Como a quarentena pode influenciar no desenvolvimento de crianças?

Colaboradores Yahoo Vida e Estilo
·7 minuto de leitura
Little toddler baby boy, playing on stadium, prepare for run
Quarentena pode influenciar no desenvolvimento de criança. Foto: Getty Creative

Por Fernanda Lopes

A pandemia do novo coronavírus (covid-19) e o isolamento social praticado no mundo inteiro como única forma de prevenção ao contágio tem se mostrado um desafio para todas as famílias, de uma forma ou de outra. Para quem tem filhos pequenos em casa, existem muitas questões e preocupações em relação ao que fazer com as crianças, como mantê-las estimuladas, entretidas e em dia com o desenvolvimento característico de suas faixas etárias. Além, é claro, de mantê-las saudáveis.

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As crianças nascidas a partir de 2010 são chamadas por alguns psicólogos de geração Alfa e têm como característica em comum o fato de já terem nascido num mundo completamente digital. Isso faz com que elas, desde muito pequenas, ajam com naturalidade perto de dispositivos eletrônicos e não enxerguem um limite entre o mundo virtual e o mundo “real”. Os dois estão intrinsecamente conectados. Essa característica faz diferença no crescimento dos pequenos e deve ser levada em conta durante a quarentena.

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O pediatra Fernando Lamano, do departamento de saúde mental da Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP), não gosta de rotular as crianças neste recorte geracional, porque é uma geração que ainda está crescendo, se constituindo. Ele ressalta, no entanto, o primeiro e principal impacto que a quarentena tem gerado nas crianças, sem distinção de faixa etária, classe social ou nacionalidade, por exemplo: a mudança na rotina.

“Rotina é algo muito importante na infância. Ela ajuda na organização, nos hábitos, na alimentação e tem forte influência no ritmo biológico. É a maneira como nosso corpo se organiza. Ter rotina favorece a regulação dos hormônios e outras substâncias que regem nosso sono, fome, atividade e descanso”, ele explica. Por isso, é fundamental que as crianças sigam uma rotina estabelecida pelos pais, ainda que sejam pequenas demais para terem aulas. Demarcar horários para acordar, almoçar e dormir, por exemplo, é importante.

A infância também é um período da vida de aprendizado e desenvolvimento intenso - dos zero aos cinco anos, ocorre a evolução de quase todas as habilidades motoras, sensoriais e de linguagem, e daí para frente as habilidades emocionais têm grande avanço.

O que poderia acontecer, então, no período de quarentena, quando os estímulos externos aos quais a criança estaria normalmente exposta estão muitíssimo limitados, além do contato com amigos, professores e outros familiares?

“Com certeza os estímulos externos fazem falta. Correr, brincar, praticar esportes, tomar sol, natureza... Mas temos que ter em mente que tudo isso [situações da pandemia] é temporário, e uma das coisas mais importantes com que estamos lidando nessa quarentena é que, apesar da falta do que é "externo", estamos tendo as vantagens das relações familiares mais próximas, que muitas vezes estavam sendo vivenciadas de forma rotineira e na correria”, pondera o pediatra.

“As crianças menores (até cinco anos) costumam aprender através de representações de faz de conta. Assim, todas as atividades de estimulação das habilidades básicas para alfabetização podem ser tranquilamente encontradas na nossa rotina diária, com dedicação e criatividade”, afirma a psicopedagoga Katherine Vicentim.


A psicóloga cognitivo-comportamental Talita Simões, do Centro Paulista de Psicologia, concorda que a falta de estímulos externos não é necessariamente um problema, desde que haja bastante interação entre os familiares e a criança. “O fato de ficar em casa pode não ser tão prejudicial, desde que os pais estejam atentos as atividades propostas. Se essas crianças ficam inertes nos eletrônicos apenas, elas acabam sem acesso a outros estímulos que são importantes para seu desenvolvimento social e verbal, e aí sim o prejuízo acontece. É importante então, ter uma estratégia simples (não precisa ser o dia inteiro), mas variada de atividades, estimulando principalmente a interação com outras pessoas da casa”, diz ela.

