Produções com atores mirins enfrentam não só Covid, como puberdade na pandemia

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Eles crescem tão rápido." A frase, repetida à exaustão por pais ao redor do mundo, nunca foi motivo para tanta preocupação quanto a que causa agora em alguns produtores de cinema, televisão e teatro, que após meses de paralisação finalmente voltaram aos sets de filmagem e aos palcos. Neles, no entanto, se depararam com elencos bem menos infantis do que os que haviam escalado antes da Covid-19.

Alguns meses, como os que separam o início da pandemia do atual momento de retomada no setor cultural, podem não fazer muita diferença para atores adultos --mas para as crianças podem significar alterações expressivas na voz, na altura, no semblante e no corpo. Ninguém escapa à puberdade, afinal.

É com essa transformação em seus elencos que muitas obras audiovisuais e teatrais estão precisando lidar atualmente. A popular série infantil "D.P.A. - Detetives do Prédio Azul", por exemplo, teve suas gravações suspensas às pressas em março do ano passado.

Em novembro, quando seu trio de protagonistas mirins voltou ao set, os produtores perceberam que algumas roupas não serviam, e cenas gravadas no pré-pandemia estavam com sua continuidade comprometida, já que os três estavam visivelmente mais velhos.

"Crianças crescem muito rápido. Quando o elenco voltou para fazer a prova de figurino, todos estavam maiores. Tivemos que fazer ajustes e também produzir roupas novas", diz Gustavo Castello Branco, gerente de conteúdo da Gloob, emissora que exibe "D.P.A.".

"Foi muito desafiador, porque tínhamos algumas cenas de um mesmo episódio gravadas antes da pandemia e outras, depois. Nos atentamos a essa questão e, para quem assiste à série, as mudanças são pouco perceptíveis --mas elas estão lá."

A substituição do guarda-roupa acabou gerando custos extras, que se somaram ao orçamento já expandido da série, uma vez que os protocolos de segurança seguidos no set requerem mais investimento.

No caso de "D.P.A.", não foi só na televisão que surgiram contratempos. A franquia ainda precisou interromper as apresentações de sua peça teatral e adiar a estreia de seu novo filme para 2022. Mas a situação não foi exclusividade e outros estúdios televisivos passaram por algo semelhante, como o do SBT, que se especializou em novelas infantis nos últimos anos.

Lá também todo o figurino de "Poliana Moça" precisou ser refeito, agora que o elenco finalmente retomou as gravações, um ano e meio mais tarde. Já na Globo, a novela "Amor de Mãe", quando voltou ao set, diminuiu o número de cenas com crianças --não apenas para que elas não fossem expostas a riscos, mas também porque cada ator mirim leva junto um maior responsável, aumentando a quantidade de gente nos bastidores.

Em "Nos Tempos do Imperador", primeiro folhetim inédito da emissora desde a eclosão da Covid-19, a presença dos pequenos também ficou mais tímida. Com cerca de um ano de hiato entre o início e a retomada das gravações, a trama abandonou as crianças em alguns capítulos, para que o público não as visse com uma aparência muito diferente em episódios próximos.

Quem deu sorte em meio à situação pandêmica foi "Turma da Mônica: Lições", segundo filme com atores de carne e osso baseado nos quadrinhos de Mauricio de Sousa. As gravações foram finalizadas em fevereiro do ano passado, quando o novo coronavírus já estava por aí, mas ainda não tinha paralisado o Ocidente.

"Já estava aquela loucura, a gente sabendo da existência do vírus e achando que não ia chegar aqui. A gente deu uma sorte gigantesca, porque se tivéssemos que interromper as filmagens, teríamos muitos erros de continuidade, porque os protagonistas estão gigantes agora. E não são só eles, nós tivemos 400 figurantes infantis", diz Bianca Villar, da produtora Biônica Filmes.

Por outro lado, a pandemia impactou o lançamento do filme. Até agora não há uma data cravada para que ele chegue aos cinemas --mas a expectativa é que isso aconteça ainda este ano.

Depois de "Turma da Mônica: Lições", a ideia era fazer um outro filme com o mesmo elenco, finalizando a história numa trilogia. Os planos, diz Villar, foram abandonados e agora a turminha deve ter apenas um par de longas. Ela explica que o quarteto protagonista cresceu demais desde "Turma da Mônica: Laços", de 2019, e que já não se encaixa no perfil dos personagens criados nos quadrinhos --o mais velho entre eles, Kevin Vechiatto, o Cebolinha, está com 15 anos.

Outro elenco mirim famoso que tem crescido diante do público --e, neste caso, deve continuar nas telas, mas numa pegada mais adolescente-- é o de "Stranger Things", trama lançada em 2016. A série da Netflix teve suas gravações interrompidas pela pandemia. Elas foram finalizadas recentemente, mas a data de estreia da quarta temporada ficou só para o ano que vem, três anos depois da última leva de episódios.

O mais velho da criançada original, Caleb McLaughlin, vai fazer 20 anos em outubro, o que vai empurrar a história, que já é sombria, para uma narrativa ainda menos inocente. Não há informações sobre uma quinta temporada, mas dado o sucesso da série entre público e crítica, é provável que ela esteja nos planos.

Para além de problemas de continuidade e dos figurinos que deixam as canelas de fora, a pandemia também apresenta desafios específicos para produções com crianças pelo fato de que muitas delas ainda não podem se vacinar --e as que podem não têm todas as vacinas à disposição.

Questionado se isso deve gerar um debate ético no futuro próximo, já que atores desprotegidos estarão contracenando com adultos imunizados, Gustavo Castello Branco, da Gloob, diz que todo menor precisa de aprovação dos responsáveis legais para atuar. Dessa forma, a decisão de estar ou não num set vem da família e, diante dos rígidos protocolos de segurança desenvolvidos durante a pandemia, essa não deve ser uma grande questão.

O executivo também aponta para um outro problema que pode passar despercebido para muita gente. Produções voltadas ao público infantil têm como uma das principais estratégias de marketing a interação com o público. Com o isolamento social, visitas ao estúdio, ida a escolas, encontros de fãs e atrações em shoppings foram cortados.

"Tudo foi para o campo digital. Esse público mais novo é muito pautado por experiências, pelo contato, mas a gente está tendo que fazer isso de forma diferente. Existe todo um ecossistema que teve que se adaptar. Tem funcionado, mas não é tão proveitoso", diz.

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