Atingido por tiro da PM, cobrador negro é incriminado em roubo em SP

Valter foi ferido pela PM e depois preso; familiares defendem que ele é inocente da acusação de roubo | Foto: arquivo pessoal

Por Arthur Stabile

Segundos colocaram o cobrador de ônibus Valter José dos Santos, 53 anos, da condição de vítima de um disparo feito pela Polícia Militar do Estado de São Paulo para suspeito de roubar um supermercado. Valter apresenta problemas de circulação que afetam o funcionamento correto de suas pernas e, consequentemente, seu caminhar, limitação ignorada pelos PMs quando o acusaram de correr em fuga junto de três suspeitos. Depois de ser baleado, o cobrador foi preso.

Tudo aconteceu no dia 12 de setembro, quando, por volta das 20h, Valter saiu de sua casa na Ponte Rasa, zona leste da capital paulista, e foi fazer compras para o jantar no supermercado. Caminhando de forma lenta por conta de sua condição física, ele se aproximava do mercado quando três homens passaram correndo na direção contrária à que o senhor caminhava. O trio tinha assaltado o supermercado Dia que fica na Avenida Águia de Haia, nº 3.592, e estava fugindo da polícia. Os soldados Vinícius Augusto de Freitas Silva e Rafael Montovani Mata da Silva disseram ter disparado seis vezes – eles não sabem especificar quem atingiu Valter e quem acertou o homem não identificado, que morreu.

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O cobrador foi solto nesta quinta-feira (10/10), depois que o juiz Antônio Carlos de Campos Machado Júnior acatou o pedido da defesa, que argumentava que as câmeras de segurança mostravam Valter passando pela avenida enquanto o crime acontecia no mercado. As imagens mostram o momento em que Valter caminha pela rua e três homens saem correndo do mercado, fugindo da polícia. Nesse exato instante ele é atingido no abdômen e cai. Em outra imagem, Valter passa por um carro que manobra e, logo depois, um dos suspeitos se choca contra o carro e cai baleado.

“O meu pai vem devagar, nessa os três passam e os PMs já estavam disparando. Foi quando atingem ele. O que você imagina? Para o PM não se ferrar, ele vai prejudicar um inocente. Foi o que fizeram e ficou comprovado nas imagens de segurança”, garante Yuri, filho de Valter.

Familiares e a advogada que defende Valter apontaram que Augusto e Mantovani alteraram a dinâmica dos fatos. “Eles atiraram na direção e meu pai estava passando. Como os caras passaram por ele, uma bala da polícia o atingiu. Foi isso. Numa dessa o PM viu que atiraram em um inocente e, imagina, fizeram com que todo o B.O. fosse colocado nele”, lamenta o filho de Valter, Yuri Santos.

Yuri conta que seu pai possui um problema de circulação há anos, o que interferiu no bombeamento do sangue nas pernas, o que afeta seu caminhar. “Meu pai toma bastante antibiótico para a perna não inchar. Não consegue correr, jamais. Não corre pela obesidade, que gera a má circulação. Ele é hipertenso, tem problema no coração, toma vários remédios”, explica.

Os três filhos abraçam Valter em sua saída do CDP do Belém, em São Paulo | Foto: Arquivo pessoal

A ausência de Valter foi muito sentida, já que, segundo Yuri, ele é uma pessoa extremamente prestativa e dribla os problemas de saúde para ajudar no dia a dia dos três filhos – além de Yuri, Hiago e Ygor – e dos três netos. “Todo dia ele vai em casa, dá assistência. Gosta de fazer as coisas para gente. É uma pessoa de bem, mesmo. Meu irmão mais velho está sem emprego, quem paga a pensão era meu pai e eu ajudava”, diz Yuri.

Versões sobre a ação

O boletim de ocorrência do caso apresenta versões distintas sobre qual seria a função de Valter no crime, ainda que dois dos suspeitos tenha garantido que não conheciam Valter em depoimento ao delegado José Pinto Martins Júnior, do 24º DP (Distrito Policial). O terceiro homem morreu baleado e, segundo os outros dois, ele tinha uma arma e foi quem planejou o assalto.

Os solados ignoraram a condição física de Valter e afirmaram que ele estava com um revólver Taurus de numeração raspada e R$ 1 mil.

Sete funcionários do mercado deram suas versões que, segundo a defesa, foram deturpadas pela forma com que os PMs apresentaram Valter para os trabalhadores. Duas funcionárias disseram que Valter era o “meliante que anunciou o assalto”, outro disse que apenas ouviu as falas de Valter durante o roubo. Um quarto colaborador falou que ele “gritava para que as pessoas fossem ao fundo do mercado”. Uma das funcionárias falou que Valter “andava pelo salão do mercado” e aproveitou o roubo para pegar um “pedaço de picanha”. Uma mulher não o citou entre os criminosos, enquanto um homem disse que não o viu no local.

Segundo a advogada Maria Ângela Correia Leite, a forma como os PMs identificaram Valter às vítimas do crime, como sendo um dos criminosos em fuga, interferiu no reconhecimento. “Uma das testemunhas diz que os PMs gritavam ‘deu ruim, deu merda, atingimos alguém que estava na rua’ e outro dizia ‘fica frio, depois a gente vê’. Eles, talvez para não terem que justificar essa bala perdida, eu não encontro outra justificativa, colocaram Valter como réu. Ele foi vítima de bala perdida e passou a ser réu”, explica a defensora.

A Ponte questionou a SSP (Secretaria da Segurança Pública) de São Paulo, comandada pelo general João Camilo Pires de Campos neste governo de Joao Doria (PSDB), sobre a prisão de Valter e a atuação dos PMs.

Em nota, a PM informa que os policiais envolvidos na ocorrência foram afastados preventivamente e que a Corregedoria da PM investiga os fatos.

A SSP-SP, também em nota, afirma que “não compactua com desvios de conduta de seus agentes e defende a investigação rigorosa de todas as denúncias. Se comprovadas quaisquer irregularidades, as medidas cabíveis serão adotadas”.