Quem é Zé Henrique de Paula, que tem cinco peças em cartaz no pós-pandemia

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***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 01.02.2020 - O diretor e ator Zé Henrique de Paula. (Foto: Mathilde Missioneiro/Folhapress)
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 01.02.2020 - O diretor e ator Zé Henrique de Paula. (Foto: Mathilde Missioneiro/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Enquanto entra no escritório do teatro do Núcleo Experimental, o diretor Zé Henrique de Paula fala a esta repórter para não reparar na bagunça. "Aqui é igual ao teatro." Pelo cômodo, elementos como cadeiras penduradas na parede e figurinos em araras de peças encenadas marcam o seu caráter multifacetado no teatro —além de dirigir, é também cenógrafo e figurinista.

Os espetáculos estão enfim voltando aos palcos com público presencial, e um dos nomes responsáveis por lotar a programação cultural da cidade é o do Zé Henrique de Paula. Com três peças em cartaz e várias outras que estavam online ou em curta temporada, ele retoma projetos represados pela pandemia, momento que o fez questionar o seu ofício e se jogar de cabeça na dramaturgia com "Cartografia dos Humores Paulistanos (Parte 1 - Centro)", em cartaz no teatro do Núcleo Experimental, sua companhia.

Foi na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP que ele se encantou por essa arte milenar. Na época, ele era estagiário de J.C Serroni, um dos principais cenógrafos e figurinistas do país, que colaborou durante anos no Centro de Pesquisas Teatrais, ou CPT, de Antunes Filho. Ele foi absorvendo todo o conhecimento que aquele espaço exalava, enquanto montava maquetes e escutava os ensaios comandados por Antunes.

Ao longo do tempo foi se especializando, com pós-graduação em artes cênicas e mestrado em direção teatral. Mas, em uma um ofício gregário como o do teatro, De Paula levou um tempo para achar a sua turma —até que, ao lado de Inês Aranha, que cuida da atuação, e de Fernanda Maia, o pilar musical do grupo, ele montou sua companhia de teatro, o Núcleo Experimental, há mais de 16 anos.

"Você vai trabalhando com algumas pessoas e percebe que as linguagens se casam, não necessariamente que elas são harmônicas, porque um pouco de faísca, de risco na relação artística, é sempre bom", diz o diretor.

Para ele, se tudo estiver muito encaixado, então isso é sinal de que algo não está funcionando da maneira como deveria. É uma das frases que sempre usa. "Você sempre precisa ter um pouco de medo do que está fazendo", diz, citando algo que aprendeu com a atriz Denise Weinberg.

Essa comodidade talvez tenha sido o motor para ele buscar novos desafios na carreira e resgatar o valor daquilo que escolheu como profissão, e que achava que tinha acabado.

"Todo mundo na pandemia passou por um momento em que estava se questionando. Tenho muitos colegas da área de teatro que acharam que a atividade ficou sem sentido quando migrou para o online", afirma. Assim, com tempo e disposição, ele resolveu se lançar na dramaturgia autoral.

Apesar de ter adaptado o romance "Revolução dos Bichos", de George Orwell, para o teatro, com "Cabaret dos Bichos", De Paula queria fazer a dramaturgia, e essa muito autoral, da sua voz, "como pessoa que está vivendo aquilo e que está sendo colocada em xeque em muitos dos seus valores, a partir da sua profissão".

"Cartografia dos Humores Paulistanos (Parte 1 - Centro)" nasce a partir do choque que uma reportagem de 2015 lhe causou, trazendo uma pesquisa da OMS sobre a saúde mental nas 20 principais metrópoles do mundo. São Paulo teve os piores índices. Em uma espécie de materialização desses dados, ele criou um personagem que odeia morar na cidade e que encara a solidão e uma possível loucura.

"A cidade é um pouco hostil com seus habitantes, e essa hostilidade urbana agudiza certos problemas de saúde mental", diz. Foram selecionados três personagens escritos por Zé Henrique nessa primeira parte.

São monólogos que mergulham nas características dos personagens em uma quase tragicomédia. Essa característica também pode ser vista na outra peça que ele dirigiu no Núcleo Experimental, "É Sempre Mais Difícil Ancorar um Navio no Espaço", escrita por Davi Novaes. Outros espetáculos que ele dirige e estão em cena são "Assassinato para Dois", de Kellen Blair e Joe Kinosian, e "Sede", no Tucarena.

