Quadrinhos retratam drogas, amor e sexo na juventude em chave psicodélica e colorida

IVAN FINOTTI

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Dois dos quadrinhos brasileiros mais importantes dos últimos dez anos, que existiam só em formato independente, chegam agora às livrarias em novas edições que compilam as obras originais em volumes caprichados.

São "O Beijo Adolescente - Volume 1", do paulista Rafael Coutinho, e "Mondo Urbano - 10 Anos", do trio gaúcho Mateus Santolouco, Eduardo Medeiros e Rafael Albuquerque. Cada uma a seu modo, com estilos bem diferentes, as duas HQs tratam do universo adolescente, com seus poderes e fragilidades, desejos e consumo, amores, sexo, drogas e rock'n'roll.

A história de Coutinho (coautor de "Cachalote", de 2010, e que agora assina texto e arte) é um épico lisérgico de 104 páginas sobre garotos e garotas que acreditam ter poderes que os diferenciam dos adultos. E, por acreditarem, eles têm. Só que os perdem ao completar 18 anos. Uma sociedade de 

alto consumo, com marcas, games, música e esportes, serve de pano de fundo.

A trama se passa numa São Paulo futurística, mas nem tanto, com alguns avanços tecnológicos e muita comunicação digital. Gangues adolescentes disputam os territórios da cidade, e todos fazem parte do Beijo Adolescente, uma espécie de clube ou seita --cada um só pode entrar para o time depois de dar o seu primeiro beijo.

"É um grande experimento narrativo, uma brincadeira deliciosa", diz Coutinho, que compilou para esse volume três livros lançados no início da década, dois deles com a ajuda do financiamento coletivo da plataforma Catarse. Agora, ele se debruça sobre os dois próximos livros, a serem publicados a partir do ano que vem pela editora Todavia.

Coutinho conta que a história já está pronta e que agora está fazendo ajustes do roteiro para começar a desenhar. O projeto nasceu há uns dez anos, quando páginas de "O Beijo Adolescente" começaram a ser publicadas no portal iG, e depois por sua editora, a Narval.

A garotada que faz parte do Beijo Adolescente aparece sempre colorida no álbum, enquanto os pais, que não conseguem entender nada do que se passa, são mostrados só em preto e branco. O ritmo não facilita para o leitor, uma vez que cada página pode conter uma história que vai ser retomada muitas folhas adiante.

"Mesmo sabendo que pode ficar confuso, me agrada trazer uma novidade em  cada página", diz Coutinho. As novidades incluem o desenho do nome "O Beijo Adolescente", que aparece nas mais variadas formas no alto de cada página.

A ideia dessa aventura juvenil foi mostrar o poder e a fragilidade da adolescência. "É uma época em que nos sentimos capazes de mudar o mundo e vivemos essa era de consumo frenético. Então, como seria esse adolescente 'empoderado'? E quais seriam os poderes dele? Levando em conta que o mercado é o meio no qual circulamos, comecei a criar um jogo de metáforas", diz o quadrinista.

"A brincadeira é que eles sentem que o poder é real, e para o leitor também parece real, mas mantenho no mundo da metáfora, pois a possibilidade de tudo não passar de uma farsa se mantém."

A história em quadrinhos "O Beijo Adolescente" acaba de ser escolhida como uma das mais importantes do país pelo "Catálogo HQ Brasil", publicação portuguesa que apresenta trechos de diversas obras.

Algumas páginas do livro de Coutinho vão fazer parte da nova edição do almanaque, que sai neste ano na Europa.

Boa parte da saga que Coutinho percorreu para publicar seu livro no início da década tem paralelo com a dos gaúchos Mateus Santolouco, Eduardo Medeiros e Rafael Albuquerque. "Mondo Urbano" foi lançada de forma independente na virada de 2008 para 2009.

Eram quatro partes, depois compiladas num volume que saiu no Brasil e nos Estados Unidos. A edição de dez anos, lançada agora pela editora Mino, foi atualizada e revista. "Foram ajustes de contexto, algumas palavras que estavam no nosso vocabulário da época e que hoje poderiam soar machistas, por exemplo", conta Albuquerque. "E também tinha muito regionalismo", diz Santolouco.

"Mondo Urbano" causou impacto na época por ser de quadrinistas fora do eixo tradicional e também por seu curioso roteiro circular. 

Personagens que parecem estar só de passagem num quadrinho de repente se tornam protagonistas de sua própria história, fazendo o tempo ir e voltar, como se tudo acontecesse em paralelo.

Outra novidade foi que os três autores, que escreveram o roteiro juntos, foram se revezando na hora de desenhar. E, em muitas páginas, dividiam o mesmo quadrinho, cada um desenhando um personagem, com seus estilos bem diferentes. O desenho de Medeiros, por exemplo, lembra o cartum, enquanto o de Albuquerque é mais realista.

A história é a de um roqueiro que vendeu sua alma ao Diabo, um guitarrista que lembra Kurt Cobain ou Robert Plant. "Na verdade, quando eu desenho ele parece o Kurt", diz Albuquerque. "E o Robert Plant quando sou eu", emenda Santolouco.

A edição traz ainda alguns estudos de personagens e uma entrevista com os três. Eles trabalham agora em dois novos volumes com o mesmo universo. Estão finalizando os roteiros para entrar na fase dos desenhos.

De lá para cá, muita água rolou, e eles, que já trabalhavam profissionalmente, hoje trazem no currículo grandes gibis americanos, inclusive dos gigantes DC e Marvel. Albuquerque já desenhou o Batman, Santolouco é há anos o titular das Tartarugas Ninjas e Medeiros assinou títulos como "Marvel Strange Tales" e "Gotham Academy".

O BEIJO ADOLESCENTE AUTOR

Preço R$ 84,90 (104 págs.) e R$ 39,90 (ebook)

Autor Rafael Coutinho

Editora Todavia

MONDO URBANO

Preço R$ 64,90 (136 págs)

Autor Mateus Santolouco, Eduardo Medeiros e Rafael Albuquerque

Editora Mino