Cotado no Santos, Quaresma superou preconceito por origem cigana para vingar

(Foto: Reuters)


Por Marcus Alves, de Lisboa (@_marcus_alves)

Em Portugal, é cena ainda comum encontrar sapos de cerâmica na porta de estabelecimentos comerciais. É uma forma de afastar a população cigana, que enxerga no animal uma figura de azar. Com uma comunidade estimada entre 40 e 60 mil pessoas, os ciganos têm de lidar com o preconceito no dia a dia, ainda que a situação tenha melhorado nos últimos anos, com ações como o projeto “Não engolimos sapos” para convencer lojas a retirarem o animal de suas entradas e até mesmo uma peça de teatro que rodou o país.

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Os ciganos têm uma grande referência em Portugal: o meia-atacante Ricardo Quaresma é tratado como herói do grupo.

No radar do Santos, o jogador de 36 anos recebeu consulta do alvinegro praiano após a contratação do compatriota Jesualdo Ferreira, treinador com quem se deu melhor em sua carreira. Desde o primeiro momento em que pisou no Brasil, o “Professor”, como é popularmente conhecido, teve de responder a perguntas sobre o seu ex-atleta no Porto.

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Em sua coletiva de apresentação nesta quarta-feira, Jesualdo foi indagado mais uma vez a respeito de uma possível vinda de Quaresma para se juntar a ele na Vila Belmiro. Fez cara de surpreso, tentou disfarçar, mas, no fim das contas, não negou o interesse no meia, que tem futuro indefinido no Kasimpasa, da Turquia.

“Os torcedores estão loucos com o Ricardo (Quaresma)? Ele é uma referência muito importante na minha vida. Ganhamos algumas coisas. É campeão europeu por Portugal, ganhou a Liga das Nações. O Ricardo é muito especial, um talento. Eu não falei ainda sobre o Ricardo. Vi que tem uma grande onda nas redes sociais”, despistou.

No ano passado, em passagem por Lisboa, Quaresma chegou a participar de programa no Canal 11, emissora em que Jesualdo trabalhava antes do acerto com o Santos.

Em Portugal, por um longo tempo, o sonho de consumo santista carregou a imagem de problemático. Algo que ele credita, em boa parte, ao preconceito por sua origem cigana, que ele teve de superar após surgir no Sporting ao lado de Cristiano Ronaldo e jogar por clubes como Barcelona, Chelsea e Inter de Milão.

“Nunca experimentei nada, nunca fumei, nunca bebi álcool, nem tenho vontade de o fazer, e no mundo do futebol tenho a fama de muita coisa. Mas lá está, como sou cigano e vim de uma comunidade, tenho essa fama. Porque a fama é fácil de ganhar, mas difícil é tirá-la de cima”, chegou a desabafar em um tradicional programa de entrevistas da emissora SIC.

(Foto: Reuters)

Em mais de uma ocasião, o jogador, cujo sucesso se confunde com a precisão de suas trivelas nos gramados, contou casos de sua infância, em que um casaco sumia na escola e logo desconfiavam dele.

Com a casca grossa, Quaresma teve participação importante na conquista da Eurocopa de 2016 e entrou na final contra a França. Em campo, ele cruzou com o também cigano André-Pierre Gignac do lado do adversário. Ao apito final, com o título inédito assegurado, a manchete de um jornal português:

“O nosso cigano é melhor que o deles”, dizia o Diário de Notícias.

Na última Copa do Mundo, Quaresma chegou a balançar as redes contra o Irã e se envolveu em polêmica posterior com o técnico rival Carlos Queiroz. No meio do bate-boca, a questão cigana foi, inclusive, citada pelos dois. Os portugueses passaram de fase e o assunto ficou para trás.

“Quando um cigano faz alguma coisa de mal, pagam todos por um. Quando é uma coisa boa, até se esquecem que é cigano”, afirmou Olga Mariano, sócia-fundadora da Associação para Desenvolvimento das Mulheres Ciganas Portuguesas.

A despeito de contar com uma política de integração da população cigana, a segregação em Portugal ainda persiste. Em manifestação recente, o próprio presidente Marcelo Rebelo de Sousa admitiu que a estratégia “não teve o sucesso que se pretendia”. Por esse motivo, nomes como Quaresma seguem sendo fundamentais para derrubar de vez o preconceito no país.

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