Qatar quer firmar soft power com obras faraônicas e investimento pesado em arte

DOHA, QATAR (FOLHAPRESS) - Os automóveis não têm a mesma sorte que os camelos. A chegada ao ponto certo na imensidão do deserto é pedregosa. A estrada desaparece, e as rodas dos quatro por quatro levantam uma nuvem densa de pó branco no atrito com as rochas, que surgem do nada e desaparecem no horizonte da mesma cor. Demora e turva um tanto a visão, mas o assombro não falha.

Quando a poeira baixa, longe dos arranha-céus cintilantes de Doha, a capital do Qatar, aparecem os monólitos de aço do artista americano Richard Serra, colossos impávidos alinhados um atrás do outro ao longo de um quilômetro no meio do nada, como se fincados na terra por alienígenas e esquecidos no calor que faz tudo tremelicar diante dos olhos.

Nossa caravana de potentes SUVs parece uma fila de carrinhos de brinquedo perto dos paredões metálicos. Num dia sem nuvens, que é quase sempre, é possível avistar ao longe os únicos indícios de civilização -uma linha de energia distante que parece um fio de náilon a cortar o céu de um lado e, do outro, as chaminés das plataformas de petróleo cuspindo fogo, como tochas de fortalezas esqueléticas espetadas no mar azulzíssimo do golfo Pérsico.

O Qatar, um dos países mais ricos do planeta movido à exploração do chamado ouro negro e que recebe agora talvez a mais insólita edição da Copa do Mundo, é um território minúsculo na península Arábica. Tem a forma de um ferrão ou ponta de anzol cravado no mar. Leva uma hora para atravessar o país de ponta a ponta, e a capital, cidade que concentra quase toda a população, é um conjunto de exageros arquitetônicos de gosto duvidoso -muito brilho e neon rodeados de desertos inóspitos e belas praias.

O espetáculo está na ordem do dia desde que o tsunami de petrodólares fez dessa antiga colônia de pescadores de pérolas uma potência no tabuleiro geopolítico global. É como se, para compensar o tamanho diminuto no mapa, a escala de grandeza para todo o resto fosse outra. Tudo é mais, tudo é maior, tudo é over.

Essa impressão está mais do que traduzida no skyline estrambótico de Doha, onde os mais badalados arquitetos do mundo ergueram torres em formatos fálicos, algumas coroadas com discos voadores que piscam, além de um funil gigante, um pepino incandescente e, na ponta da baía, uma pirâmide branca, o velho hotel Sheraton desenhado pelo pós-modernista americano William Pereira, que detonou a onda de arquitetura-ostentação nessa cidade.

Uma vez construído o paredão luminoso que dá ares de Las Vegas às noites de Doha, no entanto, o governo dos xeques decidiu dar o próximo passo mais lógico na consolidação de seu soft power -mostrar que o país é também uma potência cultural.

Nada grita mais civilização no ouvido dos grandes players do Ocidente que museus de primeira linha. Mesmo que hoje ofuscado pelos vizinhos Emirados Árabes Unidos, que levaram a Abu Dhabi uma filial do Louvre e obras-primas estarrecedoras, o Qatar liderou a onda dos templos para a arte quando abriu lá atrás, há 14 anos, o Museu de Arte Islâmica.

Uma pilha de caixotes resplandecentes à beira do mar, o desenho do chinês I.M. Pei, famoso por construir a pirâmide de vidro que virou a marca do Louvre original, em Paris, foi a âncora inicial no Oriente Médio de um museu de escala internacional.

Tem uma coleção de arte tão imponente quanto sua fachada, com vista privilegiada para a baía de Doha. No acervo, há desde raros exemplares de vidraria síria, a mais fina seda indiana, manuscritos do Alcorão que fundamentaram a caligrafia do árabe, tapetes persas, facões, espadas e adagas -o tesouro e as glórias de uma grande civilização que se estendeu, em certo momento na história, da Espanha até a China.

