Heroína do Brasil, Marianna Crioula liderou a maior insurreição de escravizados do Rio; conheça

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Marianna Crioula liderou a insurgência de Vassouras em 1838 (foto: reprodução / Senado Federal)
Marianna Crioula liderou a insurreição de Vassouras, no Rio de Janeiro, em 1838 (foto: reprodução / Senado Federal)

Resumo da Notícia:

  • Marianna Crioula foi uma mulher escravizada que liderou uma insurreição ao lado de Manoel Congo

  • Nascida no Brasil e casada, Marianna era mucama da baronesa Francisca Elisa Xavier

  • A escravizada foi reconhecida pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro como heroína em 2014

O Brasil costuma apagar personagens que não descendam de portugueses ou sejam brancos de sua história colonial, mas queremos te apresentar Marianna Crioula. Escravizada, ela foi uma das líderes da última grande insurgência do Império que ajudou a libertar cerca de 400 outros escravizados na região do Vale do Café, no Rio de Janeiro, em 1838.

Na última semana, a mulher, que há época de sua façanha tinha cerca de 30 anos, foi reconhecida com uma sala de exposições no prédio da Câmara Municipal da cidade. O reconhecimento é uma ode, uma realização, em tempos que personagens negros e escravizados têm suas histórias apagadas e negadas em constância.

Mas quem foi Marianna Crioula¹? Como muitas escravizadas no Brasil, a história dela é vaga e pouco registrada, mas se sabe que ela foi uma exímia costureira que tinha a confiança da família dos seus senhores, Manoel Francisco Xavier e Francisca Elisa Xavier, para trabalhar na casa grande em serviços domésticos como mucama. Eles eram donos de três grandes fazendas cafeeiras e tinham título de barões.

Ela entra para a história durante a insurreição² que comandou, ao lado de Manoel Congo. O levante foi o maior do Rio de Janeiro e o último do Império, segundo o professor, historiador e pesquisador Felipe Brito Vieira. “Ela habitava a casa grande e morava na fazenda Maravilha, uma das de propriedade dos Barões”, contou.

Insurreição

Na madrugada do dia 5 de novembro de 1838, na fazenda Freguesia, os escravizados estavam revoltados porque supostamente o também escravizado Camilo Sapateiro (seu oficio era usado como sobrenome) teria sido morto por um dos jagunços do capitão-mor³, o Barão Manoel Francisco Xavier. Com isso, eles decidiram fugir, liderados por Manoel Congo.

“Essas pessoas que trabalhavam forçosamente para o dono da fazenda já estavam revoltadas pela condição de vida, pelo sequestro que sofreram, os maus-tratos, o avanço da lavoura. O trabalho aumentava e a remuneração era inexistente”, explica o professor.

Vale ressaltar que a fuga não foi abrupta, ela foi pensada e articulada dias antes e no ato eles roubaram alimentos e armamento dos senhores. “Ela não aconteceu no calor do momento da morte de Camilo. Eles se planejaram e imediatamente fugiram para uma mata próxima para se esconderem”, contou.

No segundo dia, o grupo seguiu para a Fazenda Maravilha, também do Barão, para resgatar os escravizados que lá estavam. “Eles vão buscar possivelmente familiares e amigos que partilhavam de laços afetivos. Se juntam o maior número de pessoas e entre elas Marianna Crioula, que trabalhava na casa grande desta fazenda. Ela os ajuda a pegar mantimentos e outras mulheres e idosos”, lembra o pesquisador.

Segundo o historiador e jornalista Flávio dos Santos Gomes, cerca de 400 revoltosos fugiram das senzalas do Barão. “Dois pontos para se observar é que eles estavam em um grupo muito grande e existiu uma solidariedade, em voltar para resgatar outros escravizados, que é pouco vista nestes movimentos”, avalia Felipe.

Repressão

Enquanto estavam escondidos na Mata Atlântica da região, em busca de um lugar para formar um quilombo, a fuga se tornou um grande problema para o Barão. Os fazendeiros da época conseguiam lidar, sozinhos, de pequenas revoltas ou problemas com os escravizados.

Mas por conta do volume foi acionada a Guarda Nacional, que era a força paramilitar da época comandada por grandes senhores, como uma polícia particular. A força foi chamada inicialmente para iniciar as buscas pelo grupo na região com um contingente de 160 homens.

Como estratégia o grupo se dividiu e uma parte seguiu beirando a Serra da Taquara e outro a Serra do Couto. Parte dos escravizados do primeiro grupo foram encontrados entre os dias 10 e 11 de novembro, cerca de 5 dias após a fuga, e uma batalha começou na mata. Marianna Crioula, em sua posição de liderança, chegou a lutar armada para defender a si e os seus, mas foi recapturada e presa com cerca de 22 escravizados.

