'Quando a gente estressa uma história, ela melhora', diz Rosane Svartman

***FOTO DE ARQUIVO*** SÃO PAULO, SP, BRASIL, 11-01-2011 - Rosane Svartman na pré estreia do seu filme

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Como todo mundo, Rosane Svartman está passando por apuros nesta quarentena. Mesmo desenvolvendo um trabalho intelectual que pode ser feito à distância, a roteirista tem enfrentado dificuldades para se adaptar ao home office.

"Na minha vida toda, eu sempre procurei não levar trabalho para casa. Quando estou lá, quero dar atenção à família" conta ela, em entrevista por telefone. "Eu gosto de marcar bem a diferença entre o público e o privado. E de trabalhar com a minha equipe em volta, presencialmente, como numa Redação de jornal."

Foi assim que, durante muitos meses, Rosane Svartman e Paulo Halm escreveram "Bom Sucesso", novela da faixa das 19 horas da Globo. De segunda a sábado, os dois e mais um pequeno grupo de colaboradores chegavam por volta das 10h a um escritório no Rio de Janeiro. Trabalhavam o dia inteiro e, à noite, ainda assistiam juntos ao capítulo da novela que ia ao ar.

"Eu sou gregária. Gosto de conviver com outros autores, outros olhares, outras trajetórias. Gosto de 'estressar' a história, porque, assim, ela melhora", prossegue Svartman.

Mas estressar não é um termo negativo? "Do jeito que eu uso, não", ri ela. "Aprendi este sentido da palavra com José Alvarenga Jr., diretor de núcleo na Globo, com quem fiz 'Malhação Sonhos', em 2014. A temporada teve que ser esticada, porque a cidade cenográfica da temporada seguinte não ficou pronta a tempo. Alvarenga trancou toda a equipe numa sala, mandou vir comida e avisou: vamos estressar, até saírem boas ideias!."

Apesar de enxuta, a equipe de "Bom Sucesso" era diversificada. "Um roteirista pode escrever sobre qualquer coisa, somos múltiplos. Mas claro que cada um de nós tem um ponto de vista único. Paulo e eu, por exemplo, temos apenas sete anos de diferença de idade, mas isso já nos dá perspectivas bem diferentes."

Rosane Svartman faz questão de ressaltar cada um de seus colegas. "Fabrício Santiago, que é negro, escrevia tanto o Ramon (personagem de Davi Junior) como as cenas da família da Paloma (Grazi Massafera). A Isabela Aquino, também negra, tem só 24 anos, e escrevia todos os personagens jovens. A Claudia Sardinha, branca, se ocupava mais da Nana (Fabíula Nascimento) e do Diogo (Armando Babaioff). A turma da editora ficava a cargo do Felipe Cabral, que é ativista LGBTQ+. E o Charles Peixoto, que fez parte do movimento da poesia marginal, escrevia o Alberto (Antonio Fagundes), um homem da idade dele."

"Bom Sucesso" terminou em janeiro passado, com ótimos índices de audiência e o prêmio da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte, da qual faço parte) de melhor novela de 2019. Svartman planejava uma longa viagem para espairecer, mas só conseguiu passar um fim de semana na Ilha Grande, em Angra dos Reis (RJ). Aí, começou a pandemia.

"A desigualdade do Brasil torna este momento muito difícil para grande parte da população", afirma a escritora. "É importante termos empatia, termos solidariedade. Também precisamos nos organizar, para manter o equilíbrio."

Organizada, Rosane Svartman sempre foi. Ela, que já criou uma tabela para distribuir o trabalho ao longo da semana e poder folgar pelo menos um dia, está ocupada durante a quarentena, traduzindo para o inglês sua tese de doutorado, que será publicada em livro.

"Eu falo das transformações pelas quais a televisão vem passando. A convergência das telas vem mudando a maneira como a gente entende cada uma delas separadamente", explica Svartman. "Aqui no Brasil, temos o fenômeno das telenovelas, que ainda atingem uma audiência muito alta. Elas são a chave para entendermos o futuro da nossa TV."

Por falar em novela, qual será a sua próxima? "Não sei. Em algum momento, eu e Paulo iremos apresentar uma sinopse à Globo, mas ainda não temos uma previsão de volta ao ar."

No ar, Rosane Svartman já está com a reprise de "Totalmente Demais" (2015-2016). "Eu tenho assistido sempre que posso, estou adorando!", comenta ela. "E com um olho no Twitter, para ver o que as pessoas estão comentando. Mas é claro que tem coisas que eu gostaria de mudar. O mundo de hoje não é o mesmo de 2015."

E quando a quarentena acabar? "Ah, quando começou eu tinha altos planos, viagens longas... Agora só quero voltar à vida normal. Encontrar os amigos no bar, almoços de família, esse tipo de coisa".

Nesta sexta (9), Rosane Svartman participa do debate online "Elas: Autoras de Dramaturgias", às 14h, junto com Carolina Kotscho ("Hebe, a Estrela do Brasil"), Flávia Lins ("Detetives do Prédio Azul") e Maria Camargo ("Assédio"), com mediação de Carla Esmeralda. O bate-papo integra a programação do Rio2C Live, e pode ser assistido gratuitamente no YouTube. Basta se inscrever em www.youtube.com/rio2c.