Prostitutas sobem ao palco do Municipal em ópera de Piazzolla sobre vida delas

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Sentada nos degraus que levam ao palco do Theatro Municipal de São Paulo, uma mulher se dirige à plateia. "Eu sou Betânia Santos, tenho 48 anos, sou prostituta, mulher, mãe, ativista, educadora", ela afirma.

Sua fala antecede "Yo Soy María", ária na qual será apresentada a protagonista de "María de Buenos Aires", ópera de Astor Piazzolla que estreia nesta sexta-feira (10) e abre a programação dos 110 anos do Municipal.

Chamada de "operita" pelo argentino, a obra que agora ganha montagem dirigida por Kiko Goifman marca a volta da temporada lírica do espaço, interrompida por quase dois anos. O diretor a define como uma cine-ópera.

"Eu estava em casa, na pandemia, cozinhando uma mandioca, e recebo uma chamada da Andrea [Caruso, diretora artística do teatro]. Você recebe um convite do Theatro Municipal para fazer uma ópera e vai dizer não? Topei, mas avisei que nunca tinha feito isso", diz Goifman, que dirigiu com Claudia Priscilla o premiado "Bixa Travesty", documentário sobre a artista transexual Linn da Quebrada.

Demorou para cair a ficha, ele conta. "Foram uns 20 dias até eu entender ser uma ópera que trata principalmente da marginalidade, das esquinas e ruas da cidade. A María de Buenos Aires é uma prostituta. Esses temas tabus têm tudo a ver com meu trabalho."

Foi Priscilla quem sugeriu incluir na montagem a Daspu, grife criada por Gabriela Leite para dar visibilidade e fortalecer os direitos das prostitutas. Uma coisa é pensar, outra, trazer para o palco centenário, mas a proposta foi bem recebida pela direção do teatro.

"Depois do que aconteceu com o Emicida aqui no Municipal, a gente não pode deixar a bola cair. É importantíssimo tomar esse espaço. A obra tem uma série de compromissos estéticos, mas não dá para ignorar sua dimensão política —é de um artista da América Latina, fala desse sentimento marginal, da prostituição", diz, lembrando o show do rapper Emicida no Theatro Municipal, em 2019.

O Espaço Daspu —duas cadeiras, uma mesa, um abajur e uma tela de pelúcia— fica numa lateral do palco, onde quatro participantes do coletivo se revezam em performances.

"A gente já ocupou outros espaços, como o Masp e o Paço das Artes, mas é a primeira vez que pisamos no palco do Municipal. Puta é uma palavra censurada, né? Achei genial o convite do Kiko, a ousadia de afirmar isso no Brasil é algo grandioso", diz Elaine Bortolanza, que trabalha na direção e produção da grife.

No Municipal, ela atua com Dannyele Cavalcante, Lua Negra e Betânia. "Todas já têm história com a Daspu. E muito da história da María é a de nossa luta", afirma Elaine.

A colombiana Catalina Cuervo, solista da montagem, já foi María de Buenos Aires mais de 50 vezes em óperas ao redor do mundo, mas diz ser a primeira vez que trabalha ao lado de prostitutas.

Betânia, a da cena inicial nos degraus do palco, veio do Maranhão em 1998 para exercer trabalho sexual em São Paulo. "Não tenho a menor vergonha em dizer que sou puta. Essa é minha profissão. Para a Daspu, também sou modelo e, agora, para o teatro, sou atriz", diz. Estrear no Municipal é algo muito forte para Betânia, mas ela afirma não se deslumbrar. Nem vê dificuldade em seu papel na ópera. "O trabalho nos desfiles da Daspu é jogar o corpão, e é isso que vamos fazer aqui, interpretação corporal."

Goifman trabalha com outras camadas da ópera e seu caráter político. Ele descobriu, por exemplo, que a palavra tango tem sua origem num instrumento africano.

O diretor quis, então, ter bailarinos negros do Balé da Cidade em cena. Também escalou artistas circenses em pernas de pau na ária dos psicanalistas, ironia de Astor Piazzolla sobre a influência da psicanálise entre os argentinos.

Goifman comemora ainda o fato de o bandoneón, instrumento-chave no tango e na obra de Piazzolla, normalmente tocado por homens, ser executado pela argentina Milagros Caliva. "Trabalhar o máximo possível com mulheres é uma das questões que sempre coloco", ele afirma.

Tudo atravessado pelo cinema. Numa tela gigante no fundo do palco e na de pelúcia do Espaço Daspu, são projetadas imagens de Buenos Aires e São Paulo, recentes e de arquivo, e as da própria ópera, captadas em cena. Goifman fica o tempo todo num canto do palco, editando ao vivo.

O cinema-vivo é uma das linguagens que Andrea Caruso, a diretora artística do teatro, quer trazer à programação. Quando ficou decidida a montagem de "María de Buenos Aires", sugestão e desejo antigo de Roberto Minczuk, maestro da Orquestra Sinfônica Municipal, pensou em Goifman. Por causa do cinema e por ser um nome que fugiria dos clichês de uma montagem convencional.

As escolhas refletem ideias da atual gestora do teatro, a Sustenidos, para a programação. "Vai ter ópera, concertos, obras de repertório, mas também vamos trazer artistas periféricos, negros, indígenas, prostitutas. Nesta cidade, no atual momento político, não podemos ficar encastelados. Hoje o teatro tem uma população de rua amalgamada ao prédio, não podemos fingir que isso não existe", diz Caruso.

Além de enfrentar essas questões, a nova gestão tem de lidar com o legado de polêmicas envolvendo o Theatro Municipal nos últimos anos.

"Por muito tempo, o teatro apareceu mais em reportagens sobre escândalos do que em matérias de cultura. Isso fragilizou sua estrutura e afasta os patrocinadores. O desafio é reestruturar a casa, comunicar com transparência o que estamos fazendo e conseguir apoiadores, captar recursos para pôr o Municipal no lugar que ele merece", diz. Tem de mover muita coisa para fazer isso num equipamento que é muito visado, onde sempre há muitas disputas."

MARÍA DE BUENOS AIRES

Quando Qua., qui. e sex., às 19h. Sáb. e dom., às 17h. Até 19/9

Onde Theatro Municipal de São Paulo - pça. Ramos de Azevedo, s/nº, República

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