Alvo de revolta, Bolsonaro muda o tom para mostrar que é capaz de sentir

Jair Bolsonaro durante pronunciamento. Foto: Reprodução/TV Brasil

O que era uma “gripezinha” virou “o maior desafio da nossa geração”.

E o que era deboche, de repente, virou “preocupação”.

Em seu novo pronunciamento em cadeia nacional, nesta terça-feira (31), Jair Bolsonaro trocou as provocações, críticas e xingamentos a inimigos, reais ou imaginários, por um ensaio de moderação.

A mudança de postura é uma tentativa de desfazer a imagem que colou já nos primeiros dias da pandemia: a de um presidente alienado, incapaz de perceber a gravidade da situação, com déficit de empatia e respeito pela dor alheia — uma imagem que atingiu o ápice após pedir que os compatriotas enfrentassem a crise como homens, já que todo mundo iria morrer um dia.

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A aposta na radicalização já custava a desobediência, em forma de cordão sanitário, de alguns dos pilares de seu governo, como Sergio Moro (Justiça), Paulo Guedes (Economia) e, agora mais do que nunca, Luiz Henrique Mandetta (Saúde).

Detalhe: o nome do ministro, que durante a crise cansou de pedir à população fazer o oposto do que pregava o presidente, não foi sequer citado no pronunciamento. 

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No rascunho de sua nova versão, apresentada sob novo panelaço pelas cidades, Bolsonaro disse que sua preocupação “sempre foi salvar vidas”, tanto as que serão perdidas na pandemia, quanto pelas que serão atingidas pelo “desemprego, violência e fome”.

Foi uma tentativa de se desvencilhar das medidas dos governadores, que recomendam isolamento total para achatar a curva de contaminação, e que Bolsonaro já chamou de exageradas.

“Me coloco no lugar das pessoas e entendo suas angústias”, precisou dizer o presidente.

A nova versão de Bolsonaro não impediu velhos deslizes.

Ele voltou a usar equivocadamente uma fala do diretor da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom, segundo a qual os trabalhadores informais deveriam voltar ao trabalho. 

A fala, na verdade, era uma cobrança para que os governos garantissem assistência a quem precisa ficar em casa. Bolsonaro preferiu omitir esta parte.

Durante parte do pronunciamento, ele citou medidas como o auxílio de R$ 600 aos informais, o adiamento do pagamento da dívida dos estados e municípios e do reajuste dos preços de medicamentos, as novas linhas de crédito e a entrada de 1,2 milhão de pessoas no Bolsa Família.

Numa tentativa de reforçar a imagem de um presidente capaz de sentir, ele disse que entende a dor de quem perdeu seus entes e admitiu não haver vacina nem remédio com efeito cientificamente comprovado no tratamento do coronavírus -- nem parecia o mesmo presidente que há poucos dias levou ao ar um pronunciamento, gravado pelos filhos, celebrando a proximidade da cura pela cloroquina.

O pronunciamento acontece no mesmo dia em que a consultoria Curado e Associados divulgou uma nova análise da imagem do presidente na crise. Segundo o estudo, há hoje dois governos em disputa: com base nos últimos sete dias (entre 24 e 30 de março), o iVGR – índice Valor, Gestão e Relacionamento – mostra que o governo liderado pelo ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, tem percepção de “prudente” e “potencial positivo” de imagem, com índice +0,15, enquanto Jair Bolsonaro aparece, pelo mesmo parâmetro, com o índice -4,38 – considerado um nível de crise de imagem, com necessidade de intervenção de terceiros. Foi, ao que tudo indica, aconteceu. A escala vai de +5 a -5. Ou seja: no quesito imagem, Bolsonaro praticamente gabaritou negativamente a lista do que não fazer.

Nos instantes finais da fala, muitos seguraram a respiração, com medo de que o presidente usasse o espaço para celebrar o golpe de 64. A data, porém, passou em branco. Ao menos dessa vez.