De Paula também dirigiu "Medea", no Sesc Pompeia, a convite da Cia. do Sopro. O espetáculo foi filmado em outubro deste ano e recebeu o público presencialmente no final de novembro, contemplando uma versão final do clássico de Eurípedes, escrito pelo inglês Mike Bartlett. O clássico do teatro grego é adaptado para discutir as condições da mulher nos dias de hoje a partir de Medea, que está em depressão, do marido, Jasão, que a deixou por outra mulher mais jovem e seu filho, Tom, que perdeu a fala.

Ele também dirige o musical "Brenda Lee e o Palácio das Princesas", que conta conta a história da travesti que se tornou um marco na luta por direitos LGBTQIA+ no Brasil e que ficou em cartaz no canal no YouTube da companhia. No próximo ano ela ganha adaptação para o presencial e marca um dos espetáculos na agenda do encenador no primeiro semestre de 2022, que também conta com uma ópera e outros musicais internacionais.

Quando aceitou fazer e direção de "Benda Lee", ao lado de Fernanda Maia na direção musical, pensou na transfobia, algo que o deixa com raiva, e que esse é um dos sentimentos que lhe dá combustível no teatro.

"Eu gosto de fazer teatro a respeito de coisas que me deixam com raiva. A gente ainda tem essa possibilidade e ela é importante", diz. Ele se alimenta desse pensamento, que tirou do dramaturgo David Hare. "Tem muita coisa errada acontecendo, tem muita coisa que deixa a gente com raiva da porta do teatro para fora e são dessas coisas que a gente tem vontade de falar."

Mesmo no aperto, sem dormir e pensando em como vai pagar o aluguel do galpão em que sua companhia trabalha, De Paula fala com convicção de que o teatro "é uma atividade é essencial e não supérflua".

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ASSASSINATO PARA DOIS

Quando terças e quartas - até 08/12

Onde Teatro das Artes - av. Rebouças, 3.970, Pinheiros, zona oeste

Preço entre R$ 35 e R$70

Autor Kellen Blair e Joe Kinosian

Elenco Thiago Perticarrari e Marcel Octavio

Direção Zé Henrique de Paula

Link: https://bileto.sympla.com.br/event/69673/d/113729/s/668236

CARTOGRAFIA DOS HUMORES PAULISTANOS (PARTE I – CENTRO)

Quando às quartas e quintas, às 21h. Até 16/12

Onde Teatro do Núcleo Experimental - Rua Barra Funda, 637

Preço 20,00 (inteira) / 10,00 (meia)

Autor Zé Henrique de Paula

Elenco Davi Tápias, Gabriela Potye e Rodrigo Caetano

Direção Zé Henrique de Paula

Link: https://www.sympla.com.br/produtor/nucleoexperimental

CABARET DOS BICHOS

Quando às 19h. Até 5/11

Onde Youtube do Núcleo Experimental

Preço grátis

Direção Zé Henrique de Paula

Link: https://www.youtube.com/channel/UCEJC63CZPFoZ5jxW3fk77kw

É SEMPRE MAIS DIFÍCIL ANCORAR UM NAVIO NO ESPAÇO

Quando às sextas e sábados, às 21h e domingos, às 19h. Até 5/12.

Onde Teatro do Núcleo Experimental - r. Barra Funda, 637, Barra Funda, região oeste

Preço 20,00 (inteira) / 10,00 (meia)

Autor Davi Novaes

Direção Zé Henrique de Paula

Link: https://www.sympla.com.br/e-sempre-mais-dificil-ancorar-um-navio-no-espaco__1388580

MEDEA

Quando 26, 27 e 28 de novembro. Sex. e sáb. às 21h e dom. às 18h00

Onde Sesc Pompeia - r. Clélia, 93 - Água Branca, região oeste, São Paulo

Preço entre R$ 20 e R$ 40

Autor Mike Bartlett

Direção Zé Henrique de Paula

Link: https://www.sescsp.org.br/programacao/226132_MEDEA

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