Quem é a bissexual amiga de Angelina Jolie que desafia o autoritarismo da Turquia

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Em 2006, a escritora Elif Shafak viu seu livro “De Volta a Istambul” ser levado aos tribunais sob a acusação de insultar a identidade turca. Seu romance mais recente, “10 Minutos e 38 Segundos neste Mundo Estranho”, que acaba de sair no Brasil, foi finalista do prêmio Booker e está sendo acusado de obscenidade.

No primeiro caso, o livro abordava o genocídio armênio por meio da história de duas famílias, uma turca e uma armênia vivendo nos Estados Unidos. No segundo, o livro traz cenas de violência contra mulheres numa trama que parte dos últimos minutos de vida de sua protagonista, uma prostituta, Leila Tequila, que acaba de ser assassinada.

Shafak, que é especialista em estudos de gênero e doutora em ciência política, lecionou em universidades dos Estados Unidos e tem sido uma das vozes mais contundentes da cultura contra o governo de Erdogan em entrevistas e artigos na imprensa. Em abril, ela foi a convidada de Angelina Jolie para uma conversa na revista Time sobre violência doméstica e direitos das mulheres após o anúncio do presidente turco de que o país abandonaria o tratado europeu sobre o assunto.

Autora de 19 livros, Shafak mora no Reino Unido há 12 anos e não volta à Turquia há mais de seis. “Não me sinto mais confortável voltando. Como escritora, não é possível se sentir livre na Turquia”, diz, em entrevista por vídeo, de sua casa em Londres.

Ela fala ainda sobre as reações, em 2017, à conferência TED em que ela se assumiu bissexual, sobre políticas identitárias, sobre os cancelamentos nas redes sociais e sobre as expectativas de leitores e do mercado quanto a escritores de países considerados exóticos, tema de seu outro TED, de 2010.

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Pergunta - A senhora enfrentou um processo por ataque à identidade turca e, agora, é investigada por obscenidade. Como lida com esses casos?

Elif Shakaf - É difícil ser uma escritora mulher turca. É difícil ser escritor na Turquia em geral, mas quando se é mulher e se lida com temas que são vistos como tabu, as coisas são mais difíceis. Na Turquia, não temos uma democracia de verdade, não temos liberdade de expressão de verdade. Então qualquer coisa pode ofender as autoridades. Se se questiona a história oficial, ofende o estado; se se escreve sobre sexualidade, violência de gênero, igualdade de gênero, eles também se aborrecem. Eles se aborrecem facilmente, mas escrevo sobre esses temas porque é a realidade do país.

Na Turquia há um aumento da violência de gênero, e, em vez de tentar resolver o problema, ajudar as vítimas de violência, criar abrigos para mulheres e crianças ou mudar as leis patriarcais, o governo está processando romancistas que lidam com esses assuntos.

O processo foi surreal porque os personagens de uma ficção foram retirados do livro e usados como evidência na corte. Meu advogado teve de defender personagens. E isso durou mais de um ano. Havia grupos nacionalistas na rua cuspindo em fotos minhas, queimando bandeiras da União Europeia, e, no fim dessa loucura toda, fomos absolvidos, eu e meus personagens.​

Quanto à nova acusação, nunca fomos notificados, e espero que retirem as acusações, mas talvez ainda aconteça algo. Eles mandaram policiais à editora para recolher cópias do livro e procuram obscenidade na história. É surreal.

Como foi assumir sua bissexualidade numa conferência TED, ser aplaudida e, saindo de lá, ser atacada?

ES - Quando se olha para meus livros e minhas entrevistas, se vê que sempre falei muito sobre os direitos LGBTQIA+, mas nunca tive a coragem de dizer que essa também sou eu, porque sabia que assim que me assumisse haveria um enorme ódio, abuso verbal e uma reação violenta, porque venho de uma sociedade patriarcal. A Turquia é um país muito machista, misógino e homofóbico. Não é só o governo, mas a cultura pode ser muito conservadora.

Depois do TED Talk, por nove semanas, não apenas nas redes sociais, mas também na mídia turca, nos jornais islamitas, jornais ultranacionalistas, fui constantemente atacada. Não foi fácil, mas eu estava pronta. Queria ter tido a coragem para me assumir quando era mais jovem, mas tudo bem. Assim que cada um estiver pronto, devemos compartilhar nossas histórias, porque, quando as compartilhamos, nos sentimos menos sozinhos.

Em nota ao final de “10 Minutos e 38 Segundos neste Mundo Estranho”, a senhora fala do cemitério dos solitários, onde os marginalizados da sociedade turca são enterrados, sem tumbas e sem nomes. Por que escolher como protagonista uma dessas pessoas?

ES - Na Turquia, sempre me senti fazendo e não fazendo parte e, por vezes, me sentia o outro, por isso me sinto próxima a pessoas que são empurradas para as margens, que foram silenciadas e esquecidas. Em meu trabalho, as minorias sempre tiveram um papel importante. Quero trazer a periferia para o centro, quero tornar audíveis os que não são escutados, e visíveis os invisíveis. A literatura pode reumanizar pessoas que foram desumanizadas nas narrativas convencionais.

Neste cemitério sem tumbas, não há flores e nomes, só números. A maior parte das pessoas ali não eram solitárias, tinham amigos, mas foram abandonadas por suas famílias. São membros da comunidade LGBTQIA+, suicidas, refugiados ou recém-nascidos abandonados. Meu instinto foi reverter o processo, pegar um desses números e dar a ele uma história.

