Quem é Jonathan Ferr, o pianista de Madureira que quer tirar o elitismo do jazz

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Jonathan Ferr passava horas no transporte público para ver bandas de jazz. Quando era mais jovem, o então estudante de música pegava dois ou três ônibus para percorrer os cerca de 20 km entre a sua casa no bairro de Madureira e a zona sul carioca, onde estavam os palcos com apresentações que o interessavam.

“A música instrumental tem um caminho muito bonito do subjetivo e do imagético que às vezes a canção com letra não tem. A música instrumental te faz entrar nela, achava isso muito potente e sigo achando muito poderoso. As pessoas falam da uma mesma música de forma completamente diferente”, afirma ele, em entrevista por Zoom, justificando sua paixão pelo jazz.

Apontado como um nome em ascensão na cena de música instrumental nacional, o pianista de 34 anos acaba de lançar seu segundo disco, “Cura”, um álbum minimalista mas cheio de camadas, segundo ele, no qual o protagonista é o piano, instrumento que estudou na Escola de Música Villa-Lobos, no Rio de Janeiro, e que o acompanha desde pequeno, quando ganhou um teclado do pai para brincar e no qual aprendeu a tirar músicas de Tom Jobim.

Os 40 minutos do disco têm faixas de títulos otimistas —“Sensível”, “Felicidade”, “Amor”, “Nascimento”, essa uma homenagem a Milton Nascimento— com pianos de fácil audição, que soam como a trilha sonora de um filme com final feliz. A filósofa Viviane Mosé empresta sua voz à “Caminho”, e o cantor e comediante Serjão Loroza manda versos antirracismo em “Esperança”, a única canção abertamente política de um álbum que nasceu durante a pandemia, a partir de um mergulho do pianista no budismo, na meditação e em rituais xamânicos.

Por mais que Ferr tenha como influência os virtuoses Hermeto Paschoal e John Coltrane —ele conta que ouvia o CD de “A Love Supreme” sem parar na biblioteca da escola de música—, o que norteia seu trabalho é menos a técnica e mais a vontade de atingir a todos. “O cara que tem 10 mil vinis em casa vai poder ouvir minha música e entender tal como uma senhora que mora lá no interior Minas Gerais que nunca ouviu jazz, nunca ouviu música instrumental.”

Ele afirma querer tirar o jazz de um lugar de “pseudo elitização” e colocar o gênero em atividades mais corriqueiras, torná-lo um tipo de música que você ouve enquanto varre a casa ou que toca numa balada onde se toma uma cerveja com os amigos. Uma das maneiras pelas quais o músico leva o jazz a um novo público é frequentando a turma do hip hop, por exemplo —ele diz ser fã de Racionais MCs e MV Bill e ter se descoberto como homem preto ouvindo rap.

Ferr também torna o jazz mais acessível com seu visual. O músico veste roupas que parecem saídas de um editorial de moda e acessórios dourados contrastando com sua pele negra. Nisso, está mais próximo da imagem descolada de jazzistas contemporâneos como o britânico Alfa Mist e o americano Robert Glapser, seu pianista preferido, do que de um terno com gravata borboleta vestido por Herbie Hancock, outra de suas influências mais clássicas.

Ferr já havia lançado um disco com seu nome em 2019, “Trilogia do Amor”, de ares afrofuturistas e fortemente influenciado por Sun Ra —foi sua primeira empreitada depois de anos trabalhando como músico de bandas de baile e grupos de rap. No início daquele ano, também abriu o show do jazzista amado pelos alternativos Kamasi Washington, no Rio, e meses mais tarde tocou no palco Favela, no Rock in Rio. Durante a pandemia, enquanto compunha “Cura”, se apresentou no conhecido festival de jazz Rio Montreaux.

Quando era criança, o músico via com seus pais um programa de TV chamado “Pianíssimo”, na Rede Vida. Era um momento relaxado e de ternura com a família, em que o pai estava de folga e a mãe fazia um lanche para todos. “Minha vontade de tocar jazz está nutrida por essa memória emocional que trago. Vejo o piano como lugar de afeto, seja para mim ou para quem está ouvindo.”

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CURA

Onde Nas plataformas de streaming

Autor Jonathan Ferr

Gravadora Som Livre / Slap

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