Tik Tok traz conteúdo de educação sexual e eu não sei quando falar de sexo com meu filho

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Falar de educação sexual é falar de gênero (Foto: Getty Images)
Falar de educação sexual é falar de gênero (Foto: Getty Images)

Desde o boom do TikTok no ano passado, milhares de crianças e adolescentes aderiram à rede social. E não é incomum que eles recebam uma centena de conteúdos que vão além das dancinhas e dublagens. Muitas das postagens, chegam até o “for you” (página principal ou timeline do aplicativo) trazendo informações que envolvem temas como sexualidade.

E mesmo podendo filtrar alguns tipos de publicações, muitas vezes elas chegam até o usuário que é menor de idade. Em um vídeo postado em um perfil por uma produtora de conteúdo com o título “minha ppk fica úmida durante o dia, é normal”, que já conta com mais 100 mil visualizações, ela explica e mostra mais sobre o tema. Já em uma outra postagem, Milka Freitas descreve na sua bio que o perfil é sobre educação sexual de forma divertida e sem “mi mi mi”.

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Mesmo com temas que estão o tempo todo na mídia e que precisam ser falados entre as crianças, alguns conteúdos chamaram atenção dos pais que acreditam que o aplicativo não ensina coisas positivas para quem tem menos de 18 anos.

Renata Sucena, 43, é mãe de Gabriel, que tem 11 anos, e mesmo o filho pedindo para ter a rede social, ela não deixa que a criança instale o aplicativo no celular. 

O Tik Tok é muito superficial e tenho medo de gerar ansiedade nele e uma busca por likesafirma

Ela acredita que falar de temas como educação sexual é necessário, sim, entre as crianças, mas que o assunto deve ser debatido com os próprios pais e escola. “Os pais e a escola vão fazer uma orientação mais assertiva. Tenho medo de deixar uma pessoa que eu nem conheço fazer esse tipo de educação. É muito difícil filtrar o tempo todo”, reforça.

A gerente de produtos financeiros Débora Sousa, 33, tem um filho de 12 anos e acredita que o pessoal fala na rede social o que realmente está em alta. No entanto, na opinião dela, muitos pais não estão preparados para que as crianças achem normal falar sobre identidade de gênero e outros assuntos. “É uma realidade da sociedade atual. Eu não vejo o TikTok como um problema. Sempre fui aberta para falar as coisas para o meu filho, justamente para quando ele fosse pesquisar, não ficasse chocado com alguma coisa”, ressalta.

Temos que falar de sexo com as crianças?

Katia Ethiénne, pós-doutora em Educação e coordenadora de EAD da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), afirma que discutir sobre educação sexual, mesmo que seja em uma rede social, faz parte da geração de agora. “A palavra é rede social. Você tem que estar disposto para conversar sobre o que está acontecendo na sociedade. Isso inclui temas como racismo, homofobia, bissexualidade, valorização de outras coisas”, pondera.

Mesmo que seja para falar de assuntos ainda considerados tabus para os pais, ela ressalta que dá para tirar aspectos positivos do aplicativo. Claro que isso não exclui a responsabilidade dos familiares e até dentro da escola para dialogar abertamente sobre o tema. 

É possível que as escolas criem projetos usando o tiktok para melhorar a oratória, por exemplo, mas também para trabalhos que tratem temas como gravidez na adolescência e uso de preservativosdiz

E mesmo quando não há apoio dos pais para trazer à tona temas importantes, ela ressalta que a escola precisa dar suporte e estar muito atenta a pontos básicos para não deixar a criança e o adolescente sozinhos. “O papel da escola é fundamental, além de políticas que caminham para isso.”

Isabel Tatit, psicóloga e doutora em psicologia clínica pela USP (Universidade de São Paulo), afirma que as redes sociais têm, de fato, muitas vantagens, permitindo que a informação chegue de maneira democrática até os pequenos. Porém, é fundamental não terceirizar determinados temas para a internet. "Os pais e família são responsáveis por serem um filtro da criança. O Tik Tok trouxe assuntos de sexualidade muito importantes”, pondera.

A especialista destaca ainda que falar de educação sexual não se limita somente ao ato sexual, e sim, questões como gênero, afeto e conhecimento do próprio corpo. “São questões essenciais”, opina.

Ela ainda acrescenta que falar sobre educação sexual ainda ajuda no combate aos abusos sexuais na infância e em outras fases da vida. Outro ponto importante a ser notado pelos pais são os elementos trazidos pelos filhos , já que na internet tudo é gerado de forma rápida e quase sempre sem a possibilidade de um aprofundamento 

“As redes entregam um monte de coisa e vai muito além do que a criança dá conta. Esse é o risco. Uma passividade”alerta a especialista da USP

Existe uma idade certa para isso?

Quando falar de sexo com o meu filho? (Foto: Getty Images)
Quando falar de sexo com o meu filho? (Foto: Getty Images)

Diante da enxurrada de informações na internet e dia a dia, é muito comum que as crianças façam perguntas relacionadas à sexualidade e outros temas que podem, a princípio, causar estranheza nos pais ou responsáveis. Mas, segundo as especialistas, é importante falar abertamente sobre essas temáticas e nunca negar informação aos filhos.

Ethiénne reforça que não há idade ou hora certa para tal e os pais devem se atentar aos pequenos sinais. Quando a família tem princípios morais muito fortes, isso também pode ser observado dentro da escola por meio de trabalhos educativos e que podem trazer informações importantes aos pequenos. Desta forma, evitará abusos sexuais ou outros atos que a criança não esteja de acordo.

É muito importante desde cedo falar as partes do corpo para o filho e mostrar que ninguém pode tocá-lo sem o consentimento dele. “Precisamos falar mais ativamente os nomes da parte do corpo da criança. É importante dizer que o corpo é íntimo”, ressalta Tatit.

Ela ainda destaca que pais devem ir no ritmo das perguntas das crianças. Já na adolescência, começar com instruções, tentar uma conversa aberta e ativa. “O pai pode perguntar para o filho se ele quer conversar sobre camisinha. Falar ‘quer conversar sobre isso’”, diz.

Por último, a especialista ainda reforça que é fundamental as instituições discutirem temas como esse já que é um problema de saúde pública. “Não dá só para as famílias serem responsáveis por isso. É importante ter coletivos que não sejam só os pais. Falar de educação sexual é falar de gênero. E isso inclui falar de transsexuais, bissexualidade e tudo que está no mundo atual”, conclui.

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