Conheça a trajetória do príncipe Charles até se tornar rei Charles III

Britain's Prince Charles, known as the Duke of Rothesay while in Scotland, takes part in a roundtable with attendees of the Natasha Allergy Research Foundation seminar to discuss allergies and the environment, at Dumfries House in Cumnock, Scotland, Britain, September 7, 2022. Jane Barlow/Pool via REUTERS
Foto: Jane Barlow/Pool via REUTERS

O destino dele sempre foi cumprir esse papel. Nenhum outro herdeiro aguardou tanto tempo a coroação na história do Reino Unido. Agora, com a morte de Sua Majestade, a Rainha Elizabeth II, nesta quinta-feira (8), o príncipe de Gales vai se tornar o rei Charles III.

No entanto, por muitos anos, algumas pessoas acreditavam que ele jamais seria proclamado soberano. Enquanto sua mãe sempre inspirou grande respeito e lealdade durante o reinado de mais de 70 anos, Charles quase nunca desfrutou de popularidade universal. A imprensa britânica rotulava o então príncipe como "intrometido", "estúpido" e até mesmo "perigoso", e pesquisas indicavam que o povo britânico queria que a coroa fosse passada diretamente para o príncipe William.

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As autoridades reais sempre afirmaram que as normas padrão de sucessão seriam aplicadas. De fato, a coroação do rei Charles III ocorrerá em breve. Mas o que isso significa para a monarquia britânica?

Charles Philip Arthur George nasceu em 14 de novembro de 1948, no Palácio de Buckingham. Quando ele tinha três anos, sua mãe foi coroada rainha Elizabeth II, em 1952.

Na infância, ele era considerado o menos adequado para o papel de monarca, por estar frequentemente adoentado e ser o mais sensível dos quatro filhos da rainha. Anos depois, ao ser questionado sobre quando se deu conta de que seria rei um dia, ele disse que não houve um momento revelador específico, apenas um lento despertar "assustador e inexorável".

O relacionamento entre Charles e o pai, o duque de Edimburgo, era apontado como "complicado". Enquanto isso, a mãe dele estava constantemente preocupada com os próprios deveres reais. O príncipe chegou a reclamar que não recebeu carinho dos pais na infância - ele era mais próximo da avó, a rainha-mãe. Era ela quem o abraçava, levava para assistir a espetáculos de balé e ensinava a ter opinião sobre as coisas.

Aos 13 anos, ele foi mandado para o colégio interno onde o pai estudou: Gordonstoun, na Escócia, mas detestou e chegou a descrever o período como "uma sentença de prisão". Tendo cumprido seis O-levels e dois A-levels, qualificações educacionais do sistema de ensino britânico, o príncipe seguiu para a Universidade de Cambridge para estudar Antropologia, Arqueologia e História.

Em 1971, Charles deu início ao treinamento como piloto de aviões da RAF. Depois, se matriculou na faculdade naval de Dartmouth, antes de servir na Marinha Real e treinar como piloto de helicóptero. Foi nessa época que ele começou a namorar Camilla Shand, mas o casamento com ela estava fora de questão. As convenções da época ditavam que o herdeiro do trono britânico deveria se casar com alguém sem um "passado romântico". Então, em 1973, Camilla se casou com Andrew Parker Bowles.

Polêmicas no casamento

Um casamento "mais adequado" foi planejado entre Charles e Lady Diana Spencer, a quem o tio do príncipe, o lorde Mountbatten, chamou de "garota de temperamento doce". Charles declarou ter se sentido pressionado pelo pai a fazer o pedido de casamento depois de apenas seis meses, e o noivado do casal foi anunciado em fevereiro de 1981. Charles tinha 31 anos e Diana, apenas 19.

Na entrevista de noivado, ao ser questionado se estavam apaixonados, a infame resposta de Charles acabou definindo o espírito do casamento: "O que quer que 'estar apaixonado' signifique". Ele teria, inclusive, chorado muito na véspera do casamento, que ocorreu em julho de 1981.

O príncipe William, filho e herdeiro de Charles, nasceu menos de um ano depois, seguido do príncipe Harry, em setembro de 1984. Naquela época, o casamento real já passava por dificuldades. Em carta enviada a um amigo, Charles escreveu: "Como pude ter cometido um erro tão grande?". Em 1986, Charles retomou o romance com Camilla. Mais tarde, admitiu que o casamento com Diana estava "irremediavelmente destruído". Diana, que também teve amantes, declarou posteriormente: "Éramos três no casamento, então tinha alguém sobrando".

