Presidente do Iphan quer que golpistas paguem o restauro de obras destruídas

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Após bolsonaristas golpistas depredarem as sedes dos Três Poderes no domingo, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Iphan, avalia a possibilidade de fazer com que os responsáveis pelo ataque paguem o restauro dos prédios e obras destruídas, além de incluir o episódio em uma nova política de educação sobre memória que vai abordar escravidão e ditadura militar.

É o que afirma o novo presidente do órgão, Leandro Grass, do Partido Verde, a este jornal. Uma equipe de seis pessoas tem trabalhado desde o começo da semana para avaliar os danos ao Congresso Nacional, Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal, o STF, e um relatório preliminar que deve ser divulgado nesta quinta-feira (12).

"A gente tem várias possibilidades [de conseguir verba], tanto do Estado quanto de parcerias. Algumas instituições já se conectaram conosco, como bancos, fundações, a Unesco", afirmou Grass. "Seria também interessante, por óbvio, que a gente tivesse, a partir das responsabilizações, o ressarcimento de alguns atores que foram protagonistas em termos de ação ou omissão diante disso tudo."

Os golpistas que invadiram os prédios danificaram obras importantes da cultura brasileira, como o painel "Mulatas", de Di Cavalcanti, "O Flautista", de Bruno Giorgi, e "Galhos e Sombras", de Frans Krajcberg.

No Senado, os invasores urinaram em uma tapeçaria de Burle Marx, danificaram um tinteiro de bronze do Império, um quadro de 1890 que retrata a assinatura da Constituição e uma mesa do Palácio Monroe, onde funcionou a segunda sede do Senado, no Rio de Janeiro.

O ataque mais grave, no entanto, foi à sede do Supremo, para a qual os ministros ainda não voltaram, enquanto o Planalto recebeu reuniões e o Congresso já teve sessões.

"Está num cenário de guerra. Não foi só a destruição física. Eles deixaram mensagens de alguma maneira, agredindo, urinando. Tentaram incendiar a sala da Rosa Weber. Você vê bandeiras e livros rasgados. Estavam numa postura de barbárie, selvageria, queriam expressar um sentimento muito ruim. Dá para perceber um ambiente carregado de ódio."

Ele afirma que há diversas obras que não poderão ser restauradas, a exemplo de presentes de chefes de Estado. Outras poderão ser recuperadas inteira ou parcialmente.

Grass também afirmou que pretende fortalecer a área de educação patrimonial como forma de criar uma política de preservação da memória brasileira, o que atravessa a ditadura militar e os ataques do último domingo.

Ele disse ainda que pretende ajustar o regimento e o conselho consultivo do Iphan, tanto para ampliar a participação social, mas também em razão das mudanças feitas pelo governo Bolsonaro, que retirou do órgão pessoas críticas ao então presidente.

A presença de Grass para a presidência causou polêmica nos bastidores por ser uma indicação dos partidos da base aliada de Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, como o próprio Partido Verde e também o Partido dos Trabalhadores.

Grass tem formação em gestão cultural, mas nunca trabalhou com patrimônio. Ficou em segundo lugar na corrida pelo governo do Distrito Federal, atrás de Ibaneis Rocha, do MDB.

Ele concorreu contra conselheiros e servidores do Iphan, e parte da comunidade ligada ao patrimônio pedia que, após o governo Bolsonaro, a ministra Margareth Menezes escolhesse um nome técnico para o cargo.

O Iphan foi por diversas vezes atacado pelo ex-presidente e passou a maior parte do tempo sob a presidência de Larissa Peixoto, uma indicação política que ficou conhecida pela paralisia do órgão e pela tentativa de aparelhamento por aliados do bolsonarismo.

Grass, no entanto, defende que "não viu" essa resistência por parte de servidores e que foi bem recebido na entidade. Apesar disso, admite que cumpre o papel de um perfil mais político do que técnico, mas que tentará usar isso a seu favor.

"A gente está no momento de ampliação do diálogo. Está no momento de composição da sociedade brasileira. A gente vai precisar de paciência, de cuidado no trato institucional, algo que faltou na última gestão. A visão do presidente Lula e da ministra é de que eu atendo aos requisitos necessários para conduzir o órgão a uma retomada."

Ele ainda disse que escolherá nomes técnicos para as diretorias. Até agora, anunciou Andrey Schlee, que já presidiu o órgão, para o setor de patrimônio material, e Deyvesson Gusmão para o de patrimônio imaterial. Prometeu ainda indicar mulheres para os próximos cargos de chefia da entidade.