Maior desafio da quarentena é controlar ansiedade, dizem pessoas isoladas

A atriz e numeróloga Gabriela Zenaro está isolada em seu quarto. Foto: Arquivo Pessoal

Desde que a OMS (Organização Mundial da Saúde) decretou a pandemia de coronavírus, foi recomendado que as pessoas passassem a ficar em isolamento total para que a doença não se espalhasse ainda mais. No Brasil, boa parte da população aderiu à quarentena para ajudar no combate ao Covid-19.

Com as redes sociais, jovens passaram a mostrar como estão lidando com a situação e os mais bem humorados estão fazendo até memes e piadas sobre a falta de contato pessoal com outros. Na internet, muitos estão chamando as pessoas que optaram pelo isolamento de “quarenteners”.

A atriz e numeróloga Gabriela Zenaro, 29 anos, é uma dessas pessoas. Isolada desde domingo (15), ela passou a sentir alguns sintomas da doença e se fechou em seu quarto para não ter contato com sua mãe e sua tia, que moram na mesma casa que ela.

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Gabriela afirma que seu trabalho como atriz está comprometido por conta do vírus e que isso irá acabar prejudicando seu orçamento no final do mês. Porém, durante o período, ela tem aproveitado para fazer consultas de numerologia on-line. “Eu também estou tentando ver bastante filme, trabalhar um pouco, eu medito… estou tentando achar alternativas: ler, estudar… mas estou tentando fugir um pouco das notícias”, diz.

A quantidade de informação sobre a doença o tempo todo acaba deixando a atriz bastante ansiosa. Para ela, esse é o maior problema durante o período: sua saúde mental. “Eu senti bastante ansiedade nos últimos dias. Está rolando muita fake news, muita informação… aí eu decidi que eu tinha que ler menos notícias para cuidar da minha saúde mental”, explica.

“Eu estava ficando muito ansiosa e eu também estou tendo sintomas. Mas aí eu não sei se é realmente alguma coisa ou se é um reflexo da minha ansiedade. Então, eu estou tentando não ler muita notícia e me distrair com outras coisas. Eu converso muito com amigos, nós fizemos chamadas de vídeo, eu dei risada... é um pouco difícil ficar nesse isolamento”, diz.

De acordo com a psicóloga Tayara Maronesi, as reuniões virtuais com amigos podem ser uma ótima saída para evitar o sentimento de solidão durante o período. “A necessidade de isolamento é físico. Ele não precisa ser afetivo. A gente pode demonstrar nosso afeto e nosso carinho de outras formas”, afirma.

“Hoje, nós temos as redes sociais. A gente tem que usá-las para conversar, mandar mensagens para as pessoas, fazer ligações também. Seres humanos são seres sociais. Nós precisamos dessa interação”, constata dizendo que todos podemos buscar pessoas com as quais não falamos por muito tempo e tentar uma reconexão, inclusive.

Mesmo com a dificuldade, Gabriela diz que pretende ficar ao menos 14 dias dentro de casa. “O que mais estou sentindo falta é do contato humano, é de poder ter minha rotina, poder falar com as pessoas sem ter medo de encostar… eu sou caseira, ficar em casa não é um problema pra mim. Mas, saber que eu não posso encontrar uma amiga, dar um abraço, tomar uma cerveja… eu acho que isso é o que mais gera incerteza”, constata.

A rotina da estudante de medicina Mirian Punski, 24 anos, também está incerta. No quinto ano da faculdade, a instituição em que ela estuda entrou em quarentena por duas semanas e fez com que a jovem precisasse continuar os estudos dentro de casa. Desde o dia 14, sua rotina tem sido basicamente estudar, ver algumas séries e interagir com a família dentro de casa.

“A gente não sabe quando a gente vai voltar. Eu tinha um calendário de provas, então, estou mantendo os estudos. Eu estou fazendo um curso on-line, que o site do SUS (Sistema Único de Saúde) oferece gratuito e também estou assistindo um curso de filosofia que um aplicativo disponibilizou grátis durante a quarentena para distrair a mente desse assunto de pandemia que está em todos os lugares”, explica.

Segundo Mirian, ficar vendo notícias a todo o momento estava lhe fazendo mal. “Estava me deixando muito ansiosa. Agora, eu estou tentando deixar pra ver o que aconteceu de mais importante só de manhã ou só de noite. Eu estou sentindo falta de estar em uma rotina, eu sinto falta de fazer as coisas, de entrar em contato com as pessoas, de ser útil em alguma coisa. Parece que em casa a gente fica sem fazer nada”, diz.

A estudante de medicina Mirian Punski aproveita o momento para estudar. Foto: Arquivo Pessoal

De acordo com a psicóloga Tayara, é importante que todos façam como Mirian e reduzam o tempo nas redes sociais para que o volume de notícias não gere medo e ansiedade. “Coloca um despertador com o tempo que você vai ver as redes sociais. Se não, a gente se perde e fica horas”, afirma.

De acordo com a especialista, estabelecer rotinas, fazer exercícios de respiração e fazer uma lista com as coisas que estão e que não estão no nosso controle na situação também podem ser muito úteis. Para ela, outra questão importante é que, durante o período de quarentena, as pessoas demonstrem empatia por aquelas que estão com a doença ou que estão no grupo de risco.

“Independente do que eu falar para que seja feito, é importante que cada um sinta o que combina consigo. Tem diversas formas de lidar com o que está acontecendo no mundo”, explica a psicóloga.

A forma que a gerente de marketing Camila Ribeiro, 29 anos, encontrou de lidar com a quarentena foi pensando em levar “um dia de cada vez”. “Apesar de eu ter meu cachorro me fazendo companhia, faz diferença não ter gente para conversar. Isso é assustador. Eu tô no terceiro dia e não sei quanto tempo mais vou levar isso numa boa. Mas é um dia de cada vez e rezar para que isso passe o mais rápido possível”, diz.

Ela está isolada desde quarta-feira (18). A empresa para a qual Camila trabalha pediu para que ela fizesse seu trabalho de casa, local em que mora com seu namorado. “Eu faço parte do grupo de risco. Eu tenho uma doença autoimune e tenho que tomar um medicamento biológico. Eu trabalho em um restaurante que fica dentro de um shopping e ele vai ficar sem funcionar presencialmente até o dia 30 de abril. Então, eu devo ficar esse tempo no isolamento”, afirma.

A gerente de marketing Camila Ribeiro tenta manter sua rotina normal. Foto: Arquivo Pessoal

Mesmo na quarentena, Camila diz que está tentando manter sua rotina. Por volta das 9h ela começa a trabalhar, faz uma parada de uma hora para o almoço e fica até 18h trabalhando. “Eu também tenho tentado me exercitar no fim da tarde. Eu moro em um condomínio fechado e eu ainda estou conseguindo fazer caminhadas dentro do condomínio. Mas eu tenho tentado me informar, tentado manter a calma e tentando dizer pra mim que eu estou segura”, diz.

De acordo com a psicóloga Tayara é importante que todas as pessoas que fazem uso de algum tipo de medicação mantenham as suas doses diárias com o acompanhamento de seus médicos. “Esse momento vai passar. Ele é temporário. É desafiador, mas temporário. A gente precisa passar por ele da melhor forma possível e, depois, a nossa vida vai continuar”, finaliza.