Depois da publicação do livro "Diana: sua verdadeira história", de Andrew Morton, em 1992, o fim do casamento entre Charles e Diana era um fato consumado. A separação foi anunciada em dezembro de 1993, e o divórcio concluído em agosto de 1996.

Porém, a reputação de Charles foi gravemente prejudicada. Ele foi retratado como um péssimo pai, além de culpado pelo tormento de Diana, uma reputação difícil de reverter. Em agosto de 1997, quando Diana morreu em um acidente de carro, em Paris, ele parecia adivinhar exatamente qual seria a reação da nação. Ao saber da notícia, ele teria dito aos próprios conselheiros: "Todos vão me culpar, não vão?".

Apesar disso, tempos mais felizes estavam por vir. Camilla, a duquesa da Cornualha, ocupa um lugar no coração de Charles que ele sempre afirmou ser "inegociável". Em abril de 2005, eles se casaram, em uma cerimônia civil na Guildhall de Windsor. Os índices de aprovação do casal subiram conforme o público foi se convencendo do amor entre eles.

Até mesmo a rainha reconheceu a felicidade dos dois. Após o casamento, ela declarou: "Meu filho está em casa, são e salvo, com a mulher amada. Eles passaram por todos os tipos de desafios e obstáculos, mas superaram e venceram tudo isso."

Alta rejeição

Em 2013, aos 65 anos, ele se tornou o herdeiro aparente há mais tempo ocupando essa posição: 59 anos, 2 meses e 13 dias, recorde estabelecido no passado pelo trisavô de Charles, o rei Eduardo VII. Agora, aos 73 anos, ele se torna o rei mais velho em 300 anos; o recordista anterior, William IV, tinha quase 65 anos quando subiu ao trono, em 1830.

Ainda assim, Charles continua um pouco impopular entre o povo britânico. A biógrafa da realeza Penny Junor acredita que o príncipe ainda é injustamente responsabilizado pela infelicidade de Diana.

"Ele é criticado pelo fracasso do casamento", ela afirma. "Ele nunca foi perdoado por isso, pois Diana o culpava e ele nunca se pronunciou a respeito, nem explicou o que aconteceu durante o matrimônio. Ele sempre acreditou que caberá à história julgá-lo."

Príncipe incômodo

Como herdeiro, Charles sempre viveu à sombra de Sua Majestade, a Rainha, cujo mantra popular é "nunca reclame, nunca explique". Por outro lado, ele incomodou muita gente ao supostamente se aproveitar do próprio status para influenciar decisões governamentais.

Só em 1987, ele enviou a diferentes destinatários, incluindo ministros, mais de mil cartas, apelidadas de "os memorandos da aranha negra", por causa dos garranchos de Charles. Tanto Margaret Thatcher quanto Tony Blair, ex-primeiro-ministros, já reclamaram das interferências do príncipe no processo legislativo. Charles admitiu que, às vezes, ficava sobrecarregado com "tanta ofensa e difamação".

Apesar disso, as cartas demonstram que ele também tem um lado encantador e se considera uma pessoa de "opiniões tradicionais".

Mas o que todos querem saber é se ele será capaz de guardar essas opiniões para si mesmo. Em um documentário sobre o 70º aniversário de Charles, em 2018, ele disse que não vai "se meter" nesses assuntos quando for rei.

Ele comentou: "Continuo me perguntando o significado de 'me meter'. Sempre considerei o que eu fazia um estímulo. Há 40 anos, eu me preocupo com a população, com o que acontece ou deixa de acontecer, com as condições em que as pessoas vivem. Se isso é o que eles chamam de 'me meter', então, eu tenho muito orgulho".

Desde que foi fundada por Charles em 1976, a organização beneficente Prince's Trust já ofereceu apoio a milhares de jovens carentes no Reino Unido. Além disso, ele impulsiona a conscientização sobre a mudança climática e a poluição causada pelos plásticos.

Com certeza, ele parece disposto a trabalhar bastante como rei. Nos últimos anos, como a rainha reduziu a participação em compromissos oficiais, Charles assumiu mais tarefas. Para um homem que já chegou a brincar dizendo que, se pudesse, passaria o resto da vida esquiando, o trabalho que Charles vem fazendo demonstra que o principal objetivo do príncipe é melhorar a vida das pessoas. Se ele realmente vai fazer isso, só o futuro dirá.