Quem acredita em Deus não precisa de terapia?

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Ana Paula Valadão (Foto: Instagram)
Ana Paula Valadão (Foto: Instagram)

Neste texto, você encontra:

  • Ana Paula Valadão e suas mensagens sobre saúde mental;

  • Onde ciência e religião se encontram;

  • Falar sobre saúde mental é tabu em contextos religiosos;

"Religião e ciência não precisam ser inimigos", escreveu um seguidor de Ana Paula Valadão em um dos seus posts no Instagram, em que ela agradece à Deus pelas vacinas contra o coronavírus. "Porque toda boa dádiva, todo dom perfeito, Tiago disse, vem do Pai das Luzes. Qualquer outra voz que não seja essa, que diga para você não fazer um tratamento, não tomar uma vacina, não está de acordo com a palavra de Deus", diz ela.

Parecem discursos contraditórios, não é mesmo? Uma pastora da Igreja Batista da Lagoinha falar tão abertamente sobre tratamentos científicos no palco de um evento religioso. No entanto, esse tem sido um tema constante no conteúdo publicado pela cantora nas suas redes sociais.

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Nos últimos meses, Ana Paula tem feito lives no Instagram com terapeutas para explicar ao seu público os cuidados necessários com a saúde mental e, inclusive, que esses cuidados não precisam ser excluídos por aqueles que acreditam em Deus e são religiosos praticantes.

No primeiro parágrafo, aliás, Ana Paula faz alusão ao evangelho apócrifo de Tiago, capítulo 1, versículo 17, que diz: "Toda boa dádiva e todo dom perfeito vêm do alto, descendo do Pai das luzes, que não muda como sombras inconstantes". Na compreensão de Ana Paula e muitos dos fiéis que a acompanham, essa fala significa que todas as ferramentas encontradas no mundo são uma dádiva divina e, portanto, não devem ser negadas. Isso inclui vacinas e até mesmo tratamentos psicológicos, como a terapia.

"Você precisa orar mais" é uma fala comum relatada pelos seguidores de Ana ao falarem sobre o assunto. Ainda hoje, e não só no meio religioso, as questões de saúde mental são vistas com maus olhos - o assunto ainda é um tabu (sobre o movimento anti-vacina, preferimos não comentar sobre a normalização do absurdo).

No entanto, é importante notar que a depressão é, hoje, considerada a doença mais incapacitante do mundo, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS) - acredita-se que 300 milhões de pessoas no mundo todo convivam com a doença. Em uma comparação simples e aproximada, esse número está apenas 100 mil acima da população completa do Brasil.

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Estudos recentes também demonstram que as mulheres costumam sofrer mais de questões mentais do que os homens. Uma pesquisa recente desenvolvida pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP comprovou que elas foram mais afetadas emocionalmente pelo período pandêmico, iniciado por aqui em março do ano passado: mais de 40% apresentou sintomas de depressão, 34,9% de ansiedade e outros 37% de estresse.

Por outro lado, quando o assunto é o suicídio - um dos principais efeitos da depressão não tratada -, os homens são as principais vítimas. Ainda segundo a OMS, no Brasil, os homens consistem em 76% das pessoas que cometem suicídio anualmente - em média, 800 mil pessoas por ano no mundo, sendo essa a segunda principal causa de morte entre os jovens de 15 a 29 anos, atrás apenas dos acidentes de carro.

Independentemente do contexto, se ele é religioso ou não, científico ou não, se é laico ou de viés holístico, falar sobre saúde mental se tornou uma questão de saúde pública por conta dos números tão alarmantes. Vale lembrar, inclusive, que a OMS emitiu um alerta de boom de questões de saúde mental por conta da pandemia de coronavírus, e ainda não é possível prever o efeito que a pandemia terá na saúde mental da população mundial nos próximos anos.

Uma questão de preconceito (somado à falta de conhecimento)

Observando de perto as respostas às postagens de Ana Paula sobre saúde mental, vê-se que a busca por profissionais da área por aqueles que creem não é incomum - mas é pouco falado. O estigma em cima das questões mentais é grande o suficiente para, inclusive, fazerem as pessoas duvidarem da própria fé quando precisam de ajuda com algo que, em teoria, não resolveram com a oração (entra aí as falas sobre "orar mais" ou que "você precisa de Deus na sua vida").

Verdade seja dita, o que Ana Paula falou é verdade: a cura acontece de muitas maneiras, inclusive através da medicina moderna e via profissionais de saúde mental. O que não significa que, na escolha por esses tratamentos, Deus não está presente, para aqueles que acreditam Nele.

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Aliás, até mesmo a influência da fé já virou motivo de estudo científico, por mais contraditório que isso soe. No ano passado, a Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp), que é referência na medicina brasileira, reuniu mais de 300 estudos que ligam as práticas espirituais com a boa saúde, inclusive citando um estudo da Universidade de Harvard que comprovou que pessoas que vão à igreja pelo menos uma vez na semana tem a mortalidade reduzida de 20 a 30% em um período de 15 anos. O motivo para isso é a influência da fé no estilo de vida de uma pessoa, tornando-a mais otimista e aberta para tratamentos importantes, como quimioterapia. O documento aponta até mesmo o efeito de uma postura de perdão no corpo humano, mais amigável com o coração, enquanto ressentimentos e mágoas geram uma resposta de estresse crônico no corpo, abusando da saúde do órgão.

Essa conversa é longa e depende de muitas variantes, tanto de um lado, quanto do outro - é fato que, muitas vezes, a crença religiosa interfere no trabalho médico de maneiras mais práticas. Um exemplo são as religiões que não permitem transfusões de sangue e outras que ainda praticam rituais físicos (como a circuncisão) com justificativas religiosas, o que pode gerar perigos à saúde e integridade física de alguém.

Mas, aqui, falamos de saúde mental, e essa questão não deixa de ser relevante. Muitas vezes, a fé entra no caminho como um impedimento, de forma que alguém que crê em Deus, em teoria, "não precisaria" de ajuda psicológica para lidar com questões emocionais ou da mente.

Uma pessoa não religiosa pode sentir medo de buscar ajuda psicológica e ser julgada pelos amigos e familiares, ver a depressão ser considerada uma "frescura". Para alguns evangélicos, pode ser vista como "falta de Deus". Mas rótulos como esses não solucionam uma dor emocional que vai se beneficiar muito de ajuda profissionalizada e estruturada, afinal, se o que Ana Paula diz é verdade, tudo é uma dádiva divina. Receber ajuda para cuidar do emocional não enfraquece ninguém, pelo contrário, fortalece. E manter a prática religiosa próxima torna esse processo mais fácil e leve - quem diz isso, já falamos, é a própria ciência.

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