Problema do Brasil com cultura vem de 1500 e virou catástrofe, diz Fagundes

WALTER PORTO
***FOTO DE ARQUIVO*** SÃO PAULO SP 04.11.2019 Premio Empreendedor Social realizado no Teatro Porto Seguro Mestres de cerimonia Antonio Fagundes e Leandra Leal. (Foto: Reinaldo Canato / Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "O que já era um problema se transformou numa catástrofe", lamenta Antônio Fagundes, ao telefone, referindo-se ao panorama da cultura no Brasil diante da pandemia de Covid-19.

Preservar o patrimônio imaterial do país, segundo o ator de 71 anos, é dever do Estado. E o pecado original é que "de 1500 para cá, nenhum governo se preocupou com a cultura no Brasil".

Prova disso é que a grande maioria das cidades brasileiras não têm sequer uma sala de cinema ou de teatro. Ao levar temporadas de suas peças aos quatro cantos do país, Fagundes pôde constatar com os próprios olhos o descaso de que agora é testemunha, tendo se apresentado em estabelecimentos que não tinham nem bilheteiro.

"O que essa pandemia trouxe para nós foi a consciência de que o Estado, independentemente de qualquer governo, tem que estar presente em algumas atividades fundamentais. Uma delas eu diria que é a cultura."

Agora, se houver uma terra arrasada pelo coronavírus, o estrago no setor não vai ser só momentâneo. "Se você destrói em um ou dois anos, leva no mínimo 40 para retomar. Se houver uma vontade política."

E a resposta do governo nesta emergência têm sido satisfatória? "Com certeza que não", assevera Fagundes. "O mundo inteiro estava despreparado. A gente ainda teve um pouco de sorte de ter um SUS que consegue atender parte da população de forma mais igualitária, diferente dos Estados Unidos."

Em entrevista no começo de abril, ele já havia declarado que a ex-colega de Globo e atual secretária de Cultura do governo Bolsonaro, Regina Duarte, estava "se queimando de todos os lados". Mas sua apreensão não é só com os colegas de profissão.

"Ouvi alguém dizendo que descobrimos agora que tinham quase 50 milhões de pessoas invisíveis para a sociedade, que só ficaram visíveis quando fizeram uma fila para receber 600 reais [de auxílio emergencial]. É preciso uma pandemia para a gente ver essas pessoas?".

Apesar de a situação da cultura como um todo ser preocupante, o ator afirma que o teatro deve ser um dos ramos mais afetados, já que as salas de cinema, por exemplo, podem se segurar ao reabrir com produções internacionais.

"No sentido da produção, eu tenho certeza que a classe arregaça as mangas e continua produzindo", afirma o ator. "Minha preocupação é com a estrutura. Se você fecha um teatro hoje, não abre no dia seguinte. Essa sala que fechou vai virar uma loja, vai virar uma igreja. Você nunca ouviu falar de uma igreja que tenha virado teatro."

Enquanto Fagundes conversava com o repórter, a companhia teatral Os Satyros anunciava o fechamento definitivo de uma de suas salas de teatro, na praça Roosevelt, no centro de São Paulo.

Já antes da quarentena, Fagundes observava um recuo no patrocínio de espetáculos, imprescindível para alguns grupos -apesar de ele próprio não recorrer nem a isso nem a verba pública, amparando-se só na bilheteria de suas peças.

Ele estava prestes a estrear, em 1º de maio, a primeira temporada de "Baixa Terapia" no Rio de Janeiro, no Teatro Clara Nunes. O espetáculo já havia feito mais de 300 mil espectadores em três anos de carreira em São Paulo, onde Fagundes é cadeira cativa no Tuca. Agora, tudo está suspenso.

"A minha vida sempre foi muito corrida, nunca tive tempo pra ficar em casa. Em mais de 50 anos, digamos que estou descobrindo a minha casa pela primeira vez", diz, sobre o lugar em que mora há duas décadas no Rio.

Muito se tem falado sobre a possibilidade de que o tempo abruptamente aberto na rotina de artistas force um impulso para o trabalho criativo. Mas a isso ele reage com outras preocupações.

"Tem um enorme contingente que está passando necessidade, pessoas que dependiam especificamente do teatro. São eletricistas, camareiros, contrarregras", lembra, comentando que tem participado de vaquinhas para ajudar colegas de bastidores. "Essa turma está sofrendo mais do que a gente possa imaginar. A criatividade deve ser a última preocupação dessas pessoas."

Agora que está trancado porta adentro, continua demonstrando a serenidade que lhe é característica, dizendo estar em paz por "cultivar uma vida interior". "Sempre disse aos meus amigos para fazer isso, se interesse por literatura, por arte. Hoje em dia você tem acesso a tudo em casa."

Fagundes virou uma espécie de embaixador dos livros com seu personagem em "Bom Sucesso", novela das sete encerrada em janeiro na qual interpretava um editor apaixonado pelos clássicos.

O folhetim protagonizado por ele e Grazi Massafera conseguiu a melhor audiência do horário desde 2012, com um roteiro que trazia verso e prosa de grandes autores, aproximando a boa literatura do público vasto da televisão.

É um trabalho que, de certa forma, ele continua em sua recém-inaugurada página do Instagram. As postagens para seus 394 mil seguidores não raro trazem o ator perto da estante cheia, citando ou recomendando obras literárias.

Num post da semana passada, ele aparece sentado numa poltrona, de camisa listrada em rosa e branco: "Muita gente reclamando, 'ah, você fala para ler, mas o livro está caro, eu não tenho dinheiro'. Realmente, mas eu vou dar uma dica: existem algumas livrarias chamadas sebos. São livros às vezes em excelente estado. E você consegue encontrar em algumas ocasiões livros de até um real, cinco reais."

Mesmo que em plataformas diferentes, às quais o ator veterano está apenas começando a se habituar, a vontade de espalhar boa arte pelo país não deixa de acompanhar Fagundes, mesmo que direto da solidão da quarentena.