Preparadora vocal das estrelas explica por que artistas pop "dublam" a própria voz

Anitta e Britney são adeptas do playback (Foto: Reprodução/Instagram)

Por Felipe Abílio (goabilio)

Você já ouviu falar do “playback” e “base pré-gravada”? Desde o início dos anos 90 esses termos vêm sendo bastante utilizados ao falarmos de artistas pop. Britney Spears, conhecida como a princesa do pop, também é chamada de rainha do lipsync — como é chamado o “playback” em inglês.

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A cantora costuma usar bastante o recurso desde sua estreia há 20 anos. Em sua primeira passagem pelo Brasil, no Rock in Rio de 2001, a americana foi alvo de críticas depois que o público percebeu o “truque” em um show para 100 mil pessoas. Quem “cantou” foi uma pré-gravação produzida em estúdio.

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Dezoito anos depois, o mesmo assunto ganhou as manchetes do Rock in Rio 2019, mas com outra cantora pop: a brasileira Anitta. Reportagens pipocaram dizendo que a dona de “Vai Malandra” não estava cantando ao vivo em algumas partes do show, fato confirmado por ela mesma. “Quando é um show que tem muita dança, muita coreografia, normalmente são gravadas vozes de apoio, sim”, disse ela para os jornalistas após o show.

A prática pode ser pouco confessada, mas é bastante utilizada por grandes nomes da música como Madonna e Beyoncé. A questão é: por que elas precisam de uma voz gravada durante o show?

Uma das preparadoras vocais mais requisitadas do Brasil, Valéria Leal é fonoaudióloga e acompanha artistas como Daniela Mercury, Carlinhos Brown e Anitta. Ela é a responsável por manter a qualidade da voz das artistas por mais de seis horas de trio elétrico no Carnaval de Salvador, por exemplo. A profissional explica o motivo que faz com que os artistas mais renomados usem esses recursos vocais.

“Cantar e dançar simultaneamente exige treinamento específico, controle respiratório e uma coreografia adaptada que leve em conta a biomecânica do corpo e da laringe. A coreografia precisa respeitar as pausas respiratórias. Quando há uma dança muito intensa, alguns artistas preferem ter uma base pré-gravada para um determinado trecho e o restante é cantado ao vivo.”

De acordo com ela, é necessário saber diferenciar os recursos disponíveis que são dois: playback e base pré-gravada.  “No playback, o cantor não canta um trecho da música, ela é inteira dublada. Na base pré-gravada são definidos trechos que funcionam como uma voz de fundo, com reforço na emissão de backing vocais ou com a voz do próprio cantor.

Eventos que requerem bastante concentração por exigirem muito do emocional do artista como apresentações de grandes dimensões transmitidos pela TV, também são os campeões de uso do recurso.

“Beyoncé utilizou playback durante a execução do hino americano na posse do presidente Barack Obama em 2013 porque não se sentiu confortável. Mariah Carey, na performance do American Idol. É preciso ter um uso consciente com bom senso para que o cantor execute a música na grande parte da apresentação sem nenhum tipo de recurso de base gravada”, avalia Valéria.

A própria Beyoncé admitiu o uso do playback durante o evento. “Era uma apresentação ao vivo para a televisão, uma apresentação emotiva e muitíssimo importante para mim, um dos meus momentos de maior orgulho, e devido ao clima, ao atraso, por não ter havido uma passagem de som adequada, não me senti confortável para assumir os riscos”, contou.

No caso de Anitta, Valéria diz que a cantora se prepara desde o início da carreira para continuar com voz potente enquanto dança, mas em shows enormes com muita coreografia, não é possível respeitar as pausas que o corpo precisa.

“Atendo a Anitta desde quando ela tinha 19 anos. O nosso planejamento inclui preparação e treino de resistência vocal para cantar e dançar com uma agenda repleta de shows. Para que a voz se mantenha firme, cantar e dançar de forma coordenada exige condicionamento, treinamento vocal, treinamento cardiorrespiratório, resistência vocal, manobras e ajustes que compensem o uso da voz durante a dança. A coreografia precisa respeitar as pausas respiratórias. O corpo precisa estar estável nas emissões agudas, intensas e prolongadas. A coreografia deve ser inteligente para possibilitar a execução correta do canto.”

Para aguentar a maratona vocal de cantar por duas ou mais horas seguidas, além de todos esses preparos, a dieta do artista também precisa ter uma atenção diferente.

“As cantoras com grande atividade no palco precisam de treinamento específico, coreografias de baixo impacto e a utilização de carboidratos de ingestão rápida, que é uma bebida utilizada por maratonistas para evitar e/ou retardar o efeito de fadiga corporal e vocal. O carboidrato de ingestão rápido é mais uma opção, mas que não substitui o treinamento corporal e vocal adequado.”