Quem é a pianista que cruza rios amazônicos tocando repertório local em barco

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SANTARÉM, PA (FOLHAPRESS) - A pianista Carla Ruaro, que em 2017 acomodou um piano dentro de um barco e saiu viajando pelos rios Tapajós e Arapiuns, no Pará, para apresentar o instrumento a comunidades ribeirinhas, decidiu voltar às águas amazônicas.

Registrada no documentário "Raízes – Um Piano na Amazônia", lançado em 2018 e premiado em festivais de cinema no Brasil, na Finlândia e nos Estados Unidos, a expedição vai ser refeita, agora em um percurso expandido, de Belém a Manaus, para ser contada em um longa-metragem.

O primeiro contato de Ruaro com a floresta aconteceu na Europa, onde trabalhou no projeto de uma instituição britânica para divulgar a música brasileira, incluindo a obra amazônica, em hospitais, presídios e outras plateias com pouco acesso à arte.

Foi em 2012 que conheceu a mata pessoalmente e percebeu que a dificuldade logística impede o alcance daquela população a um piano. Muitos jamais viram o instrumento na vida. Ela levou o teclado eletrônico, mas esbarrou na falta de energia elétrica em alguns destinos.

Ali surgiu a ideia de carregar o piano, mas costumava ser tratada como maluquice, até que, anos depois, Tatiana Cobbett, que assina a direção de arte do filme, mergulhou com ela no projeto. O instrumento foi comprado em Belém e transportado no meio de uma carga de batatas por três dias até Santarém, onde começou a viagem, tudo calculado para economizar recursos, desde o aluguel do barco até o combustível, no projeto realizado sem patrocínio nem leis de incentivo. A Secretaria de Cultura de Santarém ofereceu uma parceria que permitiu dividir a despesa.

Antes de embarcar, Ruaro fez um curso para afinar o instrumento no balanço do rio e preparou o repertório com a música de compositores contemporâneos da Amazônia.

O primeiro documentário mostra como a visita do piano fez sucesso nas oficinas com as crianças ribeirinhas, que gargalharam ao aprender a diferença entre os sons graves e agudos e acompanharam as canções para falar de chuvas e árvores.

Nas palavras da pianista, a conservação da cultura local contribui para a preservação da floresta. Para o compositor Thiago Albuquerque, que Ruaro incluiu no repertório, o projeto faz uma analogia dos animais da floresta como se fossem músicos da natureza, ensinando que a derrubada de uma árvore pode ser comparada à destruição da casa de um artista.

"Eles não perguntavam de onde nós viemos, mas quando voltaríamos. Isso me emocionou, porque eles não querem sair dali. São felizes lá e querem que o piano volte", diz Ruaro.

O trabalho foi um divisor de águas na carreira da artista, que passou a mostrar o filme de 29 minutos em seus concertos no exterior, quando toca os compositores da Amazônia. Ela deixou de ser a pianista clássica do início da carreira e hoje se apresenta descalça acompanhada de instrumentos indígenas.

"O mais impressionante é que o público, depois que ouve, vem me contar que não tinha ideia de que essa música existia. Para o estrangeiro, a Amazônia é um tapete verde, uma floresta e nada mais. Eles não têm ideia de que tipo de arte é feita aqui e o quanto isso é importante para a preservação", afirma Ruaro.

Ela diz ter compreendido que o trabalho também produz efeitos na autoestima das comunidades. "Quando eu falei que as músicas que eu tocava foram inspiradas na cultura do povo daqui, uma menina me agradeceu. Isso mexe com a vontade deles de preservar a própria cultura", afirma.

Diferentemente da experiência de 2017, a próxima viagem, marcada para o segundo semestre de 2022, vai levantar patrocínio e apoio por meio do programa paraense de incentivo à cultura Semear. Terá uma produtora de cinema de Los Angeles e já começou a ser estudada pelo roteirista Mitchell Kriegman, segundo a artista.

"O primeiro filme foi independente. O cinegrafista foi com a intenção de fazer um registro amador, mas vimos que o material tinha qualidade, e fui editar com o meu marido. Tivemos ajuda de voluntários. O jornalista Paulo Markun fez o roteiro", diz.

Para o novo projeto, o plano é abrir com um concerto em Belém e encerrar com outro em Manaus. Segundo Ruaro, será comprado mais um piano, porque o anterior foi doado para a escola filarmônica de Santarém no fim do percurso.

​Desta vez, a pianista também fincou as próprias raízes. Vai deixar sua residência em Londres para morar durante uma parte do ano no distrito de Alter do Chão, em Santarém, onde planeja construir um espaço de cultura fixo para atrair jovens estudantes e artistas estrangeiros em projetos de conexão com a natureza.

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