Além das tentativas de censura pelo governo, há ainda as censuras e silenciamentos das redes sociais. O que pensa desse ambiente?

ES - As redes sociais são um lugar difícil, especialmente para mulheres, minorias, pessoas de pensamento progressista. Você sofre abusos constantemente. Mulheres jornalistas e escritoras sofrem muito mais abuso que seus colegas homens. Há um elemento de gênero para o qual precisamos estar atentos. Precisamos nos preocupar com os discursos de ódio, que têm como alvo mulheres e minorias. Precisamos nos tornar melhores cidadãos digitais e estabelecer limites ao discurso de ódio, trabalhar para democratizar nossos espaços digitais para serem mais inclusivos e igualitários.

E isso tem de vir da sociedade civil, não dos governos e das grandes empresas, mas de baixo para cima. Ninguém, nenhum político, nenhuma empresa, nenhum partido deve ter poder absoluto. A erosão da verdade nos meios digitais tem consequências, mas ainda não processamos isso em nossas discussões.

A senhora fala em erosão da verdade. Como ser uma escritora de ficção na era das fake news?

ES - Agora são os escritores que têm de defender a verdade. E todos nós devemos. Vi a ascensão desses homens que se apresentam como “homens fortes”; eles sempre usam uma linguagem divisiva. Os populistas demagogos dividem a sociedade entre nós e eles, porque sabem que se há tensão, antagonismo, constante frustração e polarização, eles vão se beneficiar disso. Estão constantemente suprimindo suas emoções e ao mesmo tempo falam diretamente às emoções das pessoas, porque sabem que estamos vivendo uma era de ansiedade, raiva e frustração.

Eles dizem que são os representantes do povo, como se o povo tivesse uma única voz, e se opõem à elite, como se não fizessem parte dela. Eles estão criando ilusões. O populismo é uma resposta falsa para problemas verdadeiros. Não é esse populismo machão nacionalista tribalista isolacionista que vai resolver nossos problemas. Só os vai agravar. Precisamos de democracia, de solidariedade internacional, e honrar a diversidade, a inclusão e a igualdade.

Como vê o cenário político na Turquia hoje?

ES - A Turquia tem eleições regulares, mas não é uma democracia. Para a democracia existir é preciso mais do que urnas. Além de eleições, precisamos do Estado de Direito, separação dos poderes, liberdade de imprensa, independência da academia, direitos para as mulheres e minorias. Na Turquia não há isso. Se você só tem as urnas, não é uma democracia, é majoritarismo, e a partir daí rapidamente descamba para o autoritarismo, e num regime autoritário é muito difícil a sociedade civil se expressar.

A senhora tem criticado as expectativas e exigências feitas pelo mercado editorial a escritores que não são homens brancos ocidentais. A imaginação e a criatividade têm sido negadas a alguns artistas?

ES - Respeito muito os escritores de minorias aos quais não são dadas as mesmas chances e que estão tentando fazer com que suas vozes e suas histórias sejam ouvidas. O que critico é a expectativa que, quando se é uma escritora africana, por exemplo, sempre deva escrever sobre os problemas das mulheres na África. Quando se é negro ou imigrante, então deve escrever histórias de negros e imigrantes. Talvez você escreva mesmo sobre isso em um livro, mas o seguinte pode ser completamente diferente, de vanguarda, experimental, de ficção científica.

​Esses rótulos que são postos nos artistas baseados em suas identidades são muito problemáticos. A ficção tem de ser livre e os escritores podem escrever sobre qualquer coisa. Se realmente sinto a história, posso escrever sem que ela faça parte da minha identidade. Um escritor homem pode escrever sobre a experiência feminina, se ele a sente em seu coração. Podemos escrever sobre qualquer coisa, desde que seja genuíno.

A identidade é usada pelos nacionalistas, mas também pelos grupos minorizados e que lutam por representatividade. O recurso à identidade é um problema?

ES - Identidade importa. É importante a busca das pessoas por suas histórias, pelas histórias de suas famílias. Mas a política de identidade não é suficientemente progressista. É um bom ponto de partida, mas não pode ser onde terminamos. Temos de ir além, além de nossas tribos ou grupos de iguais. Como seres humanos, todos contemos multiplicidades, mas esquecemos isso. Vivemos numa época que nos põe em caixas, que nos colam rótulos e diz “fique com sua tribo”. Não quero ficar em nenhuma tribo.

A Turquia sempre foi vista como esse lugar no meio, entre Ocidente e Oriente. Como a senhora entende a forma como os ocidentais vemos o Oriente?

ES - Há clichês, estereótipos e preconceitos de todos os lados, e estamos perdendo uma abordagem mais nuançada. A Turquia sempre foi um país entre, no meio, e isso pode ser uma fonte de riqueza, de mistura, mas nunca vimos dessa forma, nunca aprendemos a apreciar a diversidade.

Até recentemente, muitos no Ocidente achavam que era preciso se preocupar com direitos das mulheres, democracia ou direitos humanos apenas nos países orientais. Havia essa ideia de que alguns países são sólidos e seguros, enquanto outros são líquidos e em construção.

Depois de Trump, do brexit e da ascensão de regimes populistas em muitos países, as pessoas perceberam que isso não existe. Estamos todos vivendo em tempos líquidos. A democracia é muito mais frágil do que se pensava e todos precisamos nos tornar cidadãos mais engajados.

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10 MINUTOS E 38 SEGUNDOS NESTE MUNDO ESTRANHO

Preço: R$ 49,90 (336 págs.)

Autor: Elif Shafak

Editora: HarperCollins

Tradução: Julia Romeu

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