Professores comentam Enem, relatam frustração e criticam Inep: 'Achava que era só dar de youtuber'

João de Mari
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Estudantes chegam para o segundo dia do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2020, na Universidade Estadual do Rio de Janeiro(UERJ).
Estudantes chegam para o segundo dia do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2020, na Universidade Estadual do Rio de Janeiro(UERJ).

Professores de cursinhos populares de São Paulo e Rio de Janeiro relataram sentimento de “impotência” após a aplicação das provas do Enem 2020 realizadas presencialmente nos dias 17 e 24 de janeiro e, pela primeira vez, em versão digital neste domingo (31) — o segundo dia de provas online será no dia 7. Os profissionais também criticaram a atuação do Ministério da Educação (MEC) e Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) em meio à pandemia do coronavírus.

Laerte Breno, professor do cursinho pré-vestibular UniFavela, localizado no Complexo da Maré, na zona norte do Rio de Janeiro, avalia que o governo federal precisa “olhar para outras áreas”. Para ele, “não é só a educação que vai salvar o mundo” e que o não funcionamento de itens básicos nas vidas dos estudantes tiveram peso na hora da prova.

“Estou cansado de falar e sempre focar no mesmo assunto, porque não adianta só investimento em educação, tem que olhar para outras áreas como saneamento básico, infraestrutura, segurança pública, sobretudo nas periferias. Enquanto educação for tratada como privilégio e não direito, será um problema e será cansativo”, diz. “Mas o que me move são os alunos e não posso desistir de lutar por eles”.

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O professor ainda relembra o polêmico comercial do MEC, de maio de 2020, com o slogan “o Brasil não pode parar”, dizendo era preciso "ir à luta, se reinventar, superar". No entanto, no vídeo, há quatro jovens atores pedindo para que estudem de "qualquer lugar e de diferentes formas". À época, o vídeo causou revolta nas redes sociais por não retraram a realidade do país, pois os atores estavam equipados com celulares e computadores de última geração.

“O próprio Inep tinha uma ideia equivocada do que é ser professor no Brasil. Achava que era só ligar um computador e dar uma de youtuber, que era só focar e dar entretenimento. Mas não é isso, pois atividade em sala de aula demanda uma complexidade muito grande”, afirma Laerte Breno.

Ele relata a surpresa em ter que lidar com a pandemia. “Eu não estava preparado para dar aula remotamente, não fui formado para dar aula remotamente e os alunos não tinham acesso as plataformas, não conseguiam fazer videochamadas”.

Prova conteudista

De fato, as dificuldades impostas pela pandemia, como o acesso à internet, ou a falta de equipamentos e estrutura para estudar em casa, prejudicaram muitos alunos em todo o país. A pesquisa TIC Educação 2019, de junho do ano passado, aponta que 39% dos estudantes de escolas públicas urbanas não têm computador ou tablet em casa. Nas escolas particulares, o índice é de 9%.

Análise no perfil de participantes do Enem de 2018, os mais atuais disponíveis, revela que 3 em cada 10 participantes que concluíam o ensino médio na rede pública naquele ano não tinham acesso à internet.

Maria Eugênia Gonçalez, professora de física do cursinho popular pré-vestibular Uneafro Brasil no núcleo de Bebedouro, no interiror de São Paulo, afirma que a demora da adpatação ao novo formato fez com que ela não conseguisse passar todo conteúdo desejado aos alunos.

“A gente tem notado uma cobrança maior de conteúdo e, com a pandemia, são conteúdos que não consegui dar por causa do atraso, pelo tempo de se programar ao formato à distância”, conta ela.

Para a professora, o Enem 2020 foi uma prova conteudista. Ou seja, exigia um conhecimento prévio dos alunos — o que não era uma característica da prova, segundo ela. Com isso, os alunos foram prejudicados pois a pandemia atrapalhou o cronograma dos conteúdos.

“Ao mesmo tempo que me sinto muito bem em saber que estamos contribuindo nem que seja com o mínimo para a educação de alguns, ao mesmo tempo existe um sentimento de impotência, porque a gente não tinha muito o que fazer, porque as ferramentas que a gente tinha a gente utilizou”, desabafa.

Ela faz um paralelo ao ensino de uma escola particular onde também ministra aulas. Por lá, as aulas não pararam por conta da pandemia. A Uneafro, no entanto, assim como a maioria das escolas públicas do Brasil, interrompeu as aulas em março de 2020.

“Percebo uma angustia muito grande dos alunos, principalmente porque eu dou uma aula de uma matéria de exatas que é sempre um tabu. O que eu vi de comentários não foram diretamente com as questões de física, mas, de forma geral, a angústia mesmo de se sentir prejudicado”, diz.

No primeiro dia de prova, candidatos foram impedidos de fazer o Enem por lotação das salas de prova. Em diversos estados do país, os estudantes relatam que foram barrados pelos fiscais de prova com a justificativa de que as salas já tinham atingido a capacidade máxima de participantes.

