Coronavírus: como manter a saúde mental e ainda acompanhar as notícias

Estabelecer limites ao consumir notícias pode ser uma ferramenta importante para a saúde mental, dizem os especialistas. (Getty Creative)

Enquanto o COVID-19 continua a tomar vidas em todo o mundo, muitos outros protestos estão acontecendo ao redor do globo. E sabemos que é necessário acompanhar o que está acontecendo diariamente - especialmente durante esse intenso ciclo de notícias - enquanto nos abrigamos em casa.

Mas os especialistas em saúde mental chegaram com um tapa na cara que muita gente não consegue alcançar: não há problema em restringir quantas notícias consumimos nesses tempos sombrios, especialmente para aqueles propensos à ansiedade e depressão ou com alguma experiência traumática.

“Limitar notícias e redes sociais é uma ótima estratégia para controlar os sentimentos de ansiedade e desamparo”, concorda Jen Hartstein, colaboradora da coluna Saúde Mental, do Yahoo Vida & Estilo, e psicóloga. "Às vezes, é a melhor coisa que podemos fazer por nós mesmos, quando necessário".

Aqui, Hartstein e Asha Tarry, psicoterapeuta, autora, coach e defensora da saúde mental, compartilham suas dicas para lidar com a enxurrada de notícias com uma mentalidade saudável.

Escute o que seu corpo te diz

Tarry diz ao Yahoo Vida & Estilo que as pessoas devem prestar atenção às mudanças fisiológicas que possam sofrer ao sintonizar as notícias ou checar o Twitter e o Facebook. Pupilas dilatadas, batimentos cardíacos acelerados, palmas das mãos suadas, dores de cabeça, dor de estômago, dor nas costas, respiração fraca ou fala acelerada podem ser indícios de que "você está sentindo os efeitos de um trauma", disse ela.

“Ter uma perspectiva de atenção plena inclui dizer a si mesmo: 'OK, estou lendo essas notícias agora, e isso é mais perturbador do que eu posso lidar, e sinto essas mudanças que acabei de apontar, portanto, é hora de fazer outra coisa”, explica Tarry.

"Seja claro quando notar esses sinais, veja quais são, rotule-os e depois trabalhe para entender que isso é temporário em termos do que você pode fazer e que tem o direito de fazer outra coisa naquele momento".

Ao "se sintonizar com o seu corpo", uma pessoa pode identificar quando é a hora de fazer uma pausa e quando é mais confortável retornar ao diálogo.

Hartstein aconselha "focar" no agora quando se sentir "dominado por suas emoções": "Respire fundo, sinta o seu corpo e coloque seu peso nos pés", aconselha ela. “Entre em um lugar onde você se sinta mais seguro. Não tenha medo de conversar com as pessoas sobre como você está se sentindo, pois provavelmente não é o único que está se sentindo assim", avisa.

Seja honesto com quem está ao seu lado

Ser honesto com amigos, familiares e vizinhos é algo que Tarry também recomenda. Pedir que eles tomem cuidado ao compartilhar informações em vez de bombardear as redes sociais sem qualquer contexto ou alarmantes, é uma boa abordagem.

“Não há problema em enviar uma mensagem ou um e-mail em massa e apenas dizer: 'Ei, pessoal, tenho participado dessa [conversa] e estou ansioso para fazer parte dela novamente, mas, por enquanto, eu agradeceria se vocês não me enviassem vídeos'”, sugere.

Estabeleça limites para si mesmo

Assim, silenciar determinadas contas, desativar alertas de mensagens e e-mails e limitar o tempo de tela também pode ajudar a evitar um fluxo constante de postagens que potencialmente serão gatilhos. Se estiver com dificuldades, dê um tempo para si mesmo para se desligar e combater o desejo de monitorar constantemente as últimas manchetes e opiniões.

"Estabelecer limites é fundamental", disse Hartstein. “Imponha horários específicos para verificar as notícias e as redes sociais e os cumpra. Encontre também boas notícias para explorar e retribuir a si mesmo. Preste atenção nas suas emoções e em como você está e desligue tudo novamente se perceber que está se sentindo sobrecarregado”.

Tarry acrescenta: "Embora você queira se envolver, tenha cuidado com quanto tempo você se envolve".

Limitar o tempo de tela pode ajudar a manter os sentimentos de ansiedade longe. (Getty Creative)

Verifique como estão as crianças

É natural querer estender esse modo de proteção aos jovens, mas varrer esses problemas para debaixo do tapete não é a solução. Tarry diz que, embora seja uma boa opção examinar alguns conteúdos, como uma transmissão ao vivo, antes de compartilhá-los com toda a família, é inútil silenciar completamente esses problemas e notícias - dos quais muitas crianças provavelmente já devem estar cientes.

"Eu aconselharia os pais a usarem seu julgamento, especialmente relacionado à idade e ao desenvolvimento da criança", disse Tarry ao abordar notícias perturbadoras com os jovens. "Se você tem uma criança de idade mais madura que já está falando sobre isso com seus colegas on-line, é importante ter essas conversas sobre o que eles estão discutindo na escola ou sobre o que já viram nos noticiários. Se eles tiverem um telefone próprio, poderão procurar por si próprios [e ver o que está acontecendo]”.

É importante ter essas conversas diárias com seus filhos: "E não presuma que, porque seu filho é mais novo que você, não sabe o que está acontecendo no mundo... é necessário tomar uma decisão sobre o que seu filho tem idade suficiente para falar”, conta.

"Eu diria para ser muito cauteloso com o que está diante deles", acrescenta Tarry, observando que oferecer um resumo ou descrição de determinada filmagem é uma alternativa menos assustadora para o público jovem.

Não ignore a "agitação mental"

Tarry diz que o atual ciclo de notícias criou uma "turbulência mental" - principalmente para as pessoas negras - e reconhecer isso é muito importante.

"Como praticante da técnica de atenção plena, o que faço com as pessoas é ajudá-las a não negar sua experiência com o trauma", disse ela, acrescentando que as pessoas devem decidir por si mesmas como interagem com o que está acontecendo no mundo.

Isso não significa fechar os olhos para as questões de desigualdade estarem sendo ampliadas, ou não ser um participante ativo doando, protestando, debatendo ou usando sua plataforma para elevar vozes sub-representadas. Limitar a exposição às notícias não significa enfiar a cabeça na areia ou exercer privilégios; trata-se de processar assuntos difíceis enquanto pratica o autocuidado.

"Na verdade, é um direito humano determinar o que é suficiente e o que é além do que você consegue lidar", disse Tarry. “Quero que as pessoas pensem em si mesmas como tendo poderes [para fazer essa escolha]... Você tem o direito humano de decidir o quanto é suficiente, quando é o suficiente”.

Erin Donnelly