Positividade tóxica: somos obrigados a ser feliz o tempo inteiro?

Positividade tóxica define a cultura de não olhar para os sentimentos ruins e valorizar apenas os bons (Foto: Prateek Katyal / Unsplash)
Positividade tóxica define a cultura de não olhar para os sentimentos ruins e valorizar apenas os bons (Foto: Prateek Katyal / Unsplash)

Você já ouviu falar no termo positividade tóxica? Na última semana, um post do perfil Razões Para Acreditar, no Instagram, viralizou porque falava, justamente, sobre a onda que vemos online que prioriza o discurso “good vibes”, mas parece ignorar os sentimentos ruins.

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O texto de legenda foi escrito pela psicoterapeuta Érika Maracaba e começava da seguinte maneira: "Uma coisa é não querermos ficar aprisionadxs em sentimentos ruins, outra é essa tirania da positividade atual".

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"Achei o termo Positividade Tóxica por acaso. Ele pareceu condensar direitinho muito do que vinha pensando, lendo e observado – tanto nos meus atendimentos enquanto psicoterapeuta, quanto nos discursos das pessoas nas mídias sociais e também fora delas", explicou em entrevista ao Yahoo!.

Érika, que mora na Alemanha, explica que quando estava no Brasil teve acesso à outras formas de terapia além da psicologia, algumas com bases espiritualistas e que se mesclaram, mesmo que de forma equivocada, com valores do nosso sistema socioeconômico.

"As crenças dessa união entraram no discurso comum, e as pessoas passaram a acreditar que se mantendo com pensamentos e sentimentos positivos o tempo inteiro podem conquistar tudo e, principalmente, serem felizes sempre. Na outra via, quem não fizer isso, é uma pessoa tóxica", diz ela.

Nesse segundo grupo, entram tanto as pessoas que estão passando por um problema e reclamam disso, quanto aquelas que estão em um sofrimento psíquico mais sério, como a depressão. “Nisso, esse grupo de pessoas é culpado pelas situações que estão passando, pois se pensassem positivamente e não se vitimizassem, estariam bem", conclui.

De acordo com a psicóloga clínica Ana Carolina Liciani, especialista em terapia cognitiva comportamental, a positividade tóxica vem de uma pressão social. É uma visão que diz que não só não devemos sentir coisas ruins como os únicos sentimentos válidos são os bons, e ter algum problema de ordem emocional torna você uma pessoa fraca e não-resiliente.

Positividade Tóxica: é proibido ser feliz?

"O que vejo são pessoas se esforçando para se sentirem muito realizadas e satisfeitas, mesmo vivendo uma rotina esgotante. Nada de errado em buscar estar feliz, mas essa felicidade compulsória, que não permite nenhum tipo de sentimento humano considerado negativo, é insustentável", diz Érika.

A questão, justamente, não é a felicidade em si, mas tornar tabu assuntos tão importantes e essenciais para alcançar uma vida feliz. É o caso de discutir mais a fundo a saúde mental das pessoas e dar à elas a liberdade para falarem sobre o que sentem, sem serem julgadas por isso.

"Acredito que para resolvermos um problema é necessário conhecê-lo. Enquanto buscamos apenas sermos vistos como positivos, estamos enganando a nós mesmos sobre o que se passa em nossa vida real, em nosso interior. A preocupação em estar bem torna-se mais importante que nos ouvir e conhecer a nós mesmos e quando algo não vai bem, nos percebemos cada vez menos preparados para lidar com as frustrações e desapontamentos, já que frequentemente negamos esses sentimentos", explica Ana Carolina.

Ao não falarmos sobre as sensações ruins, perdemos o contato com nós mesmos e a nossa habilidade de auto-compaixão e auto-compreensão para nos colocarmos à mercê da aprovação alheia.

Isso significa que, ao buscar a aceitação constante dos outros passando uma imagem supostamente positiva, deixamos de cuidar do que sentimos. "O risco é estar em constante sofrimento, atolados de problemas, em uma busca sem fim pela felicidade, enquanto os sintomas de depressão, por exemplo, se desenvolvem em silêncio", diz a psicóloga.

Como agir, daqui para frente?

Érika diz ter ficado muito surpresa com a repercussão do post, que já teve mais de dois mil comentários desde a sua publicação, na semana passada, mas entendeu que a sua reflexão expôs uma dor comum.

E por mais que, segundo ela, as redes sociais tenham contribuído para uma despotencialização da vida e uma disseminação dessa visão distorcida do que sentimos, existe uma forma de reverter esse quadro.

“Tento colocar na prática ao máximo o que escrevi no texto, tanto na minha vida como facilitando processos terapêuticos com meus clientes. Dando passagem para todos os sentimentos, sem julgamentos, deixando que eles cumpram sua função, mostrando o que é preciso e facilitando experiências transformadoras. Quando passamos a vivenciar, sem medo, todos os nossos sentimentos, eles fluem mais saudavelmente", diz ela.

Para Ana Carolina, a empatia tem um papel essencial nessa reversão, e pensar duas vezes ao conversar com alguém que, corajosamente, decide dividir o que pensa pode ser o ponto-chave para tirar o tabu de cima de sensações não-felizes.

“Acredito que a empatia e o estilo de comunicação assertiva sejam os melhores caminhos, assim você pode validar o que ouve e gerar esperança. Se colocar no lugar do outro, acolher, demonstrando compreensão e em seguida encorajá-lo conforme o contexto e seu momento de vida", diz Ana Carolina. “Se alguém está reclamando, é porque esta doendo, gerando algum desconforto, então simplesmente dizer ‘Pare de ser tão negativo!’ não irá ajudar a pessoa a se movimentar, apenas a se calar; mas você pode acolher e encorajar: ‘É normal ter pensamentos negativos nessa situação!'".

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