Na sequência, veio o Museu Nacional do Qatar. O francês Jean Nouvel ergueu num terreno vizinho uma espécie de castelo de cartas, de peças que se encaixam em ângulos inusitados em desafio da gravidade, para abrigar uma série de galerias que contam uma história edulcorada do Qatar.

É a reencarnação do realismo socialista empacotado como butique num prédio talhado para ludibriar qualquer visitante, pouco importando o que mostra de fato, embora a seleção de pérolas, primeira fonte de riqueza do país, seja mesmo de deixar qualquer um boquiaberto.

O formato do prédio, uma geometria às avessas, acidental, foi inspirado nas chamadas rosas do deserto, formações minerais encontradas na aridez do Qatar e do norte da África que indicam, com suas pétalas arestosas, a parca presença de água.

Flores à parte, estão a caminho outras obras menos singelas. Rem Koolhaas, o famoso vencedor do Pritzker à frente do escritório holandês OMA, vai transformar um antigo -se bem que nada no Qatar é lá tão antigo- centro de convenções no mais novo museu do automóvel da região, futuro lar da Ferrari mais cara da história, coisa de US$ 70 milhões.

Num desvio da ordem de grandeza e da cartilha dos pavões, o chileno Alejandro Aravena, também agraciado com o Pritzer, agora trabalha na transformação de um velho moinho de farinha em museu de arte moderna e contemporânea. O mundo da arte espera ansioso para ver se é ali que os xeques vão mostrar o acervo rico em Warhol, Rothko e outras estrelas que vêm comprando com agressividade em leilões pelo mundo. "Jogadores de Cartas", de Cézanne, tela arrematada pelo Qatar por US$ 250 milhões também deve adornar os silos de grãos transformados em galeria.

É a primeira vez na história da jovem potência que uma estrutura já existente é reaproveitada para se tornar um museu de arte, a exemplo do que lugares como a França com o Museu d'Orsay e o Reino Unido com a Tate Modern já fazem há tempos.

Os mesmos arquitetos, aliás, que trabalharam na conversão da Tate de usina de energia para museu de arte moderna, os suíços da dupla Herzog & De Meuron, também estão com a mão na massa no Qatar. As obras de um museu dedicado à chamada arte orientalista, dos mais ambiciosos a tomar forma em Doha, já estão a todo vapor, pegando carona na onda de especulação imobiliária detonada pela Copa -um dos estádios, aliás, é de outra Pritzker, Zaha Hadid, mas seu formato que lembra uma enorme vagina não agradou e o nome dela foi riscado dos anúncios.

Mais palatável ao gosto local, o museu dos suíços será uma enorme estrutura circular de concreto com aberturas em elipse no teto. A ideia é iluminar com rajadas de luz galerias que destrincham o significado de ser árabe num contexto globalizado. O acervo, outro que vem sendo construído há décadas, mobiliza nesse sentido desde as fantasias de Eugène Delacroix em seu olhar sobre o Marrocos do século 19 até delírios hollywoodianos como "Casablanca" e "Cleópatra". Da cobertura do museu vão brotar cúpulas e minaretes, um aceno à arquitetura das mesquitas.

Há, no entanto, um esforço maior de atrair o olhar de quem não se interessa muito por museus, e a arte contemporânea em espaços públicos do país, da orla de Doha aos desertos mais distantes, se tornou uma arma nesse arsenal, parte das tentativas de lucrar com a invasão de fãs de futebol que podem encontrar no Qatar algo mais que os jogos do campeonato mundial. E não é qualquer arte contemporânea. Ela deve ser cara, estonteante, monumental, nada menos que acachapante, dirá o briefing, ou não será nada.

Richard Serra, o homem das chapas de aço plantadas no deserto, foi pioneiro nessa onda. Depois veio o britânico Damien Hirst, aquele dos tubarões e vacas dilacerados flutuando em tanques de formol, que fez esculturas gigantes de bronze representando o passo a passo do desenvolvimento de um bebê no útero da mãe, de um óvulo à criança formada, em frente a um hospital. Sua crônica de uma gravidez se materializa como um espalhafatoso carro alegórico numa sucessão de peças de quatro andares de altura.

