, então, casos de reativação do vírus, e não de reinfecção.

Pesquisador do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, o virologista Luiz Gustavo Bentim Góes explica que há limites de detecção nos exames, mesmo nos mais sensíveis. “As pessoas estão sendo liberadas depois de dois resultados negativos, mas esse resultado pode significar que a quantidade genética viral está abaixo do limite de detecção, e um terceiro teste poderia dar positivo”.

Especialista em coronavírus, ele esclarece que os estudos estão mostrando que o SARS-CoV-2 tem pouca mutação, o que favoreceria a ação do sistema imunológico. “Ele tem uma capacidade de correção, é o vírus de RNA com maior genoma que a gente conhece, então se não tivesse essa capacidade se extinguiria rapidamente. Mas muda pouca coisa. A questão é saber se isso gera uma interferência fenotípica, na atividade do vírus, ou simplesmente uma mudança genética”.

Ele cita a história do SARS de 2003, outro coronavírus, no qual uma mudança de 29 nucleotídeos foi registrada. “Um grupo na Alemanha fez a comparação e mostrou que a deleção desses nucleotídeos gerou perda na capacidade infectante do vírus em 25 vezes”. Ou seja, o vírus ficou menos ofensivo à saúde humana. “De uma maneira ele pode deixar a pessoa menos doente, mas se replicar com mais facilidade”.

O cientista lembra que o vírus é uma partícula inerte, que não tem vontade própria. “O vírus não quer matar, não quer nada. Mais de 90% das pessoas tem herpes, mas a maioria não apresenta sintoma nenhum”, exemplifica. “Nos morcegos, o coronavírus não causa nada, é muito tempo de coevolução, e criou-se um equilíbrio entre as espécies”.

Pela complexidade genética dos seres humanos, ele acrescenta, cinco meses é um período muito curto para tirar conclusões sobre o novo vírus, mesmo que a quantidade de informações seja tão grande. “O esforço que a gente observa na ciência mundial é inédito. Se é suficiente, a gente não sabe”, ele conclui com uma lembrança desagradável: “há quanto tempo estamos estudando o vírus da AIDS? Não foi por pouco esforço, nem por pouco dinheiro investido, que não foi desenvolvida uma vacina”.