A gente precisa mesmo de novas temporadas de "Sex And The City" e "Gossip GIrl"?

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Carrie (Sarah Jessica Parker), Miranda (Cynthia Nixon) e Charlotte (Kristin Davis na nova temporada de
Carrie (Sarah Jessica Parker), Miranda (Cynthia Nixon) e Charlotte (Kristin Davis na nova temporada de "Sex And The CIty".

Resumo da notícia

  • Remakes de "Sex And The City" e "Gossip Girl" e a nostalgia subsequente

  • Como histórias conhecidas têm ganhado novas roupagens

  • Onde estão as histórias novas, originais e que demonstram o momento que vivemos?

Na última semana e meia, parece que a internet viveu mais um momento de nostalgia: chegou à HBO Max a primeira temporada do remake de "Gossip Girl", série de 2007 que foi um sucesso absoluto. Depois, fomos (muito) impactados pela primeira foto da nova temporada de "Sex And The City", uma continuação de dez episódio da história de Carrie Bradshaw. Para quem foi fã das duas produções, as notícias são ótimas - alô, millennials, estamos falando com vocês! -, ao mesmo tempo, fica a pergunta, será que esses formatos, de fato, funcionam hoje em dia?

Verdade seja dita, por mais que tivessem sido grandes sucessos da televisão e do cinema, as duas séries, sob a luz atual, são bastante problemáticas - a começar pela questão da representatividade, diversidade e reforço de estereótipos. Apesar de "SATC" lidar com questões importantes como a libido feminina e o até a vida sexual de mulheres depois dos 40, ainda assim demonstrou, mais de uma vez, uma relação bastante tóxica com os homens - o famoso Mr. Big, por mais ideal que pareça, tinha sérias questões com a independência de Carrie - e a própria personagem tinha suas ressalvas.

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Aliás, parece que o mundo do entretenimento está vivendo um momento para lá de nostálgico. Um exemplo disso é o frenesi causado pelo reencontro do elenco da icônica série "Friends", feito com exclusividade para o HBO Max. Quem foi fã da série - e é até hoje -, com certeza chorou com a conversa entre os atores. O mesmo vale para o elenco de "Um Maluco no Pedaço", que ganhou um reencontro no mesmo formato da série anterior.

Com a pandemia de coronavírus e a falta de produções novas para assistir - além do boom de questões de saúde mental como ansiedade e depressão -, muita gente foi atrás do que conhecia: rever séries queridas, maratonar os episódios preferidos, até começar uma série famosa que já estava completa nos serviços de streaming.

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Aliás, segundo o The New York Times, muito distante das séries super premiadas e recentes de serviços como a Netflix, em 2020 o público norte-americano se voltou quase que totalmente para produções de mais de uma década de idade durante o período de pandemia e quarentena. "The Office", que estreou originalmente em 2005, foi a campeã de audiência. "Grey's Anatomy" é do mesmo ano, mas é uma série que segue na ativa. Ainda assim, ficou com o segundo lugar das mais assistidas, seguida de perto por "Criminal Minds", uma série também de 2005.

Assim como a Disney descobriu que fazer uma versão live action dos seus principais filmes de animação ("Bela e a Fera", "Alladin", "Mulan") seria extremamente rentável, as grandes produtoras de séries parecem pensar a mesma coisa - os quatro episódios especiais de "Gilmore Girls", que estrearam na Netflix há algum tempo, parecem ser um bom exemplo disso.

Mas o que todas essas produções têm em comum é um quê de nostalgia. Os filmes da Disney (considerados cringe pelas gerações mais novas), marcaram a infância dos millennials, que com certeza estavam no cinema para cada uma das versões live action que foram lançadas até agora. Também é uma geração que cresceu com "Gilmore Girls" e acompanhou desde cedo as histórias de Meredith Grey como residente médica. Que viu na televisão a final de "Friends", quando ainda era preciso esperar meses até uma nova temporada chegar legendada no Brasil, na TV a cabo. E que assistia reprises de "Um Maluco no Pedaço" na hora do almoço depois da escola. Ou seja, boa parte do público pagante de hoje cresceu com as séries e filmes que estão sendo rebutados agora.

Mas será que precisa?

No live action de "A Bela e a Fera", Emma Watson, que interpretou a protagonista, fez questão de dar um viés feminista para a história: Bela, além de intelectual, era inventora e buscava soluções para atividades mundanas, como uma forma de ter mais tempo longe das tarefas domésticas e mais tempo estudando. Jasmine, de "Alladin", também falava sobre não ser livre para escolher o que fazer com a própria vida e ser usada como moeda de troca entre reinos e tratada como um objeto. Muitas dessas produções ganharam uma nova camada de problematização, acompanhando o cenário atual. Ainda assim, será que esses formatos realmente funcionam para o mundo de hoje?

No caso de "Gossip GIrl", ainda que existam temáticas importantes sendo tratadas, como sexualidade fluída, uma mulher trans no elenco e mais diversidade como um todo, a superficialidade dos personagens e do roteiro deixa a desejar num momento em que tudo o que vemos é político - até mesmo os memes passaram a ser politizados, ainda que nos façam rir muito.

Sobre "Sex And The City", ainda é difícil saber como será o retorno de Carrie, Miranda e Charlotte (Samantha, infelizmente, ficou fora dessa), mas será que não existem novas histórias de mulheres maduras que possam ser contadas e que não se utilizem de uma fama antiga para deslanchar? Isso, claro, sem contar as polêmicas.

A pergunta que fica é, exatamente, essa: onde estão as novas histórias? Repaginar histórias antigas com uma camada atual, com um elenco mais diverso, às vezes totalmente o oposto do que era na versão original (a série "Anos Incríveis", por exemplo, será relançada com uma família negra da década de 1960, por exemplo, e essa é uma conquista que deve ser muito celebrada), pode ser interessante para uma parte do público, mas, com a internet e a exposição gigante que ela trouxe para tantos escritores e personagens diferentes, fica difícil acreditar que surgir com novas histórias interessantes e engajantes é difícil.

Resta esperar para ver, mas, em pleno 2021, a falta que faz uma série que, de fato, explique o que é viver em um mundo como o que experienciamos hoje (não necessariamente o momento pandêmico) é gritante e, talvez, só seja reconhecida mais para frente, quando o público de reboots e live actions já não tiver mais pique para ficar sentado tanto tempo na mesma posição na frente de uma tela de computador.

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