“A falta de comprometimento de programas do governo, a falta de respeito e empatia faltou muito para essa prova. A gente precisa estar muito bem emocionalmente para fazer uma prova, mesmo que a gente tenha estudado muito”, comenta.

MEC ignora alunos

Quem corconda que o MEC e o Inep deixaram a desejar é o professor e educador popular Diogo Oliveira Dias, que ministra aulas de filosofia em uma escola da rede pública na capital paulista e também na Uneafro.

Para ele, o MEC não deveria ter insistido em fazer o processo do Enem em meio às denúncias de desigualdades.

“Eu me sinto revoltado pela insistência em fazer esse processo. Os estudantes escolheram que a prova fosse feita em maio e acho que tinha um consenso entre professores que era necessário mais tempo para se preparar e garantir a segurança sanitária”, afirma ele.

No ano passado, antes de definir essas novas datas para o Enem — o exame acontece geralmente em novembro —, o MEC fez uma enquete com os candidatos, ainda na gestão do ex-ministro da Educação, Abraham Weintraub, para saber quais datas eles queriam. Porém, a pasta não seguiu esse resultado.

Cerca de 1,1 milhão de estudantes participaram da pesquisa, o que corresponde a 19,3% dos quase 5,8 milhões de inscritos no Enem 2020. A maioria escolheu maio de 2021 para a aplicação das provas.

Maior abstenção da história

O professor relembra que o Enem 2020 teve a maior abstentenção da história. Para ele, em sua maioria, foram alunos pobres que decidiram não fazer a prova por diversos motivos, como enfrentar o transporte público e desmotivação com um ano “perdido” nos estudos.

De acordo com dados do MEC, a abstenção de 2,84 milhões de candidatos, número que representa pouco mais da metade (51,5%) dos inscritos, gerou um desperdício de R$ 332,5 milhões aos cofres públicos. Isso porque o custo da prova, neste ano, é de R$ 117 por aluno. Esses valores correpondem apenas as provas impressas.

Na versão digital, a abstenção foi maior ainda. O Inep anunciou uma abstenção de 68% entre os 96 mil candidatos confirmados na versão digital do exame, que ocorreu neste domingo (31). Um total de 29.703 pessoas fizeram a prova neste primeiro dia (na entrevista coletiva foram anunciados 34.590 candidatos, número depois alterado em comunicado).

“Nossa frustração e revolta é que a maioria dessas pessoas são alunos que a gente trabalha em cursinhos populares, pessoas que precisavam enfrentrar transporte público, que tinham uma situação mais delicada em casa. Não tiveram condições psicológicas de ir, de motivação mesmo, foi um ano que a gente se preparou e que muita gente titubiou na hora de sair de casa. sabemos que não é culpa dessas pessoas”, avalia.

Já Breno Laerte releva que teve um “abalo mental muito grande” e, por este motivou, teve que suspender as aulas por cerca de um mês. Segundo ele, muitos alunos também passaram por sofrimento psíquico e que o Inep e o MEC não atenderem o pedidos dos candidatos culminou em uma “abstenção enorme”.

“O Inep colocou um tema de carater de saúde mental na redação, mas a situação do Brasil abalou a saúde mental de todos os estudantes. É contraditório”, diz.

Volta às aulas 2021

As escolas particulares do estado de São Paulo estão liberadas para o retorno das aulas presenciais a partir desta segunda-feira (1º), desde que sigam protocolos de proteção contra a Covid-19. O retorno na rede pública estadual está marcado para o próximo dia 8. Já a rede pública municipal da cidade de São Paulo voltará no dia 15 de fevereiro.

No Rio de Janeiro, professores das redes municipal e estadual do anunciaram greve contra a volta das aulas presenciais, que estão programadas, respectivamente, para fevereiro e março. Os profissionais reivindicam a manutenção do trabalho remoto e defendem a inclusão da categoria entre os grupos prioritários da campanha de vacinação contra a Covid-19.

O professor Laerte Breno diz que embora esteja otimista com a vacinação contra a Covid-19, “sabe que os problemas de 2020 vão se espelhar em 2021”.

“Tenho uma aluna que é empregada doméstica e ela tem uma demanda de trabalho muito grande para conseguir pagar o aluguel no finala do mês. A gente estava vindo com planejamento e estratégias para 2021, entendendo que não tão cedo vamos voltar ao ‘normal’ e sabendo que há classes vulneráveis ao efeitos da pandemia”, afirma.

Questionado sobre o que deveria ser feito em 2020 e quais são os caminhos para 2021, o professor Diogo Oliveira Dias disse que “não tem uma reposta”, mas faz questão de ressaltar que a desigualdade na disputa ficou muito evidente.

“Tivemos que nos mobilizar politicamente, mobilizar os alunos para conseguir o adiamento, senão seria feito em novembro mesmo, e mesmo assim a prova não foi feita na data escolhida. Em um processo normal já é desigual, mas a gente sentiu muita falta de previsibilidade em 2020 e teme que seja da mesma maneira em 2021”, conclui.