Quantas mortes serão necessárias para a conversa sobre saúde mental acontecer no K-Pop?

Goo Hara foi encontrada morta em sua casa em novembro deste ano (Foto: Instagram / Goo Hara)
Goo Hara foi encontrada morta em sua casa em novembro deste ano (Foto: Instagram / Goo Hara)

2019 não tem sido um ano fácil. Para o Brasil, isso não é nenhuma novidade, mas saindo um pouco das questões nacionais, o K-Pop viu, em menos de três meses, três de seus idols morrerem, todos de maneiras semelhantes.

A especulação da mídia é suicídio, já que o ator Cha In Ha e as cantoras Sulli e Goo Hara foram encontrados mortos em suas próprias casas. Todos com menos de 30 anos, a morte dos artistas foi sentida por fãs de todo o mundo - e levanta mais uma vez a questão da saúde mental na Coreia do Sul.

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In Ha, de 27 anos, foi encontrado em sua casa na última terça-feira (3), e a causa da morte ainda não foi revelada. Ao contrário, o suicídio de Sulli e Goo Hara, que eram inclusive amigas próximas, já foi confirmado pelas autoridades.

As mortes de personalidades tão queridas na cultura coreana - Sulli e Hara, em especial, eram um exemplo para muitas meninas que buscavam se reafirmar e encontrarem a confiança além da cultura machista local -, deixou o público bastante mexido e questionando o que deu errado na indústria.

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Ao mesmo tempo que, no Brasil, o K-pop já ajudou muitas meninas que batalham diariamente com doenças mentais como a depressão e a ansiedade, quando se fala nos artistas em si o efeito é o contrário. A pressão das grandes empresas de entretenimento, o bullying online (muito comum por lá) e a busca constante por perfeição em uma vida altamente regrada e controlada não parece ser compensada pelos louros da fama.

Sulli faleceu em outubro de 2019 (Foto: Instagram)
Sulli faleceu em outubro de 2019 (Foto: Instagram)

Falando no Brasil, se por aqui já é difícil conversar sobre saúde mental, imagine em um país tão fechado como a Coreia do Sul. Por lá, a questão da opinião pública tem um peso muito maior do que aqui, e idols já foram jogados ao ostracismo por não sorrirem em programas de TV e por namorarem em público - imagine falar sobre sua saúde mental. Aliás, a própria indústria do k-pop é conhecida pelos inúmeros escândalos e, principalmente, pelo tratamento com os seus artistas, considerado muitas vezes como cruel.

Na maioria das vezes, o treinamento de cantores e dançarinos, tanto homens quanto mulheres, começa muito cedo, antes dos 15 anos, e a pressão por impressionar um dos managers ou olheiros das grandes empresas e conseguir debutar como um artista em um grupo é muito grande. Fora isso, ao passar dos 20 e tantos anos esses artistas já são considerados "velhos demais", e são comumente substituídos pelos mais novos. A transição para uma outra carreira e tentar se manter relevante num mercado tão competitivo não é fácil.

No caso de Sulli e Hara, o bullying online, em que comentários maldosos eram feitos por usuários e rumores mentirosos sobre as duas eram espalhados online, é considerado como uma das causas do estado mental que levou as duas à morte. No caso de Hara, a situação ficou complicada depois que ela acusou o ex-namorado de chantageá-la com uma sex tape dos dois. Para Sulli, foi o fato de ter engajado em causas feministas, especificamente uma campanha que questionava o uso de sutiãs.

Como consequência dos últimos casos, uma nova lei está em aprovação na Coreia, que promete tornar a educação a respeito do ciberbullying obrigatório nas escolas e empresas privadas coreanas - e o governo local também tem lidado com a pressão popular para endurecer os julgamentos de casos de machismo, assédio sexual e machismo.

Cha In Ha (Foto: Instagram)
Cha In Ha (Foto: Instagram)

Vale lembrar que a Coreia do Sul está entre os países com o mais alto índice de suicídio dentre os países ricos. No mundo todo, sabe-se que o suicídio é a terceira principal causa de morte entre os jovens de 18 a 29 anos - e fala-se inclusive em uma "epidemia" de mortes auto-inflingidas.

Em novembro desse ano, S. Coups, nome artístico de Choi Seungcheol, rapper e líder do grupo Seventeen, anunciou um hiato na carreira para lidar com questões de saúde mental, o que demonstra que, talvez as coisas estejam mudando. Ao mesmo tempo, sabe-se do desejo das grandes empresas do entretenimento de evitar rumores e especulações sobre a vida dos idols, por isso, é difícil afirmar que a preocupação seja, de fato, com o bem-estar do músico.

Qualquer que seja o motivo, porém, os casos só reforçam a importância de tornar essa conversa mais aberta e abrir os olhos, tanto das empresas, quanto da população como um todo, à uma questão urgente: a mente das pessoas não vai bem e colocar panos quentes sobre o assunto simplesmente não resolve.

Outro ponto importante é lembrar que, no Brasil, é possível encontrar atendimento psicológico e psiquiátrico gratuito na cidade de São Paulo, e que medicamentos usados no tratamento de questões mentais, como antidepressivos, são disponibilizados através do Sistema Único de Saúde, o SUS. No mais, é possível também recorrer a ajuda discando 188 para falar no CVV, o Centro de Valorização da Vida.