Primeira convenção brasileira sobre terraplanismo ocorre em novembro

Carlos M. Sánchez


Quinhetos anos após Fernão de Magalhães iniciar sua expedição para dar a primeira volta ao mundo, cerca de 11 milhões de brasileiros (7% da população) acreditam que a Terra é plana. O dado é de uma pesquisa divulgada este ano pelo Instituto Datafolha. A 'teoria' ganha adeptos dispostos a embarcar em uma cruzada contra a ciência e o sentido comum, inclusive planejando um cruzeiro para zarpar em 2020 e provar a tese.

Até o filósofo Olavo de Carvalho, guru do presidente Jair Bolsonaro, mostrou certa simpatia com o movimento. Em um tuíte, de maio deste ano, ele disse que não estudou o assunto da terra plana, apenas assistiu a vídeos, e "não consegui encontrar, até agora, nada que os refute".

Twitter/@opropriolavo

Agora, os denominados terraplanistas querem sair da bolha digital, onde seus seguidores são contados por milhares, e difundir sua fé em uma convenção nacional que será realizada em 10 de novembro em São Paulo, a primeira deste tipo no Brasil.

Batizada de Flat Con, o evento será uma jornada de conferências, sem cientistas, mas cheia de youtubers dispostos a convencer as pessoas de que o planeta é mais plano do que um disco de vinil. Os ingressos do primeiro lote, por R$ 80, já estão esgotados. O segundo lote ainda está à venda por R$ 110 cada.

Até agora, 300 pessoas se inscreveram, o que obrigou os organizadores da convenção a mudar o local para um maior. Eles vão se reunir no Auditório Paraíso, localizado no Colégio Maria Imaculada, católico, no centro da capital paulista, das 8h às 19h.

Terraplanistas no Brasil

A pesquisa do Datafolha entrevistou 2.086 pessoas em 103 cidades no início de julho. Entre a população mais escolarizada, o número de terraplanistas sobe para 10%. Outro levantamento do instituto indicou que um em cada quatro brasileiros (26%) não creem que o homem pisou na Lua.

O resultado é similar nos Estados Unidos, onde uma pesquisa da consultoria YouGov mostrou que 2% das pessoas estão convencidas de que a Terra é plana e outros 5% têm dúvidas de que seja redonda.

Jean Ricardo Gonçalves, de 44 anos, disse que se converteu ao terraplanismo em 2015. O jornalista brasileiro é promotor de eventos e organizador da Flat Con. Ele tem um canal no YouTube desde março deste ano que soma 8,2 mil inscritos e uma página no Facebook com cerca de 20 mil seguidores.

Gonçalves afirma que existem "mais de 200 provas" a favor de suas teses. "A Terra é plana e estacionária. O Sol e a Lua estão dentro da nossa atmosfera", disse. Segundo ele, por cima estão os outros planetas — estes, sim, esféricos, disse, mas sem terra firma para pisar —, as estrelas e o que chama de "águas externas, que a ciência fala que é o espaço, mas na realidade é água". "Tanto é que os astronautas treinam em piscinas", acrescentou ele.

Um dos conferencistas do evento é o empresário Gilberto Assef, de 40 anos, que garante que a Terra "não é uma bola molhada giratória" porque, segundo ele, "o horizonte sempre é plano". "Não existe nenhuma foto do globo terrestre, todas são produzidas em computador."

A ciência sobre a Terra

A 'teoria' dos terraplanistas é derrubada pela ciência. Roberto Dias da Costa é professor há 32 anos no Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo e acredita que esse fervor terraplanista "é uma moda" sustentada por argumentos "infantis".

"Tenho a impressão de que é um tema não para ser estudado por astrônomos e sim por psicólogos e sociólogos, no sentido de que as pessoas gostam de pertencer a grupos, comunidades, irmandades que dominam segredos ocultos", diz o especialista.

Os alunos de Costa perguntam com frequência qual é a melhor resposta para acabar com esse debate sem sentido e ele sempre conta "o argumento grego, vigente há 2.500 anos" que se baseia na sombra que a Terra projeta na Lua durante um eclipse lunar. "Se a Terra não fosse redonda, a sombra projetada na Lua teria outra forma, seria uma linha, uma barra, mas não; a sombra é sempre redonda e, portanto, a Terra é redonda", afirma.

Porém, há mais. "As pessoas dizem: 'o muro do fim da Terra está na Antártida'. Houve expedições que foram até a Antártida e não tiveram nenhum problema, nem encontraram nenhum muro". O professor segue: "qualquer pessoa que vá em um avião comercial a uma altura de até 11 mil metros acima do nível do mar verá a curvatura da Terra". Para ele, o melhor antídoto contra essas ideias é "ter contato com a ciência" porque, para ele, é "libertadora".