Ela enfatiza que a questão da intimidade com a tecnologia também precisa ser trabalhada na quarentena, para que os pequenos não vivam no mundo paralelo de seus jogos e redes eletrônicos. “Com a quarentena, a troca de ambientes (casa, escola e outros locais) não acontece. As atividades podem parecer infinitas, e eles passam a apresentar maiores dificuldades para encerrar tarefas de lazer. Essa noção de tempo comprometida acaba contribuindo para um aumento da ansiedade e frustração, desenvolvendo assim comportamentos de birra, briga e choro excessivo”, alerta a profissional.

“Brincar ludicamente por si só já é algo carregado de diversas estimulações, e por este motivo torna-se ainda mais importante restringir o uso dos eletrônicos, para que possamos estimular a criatividade dos pequenos”, ressalta Katherine.

O que fazer com as crianças na quarentena?

Para pais confusos e preocupados com seus filhos pequenos, o primeiro passo é se fazerem presentes nas vidas deles; interagirem, mostrarem que querem participar em suas atividades cotidianas. “Quem trabalha com desenvolvimento infantil tem enfatizado muito que devemos prestar mais atenção nas interações do que nas estimulações. Portanto, as coisas que a gente faz junto têm valor. Pode ser uma arrumação da casa, leitura, jogos, ajudar no preparo da mesa ou de algum prato”, sugere o médico Fernando Lamano.

“Os pais podem manter uma rotina leve de horários e combinados. Isso estimula a autonomia, responsabilidade e conexão com o mundo físico. O estimulo a atividades manuais, como desenhos, pinturas, massinhas, também é muito importante para diminuição da ansiedade”, complementa a psicóloga Talita.

Falar sobre as emoções com as crianças também é necessário, ainda que os adultos pensem que elas não entendem direito (no momento atual, muitas vezes nem os próprios adultos entendem o que estão sentindo a cada dia).

“Essa situação de estresse e medo devido à pandemia acaba sendo passada para as crianças de alguma maneira. Seja de forma falada ou não”, diz o pediatra. “É importante neste momento falar do que se sente. O adulto pode falar sobre tristeza, saudades, alegria, e ajudar a criança a identificar isso. Quando nomeamos nossas emoções, é uma forma de acolher e entender que podemos lidar com as situações, e isso contribui para que tanto os adultos quanto as crianças se mantenham em equilíbrio. É primordial dar espaço para que a criança fale do que sente falta e seja acolhida, chegando ao entendimento de que é normal se sentir assim às vezes. Essa atitude contribui para o desenvolvimento emocional”, explica Talita.

É possível, ainda, que os pais façam exercícios com os filhos, para mantê-los saudáveis e com bem estar físico e mental durante o isolamento.

“Uma atividade simples para crianças que estão inquietas é o estímulo a noção de início e fim. Quando a criança trocar de atividade, ajude-a a identificar que a anterior acabou e que algo novo está começando. Pode-se falar para ela fechar o olhinho, respirar e depois começar algo novo. Isso ajuda muito a diminuir a agitação e o tédio, porque traz a consciência de que algo está se encerrando e algo diferente está começando”, ensina a psicóloga.

“Para trabalhar as habilidades de controle motor, ritmo e equilíbrio, podemos preparar atividades que envolvem o corpo, mãos e pernas. Brincadeira da cadeira, com bolas, peças/cubos de encaixe são alguns exemplos, além de dançar, desenhar, pega-pega e esconde-esconde. Para a estimulação das habilidades de linguagem, pode-se realizar a hora do conto, com livros de leitura, teatro, fantoches. Já para as habilidades de concentração, memória e lógica, é possível utilizar jogos que envolvem a estimulação do raciocínio, como jogo da memória, quebra-cabeças e xadrez”, a psicopedagoga Katherine Vicentim indica.

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