Programação de óperas para 2020 busca antes inovar do que apostar na estabilidade

SIDNEY MOLINA
*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 23.01.2019 - Vista externa do Theatro Municipal de São Paulo. (Foto: Danilo Verpa/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Anunciadas pelas duas principais casas paulistas —o Theatro Municipal (gerido pela Prefeitura) e o São Pedro (pelo Estado)— as temporadas de óperas 2020 mostram ainda insegurança em relação a projetos de fato voltados a seu numeroso público.

Após um ano muito fraco (que teve o melhor momento na apresentação de "Prism", de Ellen Reid), o Municipal trará uma programação mais robusta, com o retorno da série de assinaturas e a produção de 7 títulos em 6 espetáculos.

Em março estreia a grandiosa "Aida", de Verdi, com direção de Bia Lessa, e em junho uma dobradinha sobre textos de Plínio Marcos (1935-1999), "Navalha na carne" e "Homens de papel", encomendadas respectivamente aos compositores Leonardo Martinelli e Elodie Bouny (dirigidas por Zé Henrique de Paula e Fernanda Maia).

O segundo semestre trará "Don Giovanni", de Mozart (em agosto), com direção de Lívia Sabag e, em setembro, "Benjamin", de Peter Ruzicka (mais um título contemporâneo, com texto em português e direção do próprio diretor do Municipal, Hugo Possolo), sobre a fuga do filósofo Walter Benjamin (1892-1940) do regime nazista.

Encerrarão a temporada "Fidelio", de Beethoven, que não constará do caderno de assinaturas e será dirigida por Rodolfo García Vasquez fora do teatro, em local aberto, e "O morcego", de Johann Strauss, produção da Orquestra Experimental de Repertório.

Ao contrário das temporadas das principais orquestras do país —Osesp e Filarmônica de Minas Gerais à frente—, o release do Theatro não é seguido pela programação detalhada, com os dias exatos das apresentações e - algo absolutamente relevante quando se trata de ópera - a escalação completa dos elencos.

Por outro lado, nota-se uma personalidade curatorial na escolha dos temas dos enredos, na atração por questões contemporâneas e na presença de mulheres na direção cênica.

Já o Theatro São Pedro, que nos últimos anos parecia ter encontrado um equilíbrio interessante entre produções fortes de títulos do século 20, encomendas de novas obras e um olhar para obras barrocas e clássicas - proposta adequada a suas dimensões e orçamento - parece ter tido uma ruptura desnecessária.

Assim, dos 4 títulos programados para o ano, apenas 2 serão óperas no formato tradicional: "Ariadne em Naxos" (agosto), de Richard Strauss (direção de Felix Kreiger e Eiko Senda como protagonista), e "Capuletos e Montéquios" (setembro), de Bellini (direção de Antônio Araújo, com Denise de Freitas e Carla Cottini no elenco).

A temporada abrirá com o musical "West side story" (abril), de Leonard Bernstein (direção de Charles Möeller e Cláudio Botelho), e fechará com "Porgy and Bess" (novembro), de Gershwin (direção de Jorge Takla).

Como a quantidade de títulos permanece muitíssimo pequena, a presença das (excelentes) composições dos dois norte-americanos em 50% da programação principal do teatro a deixa instável e sem cara.

Nesse sentido (e para além das soluções criativas) não será ainda em 2020 que teremos uma programação de óperas com maior força quantitativa na cidade. Faltam mais variados títulos canônicos, que só valorizariam a presença das novas obras e da ampliação estilística.

Um exemplo da importância do cotidiano é a trajetória do compositor Leonardo Martinelli, de 41 anos, que está tendo a oportunidade inédita de escrever óperas para as duas casas paulistas em temporadas vizinhas ("O peru de natal", que estreou no São Pedro este ano, e "Navalha na carne", encomenda do Municipal para 2020).

Formado pelas escolas de música de São Paulo, a juventude de Martinelli coincide com a inauguração da Sala São Paulo e a maior estabilização das temporadas de concertos por aqui. Ele agora pode devolver à cidade parte da experiência musical conquistada nela mesma, em seu dia a dia.