Promessa de Jade Picon de doar prêmio do "BBB" resume o mito do branco salvador

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Jade Picon no
Jade Picon no "BBB22" (Reprodução Globoplay)

Jade Picon voltou a causar polêmica no "BBB22" na hora de pedir ao público para não eliminá-la no paredão com Arthur Aguiar e Jessi. A sister usou como trunfo em seu discurso o fato de que pretende doar o prêmio de R$1,5 milhão para instituições de caridade caso vença o reality. Nas redes sociais, o público se revoltou com a estratégia da sister, e Arthur e outros brothers também não gostaram do discurso "apelativo" da sister para ganhar o apoio do público.

Jade Picon já entrou no "BBB22" milionária. A sister é filha de Carlos Picon, empresário do ramo de mármores e granitos, e é rica de berço. Quando adolescente, começou a carreira de influenciadora digital, mostrando ao público suas viagens pelo mundo, amizades famosas e cotidiano luxuoso. A audiência, já sabendo do berço de ouro da herdeira, não perdoou quando ela foi anunciada no elenco do "BBB22": todos os memes das primeiras semanas de reality giravam em torno de Jade usando cosméticos populares, se vestindo com roupas mais "em conta" e aprendendo coisas banais como varrer a casa, fazer comida e lavar roupa.

Saindo do tom de humor, o discurso da sister de doar o prêmio como "moeda de troca" para sua permanência merece ser discutido por uma questão estrutural. Jade, mesmo de forma involuntária, criou uma narrativa que é apenas mais um capítulo em um longo histórico do "branco salvador" que se coloca como "herói" dos menos favorecidos, especialmente em um país racista e desigual como o Brasil.

Por quê esse discurso é nocivo?

Em seu Instagram, a escritora e ativista Joice Berth define de forma cirúrgica a síndrome do rico salvador encarnado por Jade dentro do "BBB22". Oferecendo o prêmio de R$1,5 milhão, Jade acha que isso a exime de se responsabilizar pela origem de sua riqueza de berço, já que em um sistema escravocrata e fundado pela colonização, o acúmulo de riqueza de uns veio diretamente da exploração da mão de obra de outros.

"Ela auxilia quem precisa, mas não diz o porquê ele precisa. Ou seja, ela mata a fome de quem tem fome mas não conta a quem tem fome que a fome é produto das decisões sociopolíticas históricas que formaram uma situação de exploração perversa onde 'o rico cada vez fica mais rico e o pobre cada vez fica mais pobre'”, explica a escritora, que chama atenção para o mau gosto atrelado à proposta de Jade.

"Dizer que está em um reality show para doar o prêmio, que é irrisório diante da fortuna que se tem acumulada, soa como deboche, um escárnio, mesmo que não seja intencional. O bom rico é aquele que dispõe dos seus privilégios em nome do bem-estar social e da emancipação dos historicamente explorados", completa.

De nada adianta se Jade de fato vencer o reality e puder doar o prêmio do "BBB22". Os problemas estruturais do Brasil, tanto econômicos quanto raciais, não podem ser resolvidos com tal quantia, e jamais irão desaparecer se a branquitude não assumir que suas riquezas, terras, escrituras de casas, empregos e estabilidade financeira são resultado direto da pilhagem feita por seus antepassados (e perpetuada atualmente pelo sistema prisional) contra o povo negro. O dinheiro do "BBB22" é um prêmio de consolação de mau gosto, e o fato de Jade achar que isso muda algo de fato é ainda mais preocupante.

O mito do homem "branco salvador" continua matando

No papel, a colonização e escravização do povo negro é ilegal. Na vida real, entretanto, a exploração da dor de pessoas pretas é uma indústria bilionária: mais de dois milhões de pessoas viajam por ano para a África para o chamado "voluntarismo", um tipo de turismo tido como engajado socialmente que coloca pessoa brancas e ocidentais para fazerem trabalhos de caridade assistencialista no continente africano. Os dados são da Unicef.

É essa indústria que coloca pessoas brancas para participarem de ações médicas, construções de vilas ou aquedutos, por exemplo, em iniciativas que acabam rendendo milhões para empresas de fora da África e que não se convertem em empregos ou incentivos à economia local. Em uma reportagem do jornal "The Guardian", que analisou os números reais de ONGs e empresas que possuem ações assistencialistas na África, América Latina e América Central, foi apurado que um orfanato estabelecido por empresas norte-americanas mantinham suas crianças em condições indignas, enquanto cobravam cerca de 10 mil dólares em doações para cada criança institucionalizada.

Dessas crianças, cerca de 92% delas tinham pais vivos, o que coloca em questão os motivos pelos quais elas foram separadas de suas famílias definitivamente. De acordo com um levantamento da UNICEF publicado em 2016, tais instituições dificultam propositalmente que essas crianças sejam reinseridas em suas famílias, já que a intenção é lucrar com adoções milionárias de crianças pretas por famílias brancas da Europa e dos EUA.

O roubo institucionalizado de crianças é uma prática colonial. Em 2019, o primeiro ministro da Bélgica, Charles Michel, pediu desculpas pelo sequestro de milhares de crianças em Burundi, Ruanda e Congo realizados por seu país no século passado. As crianças foram sistematicamente sequestradas e enviadas para a Bélgica para adoção. O roubo era perpetuado e apoiado pela Igreja Católica, que também se pronunciou na época pedindo perdão pela prática.

Em entrevista recente ao jornal "O Globo", Bruno Gagliasso, pai de Titi e Bless, ambos adotados no continente africano, afirmou que só recentemente começou a pensar sobre o complexo de "salvador branco" e suas implicações políticas e sociais. "Quando começaram a levantar essa questão, parei para analisar se sou essa pessoa, o 'branco salvador', se faço isso. Pelo que leio e aprendo, a discussão sobre 'branco salvador' é sobre métodos, intenções e objetivos. Meu lugar nessa discussão é de escuta e aprendizado para não reproduzir isso".

A promessa de Jade Picon

Em conversa com Tiago Abravanel e Arthur Aguiar na primeira semana de confinamento, Jade já havia dito que queria doar o prêmio caso vencesse o "BBB22". "Grande parte da minha jornada é vir participar disso aqui. Vou doar o prêmio porque sei que muitas pessoas precisam mais. O meu prêmio é me transformar, é estar aqui. E transformar também o pensamento das pessoas em relação a mim".

Para quem tem dinheiro, valores e cifras se tornam questões sem peso e importância. Só quem pode se dar ao luxo de não se importar com dinheiro é quem tem dinheiro, em uma questão paradoxal que explica bem a desigualdade social que estrutura a sociedade brasileira.

Em vez de usar seu papel privilegiado de pessoa branca, cisgênero, heterossexual e rica, Jade desvia da real questão ao querer doar o prêmio como reparação histórica. A verdadeira reparação é a destruição do esquema privilegiado que faz com que pessoas como Jade herdem dinheiro da família, enquanto pessoas pretas vivem em um mundo no qual a herança geracional é o trauma. Em um axé do fim dos anos 90, intitulado Xibom BomBom, a banda "As Meninas" resumiu muito melhor que Jade o que o Brasil realmente precisa admitir: "Analisando essa cadeia hereditária, quero me livrar dessa situação precária. Onde o rico cada vez fica mais rico. E o pobre cada vez fica mais pobre. E o motivo todo mundo já conhece: é que o de cima sobe, e o de baixo desce".

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