‘Presidentes da Nenê da Vila Matilde e de outras escolas precisam se unir para subir ao Grupo Especial’

Desfile da escola de samba Nenê de Vila Matilde no Sambódromo do Anhembi, em São Paulo. Foto: Livia Martins

Texto: Nataly Simões | Edição: Pedro Borges 

Vencedora de 11 títulos do Grupo Especial do Carnaval de São Paulo, a Nenê de Vila Matilde caiu para a terceira divisão pela primeira vez na história. A tradicional escola de samba da Zona Leste estava há três anos no Grupo de Acesso I e foi rebaixada para o II após conquistar somente 268,7 pontos no desfile de 2020.

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Com o enredo “O Presente da Deusa e o Brinde da Águia”, a agremiação contou a história da cerveja e a relação da bebida com o povo brasileiro. Figuras e personagens firmaram a longevidade do quilombo azul e branco na avenida e um dos pontos altos do desfile foi a harmonia, além da evolução e da Bateria do Bamba.

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Seu Nenê, o fundador da escola, foi bem representado com uma grande escultura central. Oscilações visíveis nas fantasias e alegorias impediram a agremiação de ter êxito em sua passagem pelo Sambódromo do Anhembi.

Para o sociólogo, pesquisador do samba e ex-presidente da Camisa Verde e Branco, Tadeu Augusto Matheus, conhecido como “Kaçula”, a queda da Nenê de Vila Matilde para a terceira divisão está ligada às mudanças no regulamento que rege o carnaval paulistano.

“O carnaval de São Paulo passou por mudanças que prejudicam as escolas tradicionais. O atual regulamento traz questões que beneficiam as escolas sem diferenciais como boa batucada, evolução e samba no pé. Não é por acaso que as últimas campeãs do Grupo Especial têm sido escolas sem tradição e com isso as agremiações fundadas nas origens do samba ficam alheias ao processo de disputa, como é o caso da Nenê de Vila Matilde”, afirma.

Kaçula destaca que os presidentes devem observar de forma crítica as mudanças no regulamento e se unir para questionar a falta de acesso das escolas de samba tradicionais à elite do carnaval.

“Em certa medida, eles também têm responsabilidade em observar como as mudanças no regulamento afetam as escolas tradicionais. Há um despreparo desses presidentes em fazer uma leitura crítica do regulamento em relação às escolas que eles administram. Essas lideranças também precisam se unir e questionar as questões que inviabilizam o acesso das escolas tradicionais ao Grupo Especial. Enquanto a postura dos presidentes não mudar, a situação ficará estática”, avalia.

Após a queda da Nenê de Vila Matilde para a terceira divisão do carnaval paulistano, integrantes da escola de samba insatisfeitos com a gestão do presidente Rinaldo Andrade, o “Mantega”, organizam uma manifestação pacífica em frente à quadra da escola. O ato, que pede a renúncia da direção da escola, já conta com mais de 1 mil apoiadores e será no dia 8 de março, às 14h.

Tradição e negritude

Fundada em 1949, a Nenê de Vila Matilde foi uma das primeiras agremiações carnavalescas criadas já com o propósito de ser uma escola de samba, atrás apenas da Primeira de São Paulo, de 1935, e a Lavapés, de 1937.

Segundo Tadeu Kaçula, a Nenê é fundamental para a compreensão de toda a estrutura do carnaval paulistano, especialmente do carnaval periférico.

“É fundamental tê-la como uma das principais referências de escola tradicional de São Paulo dada a complexidade de criar uma escola em um território completamente distante do centro da cidade. Se não fossem escolas como a Nenê terem surgido, nós não teríamos esse espetáculo diverso do carnaval e o volume de escolas de samba existentes hoje”, conta.

A agremiação, ao lado de escolas como a Camisa Verde e Branco, também possui como base o movimento de inclusão da comunidade negra. “Escolas como a Nenê servem não só como um espaço cultural como também de organização social da população negra para a manutenção da sua religiosidade e identificação após ficar de fora do processo estrutural do estado brasileiro”, acrescenta Kaçula.

Retorno da Vai-Vai para o Grupo Especial

A maior campeã do carnaval de São Paulo, Vai-Vai, retorna ao Grupo Especial em 2021 após desfilar pela primeira vez em sua história no Grupo de Acesso 1 e conquistar 270 pontos. A agremiação, com 15 títulos no Grupo Especial, trouxe em seu enredo “Vai-vai de Corpo e Álamo” o resgate de sua trajetória vitoriosa no carnaval paulistano.

Na avaliação de Tadeu Kaçula, a escola do tradicional bairro do Bixiga soube unir as forças necessárias para retornar ao Grupo Especial.

“A Vai-Vai apresentou um carnaval competitivo, pois se dispôs a pensar na importância da união da comunidade e estreitou os laços políticos para apresentar um bom resultado. Outras escolas que se encontravam na mesma situação nesse carnaval, como a Unidos do Peruche e a Camisa Verde e Branco, precisam observar e praticar o mesmo para que tenham condições de também subir ao Grupo Especial”.

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