Elas namoram, mas optaram por não quebrar a quarentena: "Relação profissionalizou"

Apesar do desejo de furar a pandemia, Andressa e Bárbara toparam elevar o nível da relação e pensar no que seria bom para todos (Foto: Getty Creative)

Já são quase três meses de quarentena por coronavírus, pelo menos no estado de São Paulo. Você fica dia e noite em casa, esperando uma crise passar, mesmo sem ter ideia de quando isso vai acontecer. Sem ver amigos, trabalhando de casa e equilibrando a convivência com a família, amigos, o home office e a preocupação com o cenário geral, você ainda precisa lidar com outra coisa: a distância da namorada que mora apenas alguns bairros de distância.

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Sem perspectiva de retomar a convivência como antes, você sai de casa, mesmo contra as indicações e determinações estaduais, para passar algum tempo junto da pessoa que ama. Parece familiar?

Andressa* mora na capital do estado com os pais e costumava trabalhar na região da Av. Paulista, em uma empresa multinacional, antes da quarentena começar e o trabalho ser transferido para casa. Até então, ela, que sempre teve uma vida social bastante ativa, visitava com frequência um grupo de amigos, que mora em três apartamentos diferentes de um mesmo condomínio na Zona Oeste da cidade. 

As visitas ganharam um reforço quando Andressa começou a ficar com uma pessoa do grupo, Bárbara*, em dezembro do ano passado. Até aí, vida normal. Mas a pandemia começou a avançar no Brasil e os colegas de casa de Bárbara deram um basta no vai e vem: o momento era de isolamento, e eles não se sentiam confortáveis com as idas e vindas de Andressa. 

Ela, claro, topou. Afinal, a questão parecia complicar no Brasil e, até então, ninguém sabia o que seria da situação por aqui. Desde que a quarentena começou a valer, Andressa só encontrou com Bárbara algumas vezes. 

O cuidado não é sem motivo. São Paulo se tornou o epicentro da crise do coronavírus no país. Com quase 100 mil casos confirmados e quase 7 mil mortes registradas, o estado anda em alerta máximo no que diz respeito à capacidade dos hospitais e à contenção da transmissão. Ainda assim, o governador João Dória já anunciou a implementação de um plano de reabertura para o começo de junho. 

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Andressa conta que, no começo, encontrava com Bárbara uma vez a cada dez dias, em média, e foi na casa da namorada apenas duas vezes desde que adotaram o distanciamento social - uma vez no dia do aniversário de Andressa e, outra, para ajudar a namorada com a mudança de um amigo que não estava na capital. 

"Chegou num ponto que nós mesmas decidimos que o melhor a se fazer era parar de se ver mesmo, não ficar nesse entra e sai de casa, porque, no final das contas, ficava uma culpa no ar em muitas das vezes depois da gente se encontrar", explica ela. 

A conversa aconteceu em abril, e os encontros pararam por ali.  Andressa explica que só reviu a namorada fisicamente na semana passada, quando precisou levá-la ao dentista. "Entre pegar um Uber e eu levá-la na emergência, fui com ela num dia de manhã", conta.

Aliás, esse é um ponto importante na conduta de Andressa. Ela conta que quando tinha um motivo plausível para sair de casa e encontrar Bárbara (como levá-la ao dentista), o encontro acontecia sem grandes problemas. A questão ficava mais por conta de satisfazer um desejo pessoal. 

"Essa sensação de culpa vinha mesmo quando era algo meio que feito escondido, quando de fato não tinha uma real necessidade daquele encontro", explica. "A gente conversa muito sobre isso, do tipo 'Sim, estamos aqui morrendo de vontade de se ver, mas precisa? O que estamos sentindo agora com isso? E como provavelmente vamos ficar depois disso?'". 

Esse diálogo foi muito importante, inclusive, para que as duas lidassem com o desejo de quebrar a quarentena e encontrarem uma com a outra, onde quer que fosse - e até contrariando o pedido dos colegas de casa de Bárbara. "Tem horas que as duas estão muito sãs e tudo fica mais fácil. Mas, quando alguma das partes não está, a outra dá uma puxada e um 'hello, acorda fia!'. E isso pode ser exemplificado na quebra de quarentena. Já tiveram vezes que eu quis quebrar só por estar louca e achar que tudo se resolveria se a gente se visse. E ela me puxou para conversarmos sobre e vice-versa". 

Essas conversas, aliás, acontecem por chamadas de vídeo - e Andressa diz que, desde que decidiram parar de se encontrar fisicamente, as ligações são diárias. "Não vou negar que sinto falta de contato físico, de pegar nas pessoas, e não digo só pela Bárbara, isso é bem geral mesmo. Confesso que já pensei mais em quebrar a quarentena, hoje eu estou muito mais de boa". 

Um relacionamento profissional

Se, normalmente, relações como essa costumam ser bastante emocionais e ditadas pelas sensações e vontades do casal, Andressa explica que sentiu uma mudança na forma como se relaciona com Bárbara e vê, hoje, a relação das duas com muito mais profissionalismo. Apesar do termo ter uma ligação forte com o mundo corporativo, para ela isso significa uma amadurecimento necessário para o momento atual.  

"Acho que esse negócio de não ter contato físico exige mesmo que as relações se profissionalizem, sabe? Porque, se não tiver isso, a relação fica realmente sem sentido", reflete ela. "Se um relacionamento não é profissional, ele não vai rolar, e esse tem sido o nosso guia nesses últimos tempos, de uma virar para a outra e falar 'Chega de mimimi, vamos ser profissionais?'". 

Andressa, inclusive, acredita que a sua régua para relacionamentos subiu e muito - e que essa é também uma tendência daqui para a frente. "Acho que quem não entrar nessa vai perder o bonde. Vai ficar mais escancarado o quanto não ir pra esse lugar é optar por algo muito arcaico, um lugar que as coisas não andam para frente, que as pessoas não criam nenhum tipo de real intimidade", prevê.

*Nome fictício, usado a pedido da entrevistada.