Quais as vantagens de envelhecer e não falamos?

Viver mais (Foto: Getty Image)

Por Cristiane Capuchinho

A OMS (Organização Mundial de Saúde) estima que em 2050, pelo menos 20% da população mundial terá mais de 60 anos, ou seja, os idosos serão 2 bilhões em todo o mundo. O envelhecimento da população tem aumentado o número de estudos e matérias jornalísticas sobre Alzheimer, demência, osteoporose ou doenças crônicas como diabetes e hipertensão.

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As questões de saúde são importantes, mas pouco se fala sobre as coisas boas do envelhecimento. Para a geriatra norte-americana Louise Aronson, pesquisadora da Universidade da Califórnia, essa maneira de olhar para a terceira idade é como se, ao contar histórias sobre a adolescências, falássemos apenas das espinhas.

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Estudos científicos apontam que os idosos têm índices mais altos de felicidade, melhor performance na hora de resolver conflitos de maneira criativa e relatam engajamento social mais forte com pessoas próximas.

O psicólogo Alan D. Castel considera que a expectativa sobre a velhice costuma ser muito pior do que realmente acontece. O norte-americano diz que as sociedades estão acostumadas a pensar a terceira idade a partir das doenças, do mau humor e das dores, no entanto, quando passam dos 60 anos, as pessoas contam ser mais felizes, ter relações interessantes com pessoas próximas e muito bom humor.

“Certamente envelhecer nos coloca desafios. Mas, a vida pode ser muito satisfatória, especialmente quando refletimos sobre nossas vidas, o que fizemos e nossas relações familiares”, comenta Castel, autor do livro ‘Better With Age’ (Melhor com a idade: a psicologia do bom envelhecimento, em tradução livre). “Podemos até nos esquecermos de mais coisas, mas também somos mais capazes de nos adaptar às coisas da vida e de nos concentrar no que é mais importante”, indica o professor da Universidade da Califórnia.

Mais sábios e mais felizes

Um estudo feito por pesquisadores da Universidade de Michigan mostra que os idosos são melhores que os mais jovens em resolver conflitos sociais.

Testes feitos com mais de 200 participantes que tinham de dar conselhos para a resolução de problemas entre pessoas apontaram que os mais velhos eram mais eficientes em elencar diferentes hipóteses de resolução da questão, em perceber seus limites de informação e reconhecer diferenças entre grupos e indivíduos.

No livro 'Happiness Curve' ('A curva da felicidade', em tradução livre), Jonathan Rauch reúne pesquisas para explicar porque nosso índice de satisfação com a vida faz uma curva em 'U' ao longo da vida: ela cai por volta dos 20 anos, chega ao seu ponto mais baixo aos 40, e melhora a partir dos 50 anos.

Ao investigar sobre o assunto, o autor chega à conclusão que o que muda ao longo da vida não são as condições reais, mas a forma como lidamos com essas condições. Quando jovens, temos grandes ambições e não nos satisfazemos com o que conseguimos, sempre há mais para se fazer, nunca as coisas são tão boas como poderiam ser em uma expectativa imaginada. Conforme envelhecemos, nossos valores mudam. “Você houve pessoas dizendo ‘não preciso mais preencher tantos requisitos’ ou ‘não me importo tanto com o que as pessoas pensam’”, disse Rauch ao jornal ‘Guardian'.

Um novo ciclo

Rosa Yuka Sato, coordenadora do curso de gerontologia da USP (Universidade de São Paulo), sublinha a capacidade de conhecer exatamente seus interesses e o tempo livre como uma das grandes vantagens desse período da vida.

“Essa pessoa consegue dedicar o tempo mais livre para fazer para as coisas de que ele gosta, uma caminhada pela manhã, encontrar com os amigos, um hobby ou dedicar-se à família sem a mesma responsabilidade que era ter cuidar dos filhos”, indica.

É claro, o envelhecimento também traz consigo enfraquecimento do corpo ao longo do tempo, e por isso é importante o cuidado com a saúde. Mas nunca é muito relembrar que não existe uma saúde típica de idoso. Há pessoas com 80 anos com as mesmas capacidades mentais de jovens, e pessoas que passaram dos 70 anos e mantêm as suas atividades cotidianas.

“Falamos hoje em envelhescência, para justamente ter esse olhar de outro ciclo de vida de quando você se torna idoso. Muitas vezes as pessoas têm uma percepção errada do que seja velhice, acham que é esperar morrer. Se você pensar bem, ao chegar aos 65, você ainda tem 20, 30 anos para viver pela frente, que devem ser planejados”, destaca a pesquisadora da USP.

Sobre preconceito e autossabotagem

O preconceito contra a idade, nomeado pela expressão em inglês “ageism”, é ainda mais cruel quando as pessoas têm a sorte de viver o suficiente para ficar velhas e, assim, serem alvos da própria discriminação.

O olhar de que quem passou dos 60 perdeu a capacidade de certas coisas ou não tem mais vivacidade para outras reduz as possibilidades cotidianas e pode causar isolamento. “Muitos têm uma resistência para novas atividades ou novas rotinas. Dizem que aquilo não é para ela, que é coisa de ‘velho’ ou acham que não vai fazer diferença, e não fazem nada pela própria saúde”, critica a pesquisadora da USP.

Assim como a imagem negativa do que é a velhice atrapalha uma vida ativa, enfatizar os lados positivos da idade melhora também suas atividades.

Um estudo feito na Universidade de Yale mostrou que um trabalho de conscientização sobre os aspectos positivos da velhice ao longo de três semanas com cem idosos mudou a percepção deles sobre si mesmos e teve resultado de melhora em suas funções físicas.

Não é por menos que a OMS indica que ter uma visão positiva sobre a velhice aumenta a expectativa de vida em 7,5 anos.

Para quem está chegando aos 60, o conselho da professora Sato é o de se empoderar de sua própria vida. “A primeira coisa é ter a consciência que o envelhecimento saudável só é possível se você agir. Não é só ficar em casa, não é só esperar. Existe sim uma forma de amenizar as consequências do envelhecimento, tem que fazer atividade física, comer bem, manter vínculos sociais, conversar com pessoas diferentes. É preciso uma postura ativa para ter uma boa saúde.”

E a hora de começar é sempre agora.