Príncipe Harry nos ensina que os homens não precisam ter medo de terapia

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INGLEWOOD, CALIFORNIA: In this image released on May 2, Prince Harry, The Duke of Sussex speaks onstage during Global Citizen VAX LIVE: The Concert To Reunite The World at SoFi Stadium in Inglewood, California. Global Citizen VAX LIVE: The Concert To Reunite The World will be broadcast on May 8, 2021. (Photo by Kevin Mazur/Getty Images for Global Citizen VAX LIVE)
O príncipe Harry tem falado abertamente sobre saúde mental e a importância de lidar com os próprios sentimentos (Foto: Getty Creative)

Do outro lado do oceano, na Inglaterra, a realeza britânica encanta com todo o luxo e os segredos que só uma monarquia moderna poderia ter - não é à toa que a série The Crown, da Netflix, fez tanto sucesso. No entanto, por trás dos palácios e dos casamentos dignos de princesa (literalmente), havia um esforço quase hercúleo para mascarar o sofrimento de uma família enlutada. Sim, estamos falando sobre saúde mental e sobre o recente relato do príncipe Harry.

Caso você não saiba, na última semana estreou na televisão norte-americana, um especial sobre saúde mental que explorava o tópico por diversas vertentes, uma delas sendo o depoimento do príncipe, que deixou o posto oficial na realeza para morar nos Estados Unidos com a esposa, Meghan Markle.

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No programa 'The Me You Can't See', Harry comentou que sofria com síndrome do pânico e ataques de ansiedade e que bebia o equivalente a uma semana em um único dia para mascarar as sensações decorrentes da morte da mãe, a princesa Diana. Nos bastidores do castelo, ele ouvia que o ideal era seguir com os protocolos e lhe fazer o que era pedido e, como disse Meghan em outra conversa com a apresentadora Oprah Winfrey, pedir ajuda psicológica era quase inadmissível na corte. Para Harry, além de se afastar completamente do posto de príncipe, um ponto importante na sua própria trajetória de recuperação é não só abrir o jogo, mas incentivar outras pessoas a falarem mais sobre saúde mental.

No Brasil, um bom exemplo disso é o humorista Whindersson Nunes, que, apesar das polêmicas, sempre foi aberto sobre a sua condição depressiva e mais de uma vez falou em entrevistas sobre a necessidade de pedir ajuda profissional para lidar com os seus sentimentos. Tanto o brasileiro, quanto o britânico, no entanto, são exceções. No geral, e, principalmente, em um país paternalista e machista como o Brasil, o que vemos é o contrário: uma dificuldade maior dos homens lidarem com as próprias emoções.

"Os homens não são estimulados a falar de sentimentos ou procurar uma ajuda especializada para isso", explica a psicoterapeuta comportamental Ângela Fujita. "Pela minha experiência, o que eu vejo é que de 10 pacientes que eu atendo, 2 geralmente vão ser homens. É pouco."

De fato, é pouco quando se considera o efeito que a saúde mental tem no sexo masculino. A depressão é considerada a doença mais incapacitante do mundo e, enquanto costuma acometer, oficialmente, mais mulheres do que homens, o suicídio, uma das consequências da depressão, costuma ser mais frequente entre eles - 76% dos casos de auto-extermínio acometem o sexo masculino.

O "medo" da terapia e a questão cultural

"Menino, não chora!" "Isso é coisa de menina!" Essas são apenas algumas das frases que comumente os meninos ouvem enquanto crescem. No entanto, mais do que uma repreensão momentânea, ideias como essa têm um efeito a longo prazo que afeta diretamente a relação dos homens com o emocional - e acaba colaborando para a questão da masculinidade tóxica.

Segundo Ângela, se um homem, por exemplo, começa a apresentar problemas para dormir, o seu primeiro passo é buscar um motivo biológico para isso - entenda-se: ele vai ao médico procurar saber se há algo errado com a sua saúde física. No entanto, se ele descobre que esse não é o caso, e que ele sofre de uma questão emocional, lida-se então com um bloqueio, que começa na negação.

"Para a pessoa primeiro entender e aceitar que isso é importante, é um problema importante, é preciso muita conscientização e a quebra de muitos preconceitos de si mesmo, do papel de homem - e não só como homem, mas como ser humano que está sujeito aos efeitos de um sistema capitalista", explica a psicóloga. "Apesar de homens e mulheres serem tratados de formas muito diferentes num sistema capitalista, não dá para negar que se você trabalhar numa empresa, você é um proletariado."

Os efeitos dessa falta de conversa e lida com os próprios sentimentos levam a efeitos muito abrangentes e, via de regra, pouco mensuráveis. Porém, pode-se observar um aumento de transtornos, maior agressividade, dificuldade de expressão e identificação dos próprios sentimentos e dificuldade de comunicação e empatia - se você não entende o que você sente, como vai entender os sentimentos dos outros?

Como você deve imaginar, isso também interfere na criação dos filhos, principalmente, claro, dos meninos, que vão crescer segundo esse mesmo padrão emocional e com um nível de autoconhecimento e auto-investigação emocional baixos.

"Eu acredito que o objetivo de todas as terapias, independente da abordagem, é um autoconhecimento. A forma como o terapeuta vai lidar com esse autoconhecimento, de estimular isso num paciente, é levando em conta aspectos da própria cultura do indivíduo, mas o autoconhecimento precisa de outra pessoa. Você tem que levar em conta todas as características de um indivíduo, mas você só se autoconhece a partir de uma interação social. É muito pouco provável que uma pessoa isolada completamente, com pouquíssima interação social, se conheça. A terapia coloca questionamentos para o paciente, apontando, fazendo ele discriminar certas coisas".

Homens, vamos falar de sentimentos?

Sim, não é simples falar sobre saúde mental. Porém, se queremos ver uma mudança a longo prazo em termos de comportamento masculino, precisamos de um incentivo. De fato, a ajuda governamental pode ser muito benéfica nesse sentido (e iniciativas como o Setembro Amarelo ajudam). A conversa começa a partir de pessoas relevantes no cenário público, como príncipes ou celebridades, também são uma forma de estimular essas conversas em outros âmbitos sociais. "É um caminho mais lento, mas é necessário, senão, não tem mudança", diz a especialista.

Depois, saindo do âmbito macro, temos o micro, ou seja, o ambiente familiar. "Pais e mães têm que dar exemplos entre si, a mulher se importar com o que o marido está falando, com o que ele está expressando, o marido se importar com o que a mulher está expressando e os dois se importarem com o que os filhos falam", diz. "É genuinamente entender o que o menino está passando, por que um menino bateu no outro, o que ele sentiu? Por que ele sentiu raiva? Parar de falar esse tipo de coisa, 'menino é assim' - isso vai formando uma regra na cabeça da pessoa desde a infância. É começar por essas ações que ajudam a criança, o menino, a discriminar o que é sentimento".

Por último, vale lembrar que buscar ajuda para questões emocionais e mentais nunca é um sinal de fraqueza, mas de força. Existem serviços de terapia e atendimento psicológico gratuito em diversos estados brasileiros, além de apoio emocional anônimo via telefone, em canais como o CVV (disque 188).

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