É absurdo querer ter uma quarentena produtiva; trabalhe e viva em paz

Manter a calma em um período turbulento não implica fazer tudo o que as pessoas querem que você faça (Foto: Getty Creative)

Disponibilizaram sei-lá-quantos e-books de graça hoje. Tem mais um curso gratuito naquela plataforma. Você viu live de fulano? Tô aprendendo a fazer crochê. E aula de yoga online, já fez? Quantos minutos você se exercitou hoje? E livros? Leu quantos? Já criou um produto online pra vender? Como assim você não está sendo produtivo nessa quarentena de coronavírus

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Se a enxurrada de informações já era grande antes de termos que ficar todos em casa, agora, então, parece que a onda cresceu alguns metros. Toda hora tem uma live nova, um curso novo para fazer, alguém recomendando um livro diferente e, sim, pode ser que tenhamos tempo para fazer tudo isso, mas a pergunta é: é realmente necessário transformar um período de crise em uma competição de produtividade? 

Em entrevista ao jornal 'The New York Times', o consultor de produtividade e autor do livro 'Hiperfoco', Chris Bailey, diz o óbvio: "Já é difícil sermos produtivos nos melhores momentos, quanto mais diante de uma crise global". 

De fato, vivemos um momento de crise global e o isolamento não é uma questão de luxo ou capricho, mas de saúde pública: para aqueles que podem, ficar em casa significa evitar o rápido contágio de uma doença que já causou milhares de mortes mundo afora. 

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A pressão pela produtividade sempre existiu, mas, em um momento em que o medo e a apreensão parecem falar mais alto, será que é mesmo preciso aumentar o volume de uma música estridente e que sempre gerou estresse? 

Uma coisa é a adaptação por necessidade. Por exemplo, profissionais que precisam adaptar os seus serviços para o online agora que sair de casa é praticamente proibido - e isso, claro, aumenta o fluxo de informação na internet. Outra totalmente diferente é fazer as pessoas acreditarem que o tempo que antes era gasto no ônibus ou metrô agora precisa ser focado em fazer alguma coisa que melhore a sua carreira (ou o seu bem-estar como um todo).

Aisha Ahmad, professora de ciências políticas da Universidade de Toronto, escreveu no ‘The Chronicle of Higher Education’ como a situação que vivemos agora é semelhante à de uma guerra. A violência explícita pode não estar lá fora, mas o impacto que a pandemia tem na forma como vivemos e nos relacionamos é semelhante: o confinamento, o medo, a incerteza… Até mesmo a falta de produtos nos mercados e os efeitos na economia. 

Por isso, ela explica como o primeiro movimento para passar por essa fase é dar-se tempo. Levar um dia por vez, focando em deixar a sua mente se adaptar à essa mudança brusca de rotina e buscar, no máximo das suas capacidades, se manter calmo. A ansiedade e as sensações de insegurança são normais em uma situação como essa e somar a isso uma sensação de não produtividade não ajuda. 

Existe todo tipo de situação por aí: pessoas que já perderam o emprego por conta da crise, que estão trabalhando de casa, que estão com os filhos e trabalhando em casa, que estão com pessoas do grupo de risco por perto ou que estão passando por isso sozinhas. Acreditar que todas essas situações podem ser facilmente encaixadas em uma rotina produtiva é mentira. 

Talvez, a coisa mais produtiva que todo mundo pode fazer agora é lidar com um dia por vez e identificar as próprias necessidades a cada momento. A cultura da produtividade nos trouxe até aqui - e, vamos combinar, tem levantado argumentos controversos sobre a necessidade do isolamento social (spoiler: ele é necessário, sim) -, talvez a maneira mais prudente de “aproveitar o momento” seja repensá-la. 

Mude a sua relação com o que vem de fora

Boa parte da sensação de improdutividade que sentimos tem a ver com o tempo gasto observando a vida de outras pessoas. As redes sociais, por um lado, são uma porta de entrada para o mundo exterior, que agora parece muito mais distante, mas também pode potencializar uma sensação de que estamos falhando de alguma forma. 

Se você nunca ouviu falar de FOMO, o famoso "fear of missing out" (ou "medo de perder alguma coisa", em português) com certeza tem sofrido com ele ultimamente. É aquela sensação de estar de fora, não estar participando ou fazendo alguma coisa, de ficar para trás. 

Muito do que sentimos pode ser ligado ao quanto nos deixamos levar pelo que vemos na internet. Por isso, filtrar o seu consumo é uma das melhores coisas a fazer num momento como esse. Se a questão é o quanto você acha (ou vê) as pessoas fazendo coisas diferentes, então, o melhor é não ver mais. Seja criterioso com o que você consome online. É importante lembrar que o conteúdo sempre vai estar ali é uma escolha sua consumi-lo ou não. 

Um outro ponto é entender quais são as suas prioridades e necessidades no momento. Se o trabalho de casa tem consumido o seu dia ou cuidar das crianças têm sido um desafio, aceite que esses devem ser o seu foco momentâneo - e deixe o resto para lá. 

O que significa ser produtivo, afinal? Para muitos, é encher o dia com atividades que mantém a mente ocupada - e se isso ajuda você a diminuir a ansiedade e focar no que você pode controlar, ótimo. Para tantos outros, é tentar fazer o mínimo, como levantar da cama e comer alguma coisa antes do meio dia. 

A forma como as pessoas vão lidar com um período de estresse extremo varia e tentar manter rodando uma ideia de produtividade capitalista que busca o lucro acima de tudo e que, como já sabemos, se preocupa pouco com o bem-estar mental (e físico) das pessoas não vai fazer essa situação acabar mais rápido. 

Pelo contrário, como disse Aisha, a pandemia nunca vai acabar. O vírus pode sumir, podemos criar imunidade e voltar a sair de casa, mas o que está acontecendo agora vai mudar para sempre a forma como o mundo funciona. Que possamos tirar tempo para nos adaptar em paz, sem a obrigação de ler um livro de 500 páginas por semana.