Quem é Riz Ahmed, ator de 'Encounter' que fez história no Oscar e no Emmy

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Quando foi indicado ao Oscar no começo do ano, com "O Som do Silêncio", Riz Ahmed quebrou não apenas uma, mas duas barreiras importantes --e escancarou problemas graves de diversidade em Hollywood que vão muito além da ausência de negros ou de mulheres na premiação.

Filho de paquistaneses nascido em Londres, ele foi o primeiro muçulmano indicado a melhor ator e, ao lado do sul-coreano Steven Yeun, fez com que pela primeira vez mais de uma pessoa de ascendência asiática aparecesse na categoria em um mesmo ano.

Ele não levou a estatueta, mas em 2017, fez história na televisão, ao ser o primeiro ator muçulmano ou de ascendência asiática a ganhar o Emmy, por sua atuação na minissérie "The Night Of".

Passados "The Night of" e "O Som do Silêncio", com Ahmed já devidamente apresentado ao mundo e com credenciais para escolher seus projetos, ele agora estrela "Encounter", filme do Amazon Prime Video que estreia nesta sexta (10).

Dirigida por Michael Pearce, a trama acompanha um fuzileiro naval que embarca numa viagem de carro com os dois filhos, fugindo de uma pandemia causada por parasitas extraterrestres que se alojam no organismo e fazem as pessoas perderem o controle.

"Essa é uma história muito incomum, com a ação e a imaginação que nós esperamos de uma ficção científica, mas na verdade é algo muito mais calcado na realidade. É uma história realista e urgente para o mundo de hoje, em que todos estão tentando proteger suas famílias em meio ao medo causado por uma infecção", diz Ahmed sobre o que o atraiu para "Encounter", em conversa por vídeo com este repórter.

Aqui, como no longa que lhe rendeu uma indicação ao Oscar, sua ancestralidade não se relaciona com o personagem que interpreta. A diversidade vem desacompanhada de uma necessidade de debatê-la -poderia ser qualquer ator na tela. E isso, Ahmed diz, é um sinal de que Hollywood está mudando.

"Há definitivamente mudanças acontecendo. E mudanças continuarão acontecendo, porque se não há mudança, isso significa que a indústria se desconectou da nossa realidade, que está sempre crescendo e evoluindo", diz. "Nós não alcançamos um momento de mudança em que as coisas vão se estabilizar e pronto. Eu acho que o nosso papel é questionar constantemente a cultura dessa indústria."

Aos 39 anos, o ator se tornou um dos porta-vozes desse movimento de diversidade no cinema e na televisão. Esta é uma discussão pela qual ele se diz apaixonado e sobre a qual sabe que certamente vai falar mais no futuro, mas Ahmed se mostra um tanto cansado por ainda precisar abordar o assunto -"eu não quero que isso seja tópico de debate, mas que apenas seja", diz.

Filho de um despachante que deixou o Paquistão acompanhado da mulher nos anos 1970, Ahmed se formou em filosofia, política e economia na prestigiada Universidade de Oxford, onde contaria, mais tarde, ter sofrido num ambiente elitista e predominantemente branco.

Foi nos anos 2000, depois de decidir cursar artes cênicas, que sua carreira nas telas começou -mas não sem também trazer uma dose de preconceito causada por suas origens. Numa de suas primeiras viagens como astro de cinema, depois que seu longa de estreia, "O Caminho para Guantánamo", foi premiado no Festival de Berlim, Ahmed foi parado no aeroporto no Reino Unido por oficiais britânicos que o ofenderam, ameaçaram e agrediram.

"Que tipo de filme você está fazendo? Você se tornou ator para propagar a luta muçulmana?", relembrou Ahmed num artigo que escreveu para o jornal The Guardian em 2016, falando sobre o ocorrido e também sobre como foi, com frequência, enquadrado no estereótipo de terrorista -dentro e fora das telas.

"Desde que sou adolescente, eu tive que aprender a interpretar diferentes tipos de personagens, negociando as expectativas que recaíam sobre uma família de origem paquistanesa", escreveu ele no depoimento. "A fluidez da minha identidade pessoal esteve sempre associada às mudanças de rótulos que eram destinados aos asiáticos na nossa sociedade."

Foram necessários dez anos para ele falar publicamente sobre o ocorrido. E falou de forma tão contundente que especialistas até criaram o chamado "teste Riz", uma versão do teste Bechdel que busca identificar e analisar a representação de muçulmanos nas telas.

Nesse meio tempo, Ahmed foi indicado sucessivamente ao British Independent Film Awards, por papéis em filmes pequenos que passaram despercebidos pelo público brasileiro -como "Shifty", "Ill Manors" e "Quatro Leões", uma sátira sobre terrorismo-, e foi premiado como roteirista estreante, por "Mogul Mowgli", e por comandar o curta "The Long Goodbye", no ano passado.

Já na edição deste ano da premiação, que ocorreu no último fim de semana, Ahmed recebeu o troféu Richard Harris, destinado a atores que contribuíram de forma excepcional para o cinema independente britânico, e também esteve indicado a melhor ator, justamente por "Encounter".

Para além de atuar, dirigir, escrever e de ser ativista, Ahmed ainda mantém uma carreira de rapper. Por ora, no entanto, ele deve fazer uma pausa nos microfones para colher os bons frutos que os prêmios e indicações no cinema e na televisão estão rendendo.

"É difícil para mim dizer se algo mudou com a indicação ao Oscar. Provavelmente sim, mas de maneiras que eu não entendo completamente, porque isso tem muito mais relação com a forma como as pessoas te veem. Mas é claro, do meu ponto de vista, foi algo que fez com que eu me sentisse encorajado", afirma, sobre a atenção que recebeu com "O Som do Silêncio".

Nem por isso ele deve recorrer às grandes produções hollywoodianas tão breve -o lugar onde se sente mais à vontade parece ser mesmo no cinema independente. Entre seus próximos projetos, por exemplo, está uma versão modesta de "Hamlet", que trará o príncipe da Dinamarca para a Londres pluralista dos dias atuais.

"Mas nessa carreira você nunca sabe o que te espera ao virar a esquina. Então eu te confesso que nem eu sei ao certo o que me aguarda no futuro."

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ENCOUNTER

Quando Estreia nesta sexta (10), no Amazon Prime Video

Elenco Riz Ahmed, Octavia Spencer e Lucian-River Chauhan

Produção Reino Unido/EUA, 2021

Direção Michael Pearce

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