Postura machista de José Leôncio é uma das faces reais da família brasileira

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José Leôncio (Marcos Palmeira) em
José Leôncio (Marcos Palmeira) em "Pantanal" (Reprodução Globoplay)

Decidida a desfazer estereótipos e trazer personagens multifacetados mais adequados à época atual, "Pantanal" tem feito um esforço visível para atualizar tramas problemáticas da antiga novela veiculada pela "Manchete" em 1990. O jeito "bronco" e calcado na masculinidade clássica de José Leôncio foi suavizado e algumas expressões foram modificadas, mas o roteiro fez questão de mostrar o machismo e a homofobia do peão como um contraponto à contemporaneidade de Jove, o filho "desconstruído" criado longe dos rincões do Pantanal.

Em uma cena dolorosa de assistir, José Leôncio disparou contra Jove e deu um show de machismo, misoginia e homofobia. A aproximação de Jove (Jesuíta Barbosa) com Juma (Alanis Guillen) foi o que motivou a discussão entre pai e filho. O peão deu a entender que o filho estava se relacionando com a moça e não gostou quando o herdeiro respondeu que é possível gostar de uma mulher sem o interesse sexual. Em conversa com Filó (Dira Paes), Zé Leôncio (Marcos Palmeira) afirmou que o filho é uma "fêmea", o chamou de vagabundo por não ter uma profissão e o criticou por não ser como os outros peões do Pantanal.

"Sou homem, meu pai. Não preciso sair no braço com outro cara, não preciso andar de cavalo e contar vantagem sobre mulher para ser mais homem ou menos homem que o senhor", se defendeu Jove. "Você só tem meu sangue. Você puxou sua mãe e aquele avô jogador de baralho (...) Eu não sou o pai que você esperava e você não é o filho que eu queria ter mais eu. Faz tua mala e vai. Volta para o seu mundo, Joventino. Vamos tentar esquecer na medida do possível o desgosto que um tem feito o outro passar", disparou o dono das terras.

Infelizmente, o discurso cruel e violento de José Leôncio está longe de ser fantasia. No Brasil, a violência contra crianças e adolescentes por parte dos pais é avassaladora, e é uma das facetas da família tradicional brasileira que muitos preferem ignorar.

Infância desprotegida

Dados da Sociedade Internacional de Prevenção ao Abuso e à Negligência na Infância (Sipani) de São Paulo revelam que 18 mil crianças são vítimas de violência doméstica por dia. O número aumentou a partir de 2020, com a chegada da pandemia, já que as crianças deixaram de ter o respiro da creche e da escola em lares abusivos.

De acordo com dados do Disque 100, um dos canais da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos, do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (ONDH/MMFDH), a violência contra crianças e adolescentes atingiu o ápice de 50.098 denúncias no primeiro semestre de 2021. Desse total, 40.822 (81%) ocorreram dentro da casa da vítima.

18 mil crianças são vítimas de violência doméstica por dia. 81% delas foram abusadas por familiares

Os maiores perpetradores de violência contra as crianças são parte da própria família, como pai, mãe, padrasto e madrasta, tios e avós. Mais de 93% das denúncias são ataques contra a integridade física, incluindo espancamento, negligência e estupro, além de falta de acesso a alimentação, higiene, educação e tentativas de cárcere privado. Mais de 70% das crianças nessas denúncias sofriam abusos diários.

Entre 2016 e 2020, 35 mil crianças e adolescentes de 0 a 19 anos foram mortos de forma violenta no Brasil – uma média de 7 mil por ano, de acordo com dados da UNICEF. Em quase 90% dos casos de mortes violentas de crianças entre 0 e 4 anos de idade, o autor é alguém conhecido da vítima, em geral parte da família.

A LGBTQIA+ fobia é estrutural

Além de machista, as declarações de José Leôncio tocaram outro ponto que marginaliza crianças, adolescentes e jovens adultos a todo momento no Brasil: a LGBTQIA+fobia. As falas do peão podem parecer apenas fruto de choque geracional, mas discursos legitimam posturas violentas e impactam diretamente no número de jovens mortos no Brasil em ataques homofóbicos. Mesmo sendo hetero, Jove sofre preconceito por ser considerado "afeminado" pelo pai, em uma postura que demonstra perfeitamente como até mesmo pessoas normativas, brancas e heterossexuais são prejudicadas por padrões misóginos de masculinidade.