Uma outra parte do grupo conseguiu fugir pela mata, outros decidiram voltar para as fazendas em que eram escravizados e outros foram mortos no conflito. Manoel Congo foi preso com o grupo, mas recebeu as maiores acusações por ter matado dois Guardas Nacionais. Ele respondeu por insurreição e homicídio, por isso, inicialmente ele ganhou mais protagonismo que Marianna.

Até que no dia 14 de novembro chega a Vassouras as tropas federais, que à época eram lideradas pelo Coronel Luiz Alves de Lima e Silva, que depois ficou conhecido como Duque de Caxias, ele mesmo, patrono do Exército. O militar foi o responsável por liderar as Tropas Federais que encerraram as maiores insurreições do país com muita bala e pouca conversa, mas para a história ficou marcado como "o pacificador".

Na sequência, foi instaurado um inquérito policial, que virou um processo judicial às vistas da época, tendo escravizados como réus, pouco mais de dez meses depois. Manoel Congo foi condenado à morte pela força em praça pública e Marianna Crioula e todas as outras mulheres presas foram absolvidas por conta de um suposto lobby da senhora Francisca Elisa Xavier, que tornou o resto de vida da escravizada um martírio.

“Lendo os autos do processo, as autoridades imputam a culpa a Manoel e possivelmente por isso, os presos se organizaram. As mulheres, que eram casadas, combinaram de não citar os maridos. Uma das hipóteses que se levanta é que eles acordaram de não entregar o resto do grupo e proteger os maridos, já que Manoel já seria condenado. Eles não queriam que ele morresse, mas uma vez que haveria um bode expiatório, eles combinaram de apontar ele ou outros escravizados que já haviam morrido para terem menos baixas”, aponta o historiador.

É importante apontar que Manoel Congo não era casado com Marianna Crioula. Eles eram casados com outras pessoas, não havia uma relação amorosa entre eles, apenas de luta e resistência. Há um registro do casamento de Marianna no cartório de Paty dos Alferes, que fica na região de Vassouras.

Vida após a insurreição

Após ser obrigada a assistir o companheiro de luta ser enforcado "por morte natural", como era chamada a pena, ela voltou para a fazenda em que era escravizada e teve um restante de vida quase em clausura. “Ela vivia em um cativeiro, acrescido das obrigações diárias da casa grande, sofrendo agressão física”, relembra Felipe Brito.

Ela fazia tarefas domésticas e tinha a ‘liberdade’ menor. Os escravizados no Brasil Imperial podiam ser catequizados, casar-se, frequentar a igreja do lado de fora, comprar sua liberdade quando possível. Mas isso foi negado para a escravizada quando voltou para a fazenda até sua morte, que não é datada.

Heroína

Em 2014 o nome de Marianna Crioula foi eternizado na história do Rio de Janeiro como heroína. Através da deputada Inês Pandeló (à época do PT), a Lei 5.808/14, que criou um livro que referenciava os heróis e heroínas do Estado que um dia foi o centro de um reino e capital de um país.

Ela foi reconhecida por sua liderança, ao lado de Manoel, na insurreição do Vale do Café. Seus nomes estão ao lado de outro revoltoso brasileiro, Tiradentes, que se tornou um mártir da Inconfidência Mineira e é exemplo de resistência.

Além do livro, ela também nomeia uma maternidade gerida pela prefeitura do Rio de Janeiro. O local realiza cerca de 400 partos por mês e é referência em parto humanizado, acompanhamento de puérperas e em programas de inclusão paterna na rotina da mãe e dos filhos.

“Sinto falta de monumentos de Marianna Crioula, nunca vi e colegas meus também não. Mas em 2023 a escola de samba União de Jacarepaguá, que é do grupo de acesso do Carnaval, terá como enredo Marianna Crioula e Manuel Congo. A Escola de Samba é uma grande procissão negra e nasceram nos terreiros de candomblé. Trazer a vida deles para a avenida é muito importante porque os livros didáticos não contam essa história, que o samba traz”, avalia Felipe.

Marcações:

1 – Crioula não é um sobrenome, é uma identidade. “Crioula significa que ela nasceu no Brasil e é uma escravizada de pele escura. Se ela tivesse a pele mais clara, seria parda. Se tivesse chego de África, teria o sobrenome do país de onde partiu”, explica Felipe.

2 – Insurreição: uma insurreição tem um sentido mais profundo no sentido de desafiar o Rei ou o Imperador. “A insurreição tem um caráter político de separação, tem mais gravidade. A de Pernambuco queria separar a província do país”, conta o historiador.

3 – Capitão-mor: o termo era usado para os militares de alta patente que eram responsáveis pela defesa de certas regiões.

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