Eliana esquece privilégio ao desabafar sobre flagra e pressão estética

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A apresentadora Eliana (Reprodução Instagram)
A apresentadora Eliana (Reprodução Instagram)

Normalmente discreta sobre sua vida pessoal, Eliana surpreendeu com um longo desabafo em seu Instagram após ser flagrada por um paparazzi enquanto estava de biquíni em um hotel com a família. A apresentadora falou sobre se sentir invadida por ser famosa, e revelou que já deixou de ir para a praia por medo de ter o corpo exposto na mídia.

"Em 32 anos de carreira NUNCA fui flagrada desta maneira. Foi tão estranho, invasivo, perdi o controle de minha imagem. Na hora senti taquicardia, minha mão ficou suada, fiquei sem ar. Acredita que parei pra me questionar se errei de ter ido à praia e depois ter subido pra piscina do hotel de amigos queridos? Pra constar, antes das estrias, celulite, abdômen sarado, seja lá qual for o assunto, existe uma mulher, um indivíduo, que a cada dia que passa perde o receio de ser julgada. Aliás, até quando teremos que nos preocupar? Viva a liberdade!", escreveu ela nas redes sociais.

Mulher nunca tem paz!

Eliana não mentiu: se para mulheres anônimas já é difícil sair na rua sem sofrer algum tipo de assédio ou julgamento, os momentos de aproveitar uma praia ou um dia na piscina são ainda mais tensos. Muitos sites de fofoca e veículos especializados adoram falar de forma pejorativa da forma física de mulheres, exibindo gordofobia flagrante a qualquer sinal de estria, celulite ou aumento de peso mínimo. Toda mulher precisa suportar meses de notícias com "saiba como conseguir o corpo para aproveitar o verão", como se só mulheres magras e padrão tivessem o direito de curtir uma praia sem stress.

Preconceito estrutural

O que ficou de fora do testemunho de Eliana foi a questão do privilégio. A apresentadora é uma mulher branca, cisgênero, magra, rica, famosa, sudestina e repleta de privilégios, que fazem com que a pressão estética que sofre passe longe da gordofobia, racismo e falta de acesso que caracteriza o preconceito estrutural e sistêmico. Cada característica marginalizada que uma mulher possui a coloca mais perto do abismo do abandono e massacre estrutural presente em uma sociedade profundamente desigual como a brasileira: uma mulher preta, gorda, trans e pobre que vai para a praia sofre preconceitos inimagináveis comparada à Eliana, e são essas pessoas que precisam ser vistas para que a situação mude.

Eliana não errou em seu testemunho, e foi certeira na hora de falar sobre a falta de privacidade das mulheres e a pressão estética cruel sofrida por todas na sociedade brasileira. Ninguém tem o direito de tirar uma foto de uma mulher sem sua autorização, especialmente em um momento de intimidade. O erro da apresentadora foi não usar o privilégio e alcance que têm para jogar luz sobre pessoas mais marginalizadas que ela. Para Eliana, pressão estética é um problema, um entrave. Para uma mulher pobre e preta, pode ser a diferença entre viver e morrer.

Preconceito estrutural tira a sua dignidade de vida, seu direito de existir e diminui até a sua expectativa de vida. Uma mulher magra vítima de bullying sofre pressão estética a todo momento apenas por existir, mas não sofre preconceito sistêmico. Uma mulher magra não sabe a sensação de não conseguir passar na catraca do metrô por falta de estrutura, de entrar em uma loja de departamento e não achar uma roupa que sirva ou de sofrer gordofobia médica. Mulheres gordas são massacradas por imagens de dietas e ouvem a todo momento que seus corpos não deveriam existir.

Um levantamento conduzido pela MindMiners, empresa de tecnologia especializada em pesquisa online, apontou em 2021 que, entre 1000 pacientes, 26% das pessoas gordas já foram maltratadas por profissionais de saúde. Traumatizadas, essas mulheres preferem ficar longe dos hospitais e não fazem exames de prevenção de doenças como câncer de colo de útero, por exemplo. Essas estatísticas ficam mais assustadoras quanto mais marginalizada é a paciente, e mulheres pretas também enfrentam percentuais horrendos de preconceito médico.

Um exemplo sobre o assunto é o de Marília Mendonça: a aparência da cantora foi assunto até após a morte, com Luciano Huck fazendo comentários sobre o peso da artista e um texto da "Folha de S. Paulo" focando em seu corpo em vez de falar de seu talento. "Marília era gordinha e brigava com a balança. Mais recentemente, durante a quarentena, vinha fazendo um regime radical que tinha surpreendido a muitos. Tornava-se também bela para o mercado. Mas definitivamente não foi isso que o Brasil viu nela.", dizia o texto.

Outro caso que ocorreu no SUS em São Paulo é um retrato cruel e exato da diferença entre sofrer pressão estética e preconceito estrutural, que envolve políticas públicas e marginalização social. Uma paciente que precisava de uma tomografia precisou ser encaminhada para o zoológico de São Paulo após os médicos descobrirem que os aparelhos suportam no máximo 120 quilos. No Rio de Janeiro, organizações anti-gordofobia denunciaram que hospitais da capital encaminhavam pacientes obesos para fazer exames em aparelhos utilizados em cavalos. Não, não é igual para todo mundo, e precisamos ir além da análise inicial de que todas as pessoas sofrem o mesmo tipo de preconceito e pressão estética.

O preconceito não é igual para todo mundo, e o simples ato de sair de casa de biquíni para curtir uma praia não tem as mesmas implicações para todas as mulheres. Eliana perdeu uma ótima oportunidade de jogar luz em mulheres que não são vistas por ninguém, e que a sociedade faz questão de empurrar para as trevas.

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