Quem é o criador das séries de terror 'Residência Hill' e 'Clube da Meia-Noite'

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Mesmo que histórias de terror com casas mal-assombradas não sejam novidade, foi esse o tema usado como chamariz pela Netflix na tentativa de atrair o público para a série "A Maldição da Residência Hill", criada pelo americano Mike Flanagan e lançada em 2018. A aposta deu certo, mas não por causa da mansão amaldiçoada do título.

A série conquistou elogios da crítica e dos fãs do gênero porque fugiu de clichês para mergulhar nos dramas de uma família traumatizada por terrores do passado. "Residência Hill" fisgou até os mais medrosos. Foi o suficiente para a parceria entre Flanagan e Netflix perdurar por mais três séries de terror, lançadas quase uma por ano.

"Clube da Meia-Noite" é a nova criação do cineasta, lançada no último dia 7. Na história, jovens em estado terminal que moram numa clínica se reúnem à noite para contar histórias assustadoras. A partir dos encontros, surge um pacto -quem morrer primeiro deve enviar um sinal do além para os vivos.

É a primeira série de Flanagan protagonizada só por adolescentes. Antes disso, ele criou tramas adultas com mansões habitadas por espíritos e entidades malignas, como "Residência Hill" e "A Maldição da Mansão Bly", de 2020, e depois misturou religião com terror em "Missa da Meia-Noite", lançada no ano passado.

O americano é parte do grupo de cineastas que tenta reciclar o terror nas telas, assim como Jordan Peele, de "Corra" e "Nós", e Ari Aster, diretor de "Midsommar - O Mal Não Espera". A diferença entre eles é que Flanagan tem apostado em seriados para contar suas histórias com calma e desembrulhar lentamente cada personagem.

Em "Residência Hill", por exemplo, as angústias dos moradores do tal casarão assombrado e a complexidade da relação entre eles jogam para escanteio as dezenas de espíritos escondidos nos cenários e a maldição que conduziriam a narrativa se essa fosse uma história clássica de horror.

O mesmo ocorre em "Mansão Bly", que toca em temas como morte, perda, confiança, amor, traição e culpa. A trama brilha mais quando se esquece do espírito maligno da casa amaldiçoada para examinar as minúcias de cada personagem.

Em entrevista por videoconferência, o cineasta explica que realiza uma espécie de ritual para avaliar suas produções. Ele tira os traços de terror da história e analisa se o texto se mantém interessante o suficiente. É o jeito que encontra de tentar furar a bolha do gênero para seduzir os medrosos e aumentar a audiência.

Questionado sobre por que "Residência Hill" deu certo mesmo entre quem não gosta de horror, Flanagan afirma que o público encontrou naqueles personagens características que ecoam suas próprias vidas. Sua intenção era falar de família, trauma e cura, temas que para ele se relacionam com qualquer pessoa, fã do gênero ou não.

Flanagan lançava filmes de horror antes de ser descoberto pela Netflix, época em que arriscava menos. É dele, por exemplo, "Hush - A Morte Ouve", de 2016, e "Doutor Sono", baseado num livro de Stephen King, ambos longas que não tentam reinventar a roda.

O cineasta diz que o que o atrai no formato de seriado é a possibilidade de contar histórias sem pressa. Suas séries são longas mesmo. Todos os episódios de "Missa da Meia-Noite", por exemplo, demoram mais de uma hora para acabar.

Ele diz saber que seu jeitão prolixo dificulta a tarefa que é prender a atenção do público. "Dentro de casa, as pessoas assistem à sua história cercadas pelo mundo delas. Tem o celular, a cozinha que está logo ali, o marido e a mulher que chegam conversando, ou a internet, onde é possível fazer qualquer outra coisa", diz.

Para contornar esse problema, às vezes ele recorre aos artifícios clássicos do horror. Há pelo menos cinco "jumpscares", aqueles sustos dados de repente, no primeiro capítulo de "Clube da Meia-Noite", que tem ainda a tarefa de apresentar sua protagonista. Ilonka é uma adolescente com câncer que chega ao estágio terminal da doença, mas não aceita a morte e quer achar a cura.

É um tema que se assemelha à forma como o próprio Flanagan vê o gênero. "Percebi que o horror é uma ferramenta para desenvolver a coragem e nos ajudar a confrontar coisas sobre nós mesmos que evitamos", diz.

Ele era uma criança medrosa, dessas que se escondem quando os colegas querem ver filmes de terror. Com o tempo, Flanagan, hoje com 44 anos, amadureceu e percebeu que se sentia mais destemido sempre que voltava ao gênero. "Fui de alguém que era aterrorizado para me tornar uma pessoa que sabe que esse é um dos estilos mais importantes para se contar histórias."