Na principal praia de Doha agora acaba de ser inaugurada outra escultura, esta de plástico inflável e reluzente, do americano Jeff Koons. O trabalho do tamanho de um prédio de dez andares representa um estranho mamífero marinho nativo das águas do golfo Pérsico equilibrado sobre um esguicho d'água. Suas cores vistas na luz do sol inclemente do Oriente Médio vão de um verde escuro como o petróleo a um fúcsia berrante com toques azulados.

Muito perto dali, a alemã Isa Genzken assina uma orquídea gigantesca feita de metal que adorna a entrada do teatro mais importante da cidade. O francês César, já morto, é o autor de um enorme dedão dourado que brota do chão do bazar, o mercado popular com ares retrô de Doha.

Serra, Hirst, Koons, Genzken e César não são artistas quaisquer. Lideram recordes em leilões de arte mundo afora e são grifes reconhecidas pelo jet-set. Estão à vontade no MoMA, na Tate, no Guggenheim e, agora, na metrópole emergente e nas areias do deserto do Qatar. Até mesmo o enorme galo violeta que a alemã Katharina Fritsch fez para a praça Trafalgar, em Londres, foi transportado e agora parece ciscar diante da mesa de frutos do mar do restaurante de um hotel cinco estrelas. A ideia de que todos têm um preço se manifesta sem cerimônia em Doha e seus arredores.

Na esteira desse acervo público já existente, novos trabalhos vêm surgindo no horizonte, um espetáculo paralelo à bola rolando nos estádios.

O brasileiro Ernesto Neto, famoso por suas obras monumentais montadas pelo mundo todo, parece ter traduzido em parte o zeitgeist do torneio na obra que acaba de construir em outro deserto, como se um terreno só não bastasse para tamanha constelação de artistas.

Sua mais nova instalação lembra as traves do gol num campo de futebol. A balançar a rede, no entanto, está não uma bola mas um globo terrestre fissurado, com ervas daninhas vazando pelas frestas onde ficam os trópicos. Neto parece tocar numa ferida, a destruição ambiental, que um país refém da exploração de petróleo e do consumo de ar-condicionado, sem contar os escândalos de violação de direitos humanos na fúria construtiva, talvez não tenha vontade de debater com muito afinco.

Os chefes da organização estatal de museus, todos da família real, exercem o controle estético da nação, torcendo talvez para que o potencial lúdico das próprias obras-monumento que encomendam ofusque qualquer camada de crítica. Nesse sentido, os artistas escalados para esse Cirque du Soleil árabe afogam nos orçamentos infinitos a contundência de seus trabalhos, parando na superfície do show para não causar saias justas.

Neto conta, aliás, que notou como os insetos e as plantas do deserto onde fez sua obra têm espinhos que servem de proteção e também para armazenar água, uma casca grossa que o tempo inóspito da região exige.

Outro estreante nas areias do deserto, o dinamarquês Olafur Eliasson também partiu da ideia dos riscos de desbravar um território agreste.

Vista de longe, sua instalação gigantesca é uma sucessão de aros e plataformas metálicas equilibradas no horizonte, uma espécie de abrigo improvisado, como um acampamento de beduínos, só que repaginado por um minimalista. O vocabulário é todo de vidro e metal. Suas estruturas oferecem sombra, um alívio do sol faiscante, mas são dotadas de espelhos na parte inferior, refletindo aquele que se refugia ali, obrigado a se ver do alto pisando no que o artista chama de uma terra em colapso.

Eliasson já criou cachoeiras artificiais no rio East, em Nova York. Foi esse trabalho que chamou a atenção de Al-Mayassa Al Thani, irmã do emir do Qatar, com US$ 1 bilhão no bolso para comprar arte todos os anos, e rendeu a encomenda do novo trabalho.

O artista, que conhece bem o Ártico e se diz acostumado com o limite do habitável, gostou de saber que os camelos cochilam na sombra de sua obra. Ele diz que parece uma cena do filme "Duna" -como todo o Qatar.