De acordo com dados levantados pelo Grupo Gay da Bahia (GGB), 329 lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais foram mortos de forma violenta no Brasil em 2019. Cálculos do órgão indicam ainda que um LGBTQIA+ foi assassinado a cada 26 horas, o que faz do país o campeão mundial de crimes contra minorias sexuais. Do total, 35,5% das vítimas foram assassinadas dentro de suas próprias casas, indicando que a violência foi praticada por conhecidos ou familiares.

Um LGBTQIA+ é assassinado a cada 26 horas no Brasil, o que faz do país o campeão mundial de crimes contra minorias sexuais

O preconceito contra pessoas não-normativas e LGBTQIA+ influi diretamente na qualidade de vida e possibilidade de futuro de adolescentes e jovens. Na cidade de São Paulo, onde estima-se que 24.344 pessoas vivam em vias ou albergues públicos, cerca de 10,9% são LGBTQIA+. Quanto mais próximo à diferentes camadas de marginalização, menor a expectativa de vida indivíduo: uma mulher trans, pobre, preta e gorda, por exemplo, é vítima de um atravessamento de extermínios que reflete diretamente na sua capacidade de sobrevivência. Segundo dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), 90% do grupo no Brasil é composto por profissionais do sexo.

No Brasil, a transfobia é criminalizada, mas a punição dos criminosos ainda é dificultada pelo fato da homofobia não ter uma legislação própria. Em 2019, Supremo Tribunal Federal decidiu que declarações homofóbicas podem ser enquadradas no crime de racismo; a pena é de 1 a 3 anos, podendo chegar a 5 em casos mais graves. Com a decisão do STF, o Brasil se tornou o 43º país a criminalizar a homofobia, de acordo com o relatório "Homofobia Patrocinada pelo Estado", elaborado pela Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais e Intersexuais.

A falta de uma legislação específica que atenda os crimes de homofobia e transfobia dificulta a denúncia das vítimas e a punição dos opressores, e os dados no Brasil comprovam que a situação é urgente. O Brasil é o país que mais mata pessoas LGBTQIA+, especialmente mulheres pessoas trans, de acordo com dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA). Em 2020, foram 175 pessoas trans assassinadas, sem contar o número de crimes não declarados.

O que diz o elenco

Na coletiva de imprensa de "Pantanal", Jesuíta Barbosa, intérprete de Jove, afirmou que a intenção do roteiro sempre foi mostrar como o encontro entre o campo e a cidade pode ser violento. O personagem do fotógrafo e o pai, Josê Leôncio, também precisam lidar com diferenças geracionais e um hiato comportamental gigantesco a respeito de dois ideais antagônicos de masculinidade.

"O Jove chega da cidade, um cara urbano, cosmopolita, e vai para um ambiente completamente diferente. A tradução dessa nova história tem uma possibilidade de discutir esse outro lado, que é o lado que cria esse conflito com o Pantanal. A trama não fica paternalista, do pai que quer que o filho seja macho, peão. Tem uma outra discussão, a partir desse ganho que tivemos nessas novas gerações sobre discussão sexual, sobre empoderamento. Acho que a gente consegue criar essa diversificação agora. Isso é o mais importante. O Jove é complicado, porque ele alterna entre o Rio de Janeiro e o Pantanal, mas é esse o equilíbrio. É sempre violento, não tinha como não ser", explicou.

Embora as cenas sejam um gatilho para o público, a trama pode ser um ótimo ponto de discussão sobre machismo, misoginia, homofobia e outras questões atuais e que precisam ser discutidas abertamente, especialmente na TV aberta. Embora o personagem de José Leôncio represente as sombras da família brasileira que muitas vezes fingimos que não existe, o contraponto de Jove e outros personagens como Guta, que se recusam a abaixar a cabeça diante do patriarcalismo, pode trazer um entretenimento com viés político essencial para a tela da Globo.

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